Dia de poesia – Pablo Neruda – Quero que saibas

Tu sabes como é:
se olho a lua de cristal, os galhos vermelhos do outono em minha janela,
se toco junto ao fogo as impalpáveis cinzas
no corpo retorcido da lenha,
tudo me leva a ti,
como se tudo o que existe:
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam em direção às ilhas tuas que esperam por mim.

Agora, bem,
se pouco a pouco tu deixares de me querer
pararei de te querer
pouco a pouco.

Se de repente me esqueceres
não me procure,
pois já terei te esquecido.

Se consideras violento e louco o vento das bandeiras que passa por minha vida
e decidires me deixar às margens do coração no qual tenho raízes,
lembra-te
que nesta dia,
a esta hora
levantarei os braços e minhas raízes partirão em busca de outra terra.

Mas
se em cada dia,
cada hora,
sentires que a mim estás destinado com implacável doçura,
se em cada dia levantares uma flor em teus lábios para me buscares,
oh meu amor, oh minha vida,
em mim todo esse fogo se reacenderá,
em mim nada se apaga ou se esquece,
meu amor se nutre do seu, amado,
e enquanto viveres
estará em teus braços
sem deixar os meus.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Eu sou

Eu sou aquela que espera, dia e noite
Uma espera sem acreditar
Uma espera de nada
 Por vezes nem mesmo sem nem saber
O que se está esperando
Porque já não se deseja nada
Tanta espera, tanto vazio
E uma saudade sem fim

Eu sou aquela que sente saudade
De um tempo, de um dia, 
De um momento, quase nada
Saudade de um olhar, de um toque
Um cheiro que o tempo não leva
Um amor que o tempo não extingue
Uma esperança desesperançada
Um querer que só faz sofrer

Eu sou aquela que sofre
Por um abandono inexplicado
Por um descaso tão doído
Um sofrer do fundo da alma
Que apaga o brilho do olhar
Que embaça até as estrelas
E tem sempre vontade de chorar

Eu sou aquela que chora
Que as lágrimas escorrem quentes
Em uma face agora sempre gelada
Chorar de amar inutilmente
Uma paixão sem futuro
De tanto esperar e ter saudade
De tanto sofrer e chorar
De tanto querer morrer

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Victor Fernandes

Se você sabe que das últimas vezes que cedeu e deu novas chances, acabou ainda mais machucada(o), por que ainda insiste?
Se você sabe que não recebe aquilo que tanto espera, por que ainda espera?
Se você sabe que chora muito mais do que ri, por que ainda permanece?
Se você sabe que pode ser feliz em outro lugar, por que não compra as passagens?
Se você sabe que merece mais, por que não vai buscar?
Você fica aí, acreditando que amar sozinha(o) vai trazer algum resultado, que a felicidade vai aparecer do nada, que a reciprocidade que você tanto espera vai surgir agora, sendo que ela(e) teve todo tempo do mundo para aparecer…
Eu sei que é algo bonito amar sem esperar algum retorno, mas mais bonito que isso é ser feliz com alguém, é ser amada(o) de volta, é ser cuidada(o), respeitada(o), incentivada(o) e até um pouco mimada(o)…
Dizem por aí que amor não depende de reciprocidade, óbvio, para nascer, amor nenhum precisa da reciprocidade…
Mas para crescer forte e saudável, fazer mais bem do que mal, ajudar a elevar e não a derrubar, tem que haver reciprocidade, caso contrário, é pedir para se machucar todos os dias um pouquinho…
Claro que também não dá para controlar o coração, dizer “ei, coraçãozinho querido, vamos amar outra pessoa ou, pelo menos, vamos ficar só com o amor próprio por enquanto?”
Mas é preciso ensinar o coração a caminhar em outra direção, mostrar pra ele que ali não há presente nem futuro, que o que se colhe ali é dor, e coração não nasceu para doer… Certo?
Você entende que tô falando isso pro seu bem?

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Mia Couto – Diz meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti
sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos
sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável
procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome

(imagem: banco de imagens Google)

Poesia casa – Casas tristes

Aquelas  casas  tristes da periferia, paredes rachadas,
Tintas descascadas, abrem suas  portas ao amanhecer
E despejam no mundo, infelizes, seus moradores, filhos da miséria
Que não têm vida, só trabalho,  e apenas sobrevivem
 
E dali saem a cada manhã, teimando em tentar viver
Meninos arredios, moças sonhadoras, mulheres sem sonhos
E homens de mãos e almas calejadas da dura lida
Cada um leva consigo uma história de desencanto

E por mais um dia lutam, batalham e esperam
Que o amanhã lhes traga finalmente a boa nova
Sem se dar conta que esse dia na verdade, não é mais um
É, na verdade, menos um que descontam no viver

E quando a noite enfim apaga o sol e  fecha o dia, 
todos ali retornam, rostos  tristes, corpos  tão cansados
buscando um abrigo, um repouso, seu descanso 
E então dormem seus sonos sem sonhos, só pesadelos.

Nessa hora as casas os recebem, na volta de mais um dia  
 Sem alarde as casas então abertas para abrigá-los, em silêncio
Docemente como grandes mães protetoras
Fecham suas portas, esperando novo amanhecer
(Sta. Gertrudes, 18.09.15)