Dia de poesia – Olavo Bilac – Os rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,
Ora em rebojos galopantes, ora
Em desmaios de pena e de demora,
Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar...Mas, leito em fora,
Correis... E misturais pela corrente
Um desejo e uma angústia, entre a nascente
De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança...
Pois no vosso clamor, que a sombra invade,
No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade
De todos os que vivem de esperança,
De todos os que morrem de saudade...

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Texto de Alexandro Gruber – Quem ama também desiste

Quem ama também desiste!!!

Desiste quando percebe que não se pode amar por dois…

Desiste quando entende que onde não há reciprocidade, não vale a pena ficar…

Desiste quando compreende que só o amor não é suficiente…

É preciso comprometimento e vontade de fazer dar certo…

Quem ama também desiste!!!

Desiste depois de tanto insistir e machucar o próprio coração…

Desiste depois de cansar de lutar por alguém que não faz por merecer tanto afeto…

Desiste depois que aprende que se pra amar alguém a gente tem que se amar menos, não é amor de verdade…

Quem ama também desiste!!!

Desiste do outro, mas jamais de si…

Desiste da esperança de que algo mude, porque entende que só vivemos com a realidade e não com a ilusão de como as coisas poderiam ser…

Acredite, quem ama também desiste…

Porque chega um momento que é preferível partir, mesmo existindo amor, do que permanecer buscando sentimentos, onde só se encontram espinhos para o coração…

Quem ama sabe desistir do que dói…

Porque é válido desistir de quem machuca…

A gente só não pode desistir da gente!

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Angela Caboz (Confissões de uma miúda gira) – Lembra-te de mim

Lembra-te de mim
Quando os teus braços pedirem um abraço
Quando os teus pés não derem um passo
Quando da tua boca não sair uma palavra
Quando o coração deixar de bater no compasso
Quando quiseres respirar e não tiveres espaço
Saberás então, por quem o teu corpo implora

Lembra-te de mim
Quando em ti não sobrar uma gota de saudade
Quando o sofrimento em ti se instalar
Quando começares a andar mais devagar
Quando já não te lembrares da tua idade
Quando o teu corpo sentir frio
E já não tiver ninguém para o aquecer
Saberás então, porque não corre água neste rio

Lembra-te de mim
Quando me vias sofrer lentamente
Quando não te sabia esquecer
Quando me prometias amar eternamente
Mesmo sabendo que isso não ia acontecer

Então, lembra-te de mim
Agora que vês o círculo do tempo a fechar
Agora que a glória já te abandonou
Agora que sabes com um vencedor vai acabar
Depois de ter tido tudo,
menos quem te amou

Lembra-te de mim
Como sendo aquela que enlouqueceu por amor
Mas a quem tu não soubeste amar
Lembra-te de que quem me matou não foi a dor
Mas sim, o amor que não me soube curar

Lembra-te mim
Porque te espero na última esquina da vida
Para te mostrar
que de ti, ainda não estou esquecida

Agora que o teu final está a chegar
E encontras todas as portas fechadas
Tentas falar,
mas quem é que te vai escutar?
Somente eu e o meu amor
Tudo o resto,
são agora apenas águas passadas
De quem te amou, apenas por favor…

Memória – No azul do céu – (07.03.2019)

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, / Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz / E corre um silêncio pela erva fora. (Fernando Pessoa)

Céu muito azul, fim de outono, anúncios de inverno.

Folhas ainda verdes, chuvas temporãs ajudando a natureza.

Nada muda para a humana percepção. Em um de repente sei que o céu se cobrirá de cinza, sei que ventos violentos surgirão não se sabe de onde vindos, as folhas não estarão mais nas árvores, mas cobrirão o chão.

Mas não poderei ver os detalhes dessas mudanças, a cada segundo se preparando para nos surpreender.

Vemos o antes e o depois. Não temos capacidade para escrutinar momento a momento o que se passa em torno de nós.

Um dia, sem que nos déssemos conta, ficamos adultos, responsáveis por nós mesmos, nossa felicidade, nosso bem-estar e nosso sustento. E, ainda mais de repente, nos tornamos responsáveis por tudo de nossos filhos, tão pequenos, tão dependentes.

E quando olhamos novamente, eles já se tornaram adultos, tomaram as rédeas da própria vida e se foram.

E nos tornamos responsáveis então pelos nossos pais, que eram tão fortes, tão determinados, tão independentes. Apenas a nossos olhos.

E os ventos se vão, a chuva cessa e novas folhas nascerão quando vier a primavera.

Quem sabe se ainda estará aqui para ver as flores que virão? E quem conosco ainda estará nessa nova estação?

Mas tenho uma certeza nessa vida: a de que o céu será – quase sempre – lindamente azul.

(Imagem: foto de Maria Alice)