Dia de poesia – Margaret Atwood – Variação sobre a palavra Dormir

Ontem enquanto você dormia… – Blog Odair Jr.
Gostaria de observar-te enquanto dormes,
algo que talvez não ocorra.
Gostaria de observar-te,
enquanto dormes. Gostaria
de dormir contigo, de penetrar
em teu sono enquanto a sua onda suave e escura
desliza sobre minha cabeça
e caminhar contigo através dessa luzente
e ondulante floresta de folhas verde-azuladas
com o seu sol desbotado e três luas
rumo à gruta a que deves descer,
até o pior de teus medos
Gostaria de dar-te o ramo de prata,
a pequena flor branca, a única
palavra que irá proteger-te
da aflição no cerne
do teu sonho, da aflição
no cerne. Gostaria de seguir-te
outra vez pela longa
escadaria e converter-me
no barco que te traria de volta
com cuidado, uma chama
em duas mãos arqueadas
até onde repousa o teu corpo
ao meu lado, no qual adentras
tão facilmente quanto um respiro
Gostaria de ser o ar
que te habita por um momento
apenas. Gostaria de ser tão despercebida
e tão necessária.

Poesia da casa – Rotina

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Sons que atravessam o espaço 
e trazem o sussurro do que foi perdido
Vento que vem de tão longe com o perfume de flores desconhecidas
Mostram que o mundo é pequeno, é só um, é esse único mundo
Os que sofrem coabitam o mesmo mundo dos felizes
Rastros de estrelas ainda brilham pelo espaço
Mesmo depois que o sol surgindo ameaça tudo apagar com sua luz
A lua tristonha e esmaecida desaparece por trás dos montes
Porque essa Terra gira e gira sem nunca parar
E sol e lua se alternam desde sempre e assim sempre será
E os homens esperam a cada dia o novo amanhecer
Acreditando que nessa rotina infalível está a felicidade
Se nada muda na natureza e as estações do ano
Se sucedem e trazem suas velhas novidades
Na vida de cada um tudo se altera e nada fica
Mas é preciso acreditar que tudo se manterá
E teremos, sempre a certeza de que teremos
Em cada dia, nossos passos, 
em cada noite, nossos sonhos... 


Pétalas

Sou Serena como uma flor: Rosa Seca...

Penso em tantas flores que recebi

E outras tantas que ofertei

Quanta simbologia, quanto carinho

Flores deixadas durante a madrugada

No batente da janela, nas inúmeras serenatas

Buquês caprichados entregues por emissários

As orquídeas que floriam meses a fio

Cestas de flores, coloridas e alegres

Ou a singela rosa solitária, cumplicidade e convite…

De tantas flores, restaram algumas tristes pétalas

Prensadas entre as folhas de velhos livros

Sem viço, sem perfume, apenas lembrança

Da alegria do que um dia foi receber as flores

Assim como a saudade, tudo o que  resta,

Como velhas fotos desbotadas de pessoas que se foram

Amores que morreram, paixões que esfriaram

Tudo hoje são as pálidas e secas pétalas

Cuidadosamente esquecidas entre as pregas da memória

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória do blog – Tempo bom

É verdade, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…

Viajávamos à vontade, carro, ônibus, avião, cruzeiros de navios…

Podíamos nos hospedar em hotéis em qualquer lugar do mundo. Íamos livremente às lojas, havia dinheiro girando pelo mundo, bastava trabalhar e já se ganhava o suficiente para viver e, muitas vezes, o bastante para esbanjar.

Esse tempo era tão bom…

Havia doenças, claro. Doenças dos mais variados graus. Desde simples resfriados e gripezinhas, até pneumonias duplas, tuberculose, pancreatite, vários tipos de câncer. E se morria, sim, de doenças, de reações adversas a medicamentos, de complicações em cirurgias.

Os hospitais estavam sempre superlotados. Principalmente hospitais públicos. Faltavam leitos em UTIs, cirurgias eram marcadas a longo prazo, muitas vezes a doença matava o paciente antes dos exames ou da cirurgia. Era um caos. Mas éramos livres.

Podíamos até mesmo optar entre a saúde e a doença.

E, se nos sentíamos saudáveis, podíamos ir à missa, ao culto, ao cinema, ao restaurante, ao parque, à praia.

Os amigos se encontravam, as famílias se reuniam, bares e restaurantes viviam lotados, conversas, risadas, cantorias, muita alegria. Podíamos sair à noite livremente.

Ah, como esse tempo era bom. Éramos livres. Éramos saudáveis. Éramos felizes.

Um dia inventaram que todos deveriam ficar doentes.

E todos deveriam empobrecer. Morrer de doença ou de fome. Montaram um grande circo.

E começaram a tocar pânico nas pessoas. Através de notícias dadas por repórteres histéricos.

Os mesmos que, a princípio, negaram a existência da doença e insistiram em fazer um carnaval mega-enorme, logo depois passaram a acusar o povo de espalhar a doença por ter participado do carnaval.

E aproveitaram a ocasião para cassar a liberdade de todos.

E vieram o isolamento compulsório, o toque de recolher e outras medidas restritivas do direito à liberdade.

O povo, acuado, e com medo, foi se acovardando.

Até isso acontecer, vivíamos um tempo bom.

Éramos livres. Éramos felizes. Éramos saudáveis. Não éramos covardes.

E, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foram nos limitando. Destruíram os empregos, as empresas, as famílias, os afetos.

E o povo, com medo de morrer, se deixava matar.

Verdade, você agora me fez lembrar, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso… 

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Florbela Espanca – A cor de teus olhos

Teus olhos têm uma cor
de uma expressão tão divina,
tão e misteriosa e triste.
Como foi a minha sina!!!

É uma expressão de saudade
vagando num mar incerto.
Parecem negros de longe...
Parecem azuis de perto...

Mas nem negros nem azuis
são teu olhos meu amor...
Seriam da cor da mágoa,
se a mágoa tivesse cor.

(Imagem: foto de Maria Alice)

Texto de Franciane Costa – Porta dos fundos

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Não sei quando você vai chegar, nem mesmo sei se vai mesmo vir.

Mas quando resolveres que chegou a hora, te faço um pedido: entre pela porta dos fundos.

Achou estranho? Não, please, não ache que sou louca, (ou na verdade sou?!).

Quero que chegues no mais absoluto silêncio, que não chame atenção de ninguém, nem mesmo a minha.

Você chamaria muito a atenção se de repente entrasse pela porta da frente da minha vida, aliás, eu desconfio que há tempos ela está trancada…

Prefiro algo mais discreto, quero perceber sua presença somente quando estiveres aqui, e assim viveremos algo mais tranquilo, mais discreto.

Estou cansada dessas paixões avassaladoras, que quando vão embora levam todo resto consigo. Não quero mais isso na minha vida.

Por isso, te peço:

Entre pela porta dos fundos da minha vida, mas venha pra ficar.

(Imagem: banco de imagens Google)