Gostaria de observar-te enquanto dormes, algo que talvez não ocorra. Gostaria de observar-te, enquanto dormes. Gostaria de dormir contigo, de penetrar em teu sono enquanto a sua onda suave e escura desliza sobre minha cabeça e caminhar contigo através dessa luzente e ondulante floresta de folhas verde-azuladas com o seu sol desbotado e três luas rumo à gruta a que deves descer, até o pior de teus medos Gostaria de dar-te o ramo de prata, a pequena flor branca, a única palavra que irá proteger-te da aflição no cerne do teu sonho, da aflição no cerne. Gostaria de seguir-te outra vez pela longa escadaria e converter-me no barco que te traria de volta com cuidado, uma chama em duas mãos arqueadas até onde repousa o teu corpo ao meu lado, no qual adentras tão facilmente quanto um respiro Gostaria de ser o ar que te habita por um momento apenas. Gostaria de ser tão despercebida e tão necessária.
Categoria: DeAlice
Poesia da casa – Rotina

Sons que atravessam o espaço e trazem o sussurro do que foi perdido Vento que vem de tão longe com o perfume de flores desconhecidas Mostram que o mundo é pequeno, é só um, é esse único mundo Os que sofrem coabitam o mesmo mundo dos felizes Rastros de estrelas ainda brilham pelo espaço Mesmo depois que o sol surgindo ameaça tudo apagar com sua luz A lua tristonha e esmaecida desaparece por trás dos montes Porque essa Terra gira e gira sem nunca parar E sol e lua se alternam desde sempre e assim sempre será E os homens esperam a cada dia o novo amanhecer Acreditando que nessa rotina infalível está a felicidade Se nada muda na natureza e as estações do ano Se sucedem e trazem suas velhas novidades Na vida de cada um tudo se altera e nada fica Mas é preciso acreditar que tudo se manterá E teremos, sempre a certeza de que teremos Em cada dia, nossos passos, em cada noite, nossos sonhos...
Pétalas
Penso em tantas flores que recebi
E outras tantas que ofertei
Quanta simbologia, quanto carinho
Flores deixadas durante a madrugada
No batente da janela, nas inúmeras serenatas
Buquês caprichados entregues por emissários
As orquídeas que floriam meses a fio
Cestas de flores, coloridas e alegres
Ou a singela rosa solitária, cumplicidade e convite…
De tantas flores, restaram algumas tristes pétalas
Prensadas entre as folhas de velhos livros
Sem viço, sem perfume, apenas lembrança
Da alegria do que um dia foi receber as flores
Assim como a saudade, tudo o que resta,
Como velhas fotos desbotadas de pessoas que se foram
Amores que morreram, paixões que esfriaram
Tudo hoje são as pálidas e secas pétalas
Cuidadosamente esquecidas entre as pregas da memória
(Imagem: banco de imagens Google)
Memória do blog – Tempo bom

É verdade, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
Viajávamos à vontade, carro, ônibus, avião, cruzeiros de navios…
Podíamos nos hospedar em hotéis em qualquer lugar do mundo. Íamos livremente às lojas, havia dinheiro girando pelo mundo, bastava trabalhar e já se ganhava o suficiente para viver e, muitas vezes, o bastante para esbanjar.
Esse tempo era tão bom…
Havia doenças, claro. Doenças dos mais variados graus. Desde simples resfriados e gripezinhas, até pneumonias duplas, tuberculose, pancreatite, vários tipos de câncer. E se morria, sim, de doenças, de reações adversas a medicamentos, de complicações em cirurgias.
Os hospitais estavam sempre superlotados. Principalmente hospitais públicos. Faltavam leitos em UTIs, cirurgias eram marcadas a longo prazo, muitas vezes a doença matava o paciente antes dos exames ou da cirurgia. Era um caos. Mas éramos livres.
Podíamos até mesmo optar entre a saúde e a doença.
E, se nos sentíamos saudáveis, podíamos ir à missa, ao culto, ao cinema, ao restaurante, ao parque, à praia.
Os amigos se encontravam, as famílias se reuniam, bares e restaurantes viviam lotados, conversas, risadas, cantorias, muita alegria. Podíamos sair à noite livremente.
Ah, como esse tempo era bom. Éramos livres. Éramos saudáveis. Éramos felizes.
Um dia inventaram que todos deveriam ficar doentes.
E todos deveriam empobrecer. Morrer de doença ou de fome. Montaram um grande circo.
E começaram a tocar pânico nas pessoas. Através de notícias dadas por repórteres histéricos.
Os mesmos que, a princípio, negaram a existência da doença e insistiram em fazer um carnaval mega-enorme, logo depois passaram a acusar o povo de espalhar a doença por ter participado do carnaval.
E aproveitaram a ocasião para cassar a liberdade de todos.
E vieram o isolamento compulsório, o toque de recolher e outras medidas restritivas do direito à liberdade.
O povo, acuado, e com medo, foi se acovardando.
Até isso acontecer, vivíamos um tempo bom.
Éramos livres. Éramos felizes. Éramos saudáveis. Não éramos covardes.
E, dia após dia, mês após mês, ano após ano, foram nos limitando. Destruíram os empregos, as empresas, as famílias, os afetos.
E o povo, com medo de morrer, se deixava matar.
Verdade, você agora me fez lembrar, houve um tempo em que éramos livres. Eu quase já me esqueci como era isso…
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Florbela Espanca – A cor de teus olhos

Teus olhos têm uma cor de uma expressão tão divina, tão e misteriosa e triste. Como foi a minha sina!!! É uma expressão de saudade vagando num mar incerto. Parecem negros de longe... Parecem azuis de perto... Mas nem negros nem azuis são teu olhos meu amor... Seriam da cor da mágoa, se a mágoa tivesse cor.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Texto de Franciane Costa – Porta dos fundos
Não sei quando você vai chegar, nem mesmo sei se vai mesmo vir.
Mas quando resolveres que chegou a hora, te faço um pedido: entre pela porta dos fundos.
Achou estranho? Não, please, não ache que sou louca, (ou na verdade sou?!).
Quero que chegues no mais absoluto silêncio, que não chame atenção de ninguém, nem mesmo a minha.
Você chamaria muito a atenção se de repente entrasse pela porta da frente da minha vida, aliás, eu desconfio que há tempos ela está trancada…
Prefiro algo mais discreto, quero perceber sua presença somente quando estiveres aqui, e assim viveremos algo mais tranquilo, mais discreto.
Estou cansada dessas paixões avassaladoras, que quando vão embora levam todo resto consigo. Não quero mais isso na minha vida.
Por isso, te peço:
Entre pela porta dos fundos da minha vida, mas venha pra ficar.
(Imagem: banco de imagens Google)