Memória do blog – Turbilhão

A vida nada mais é que uma sucessão de emoções – sonhos, desejos, satisfações, frustrações, tristezas, alegrias, esperança e desesperança. Às vezes quando estamos realmente felizes, freamos nosso sentir, por medo da tristeza que virá em seguida para cobrar o preço da felicidade. Como se não tivéssemos o direito de sermos felizes.

E todas essas emoções se sucedem – por vezes se atropelam – em nossa alma e nos deixam sem norte.

Hoje você vai dormir feliz, satisfeita, cheia de esperanças de realizar um sonho. A madrugada, com suas mãos frias e invisíveis, revira tudo e de manhã você desperta imersa em tristeza, frustração, desesperança e sem nenhuma alegria.

O que houve, se você apenas adormeceu? Adormeceu em um mundo e despertou em outro? Que magia é essa que transformou sua vida enquanto você não velava pelo seu destino, pelo seu amor? Ingenuidade, excesso de confiança? Sua certeza de ter as rédeas da vida em suas mãos, e que, portanto, só haverá mudança de acordo com seu querer?

Mas o destino é traiçoeiro, prepara mil armadilhas. E quando você relaxa, acreditando que finalmente atingiu seu nirvana, cruel turbilhão surge arrasando tudo e você percebe que, na verdade, nunca deteve as rédeas da vida, e que suas mãos sempre estiveram – agora estão mais ainda – completamente vazias.

Dia de poesia – Cecília Figueiredo – Solilóquio

File:Francesco Hayez - Rinaldo and Armida - WGA11209.jpg - Wikipedia
Ama-me tonto, e ama-me são.
De ti não almejarei as ansiedades
que botam para fora os animais que te habitam
e não desejarei as falsidades
que o vinho te provoca e que o fumo te acende.
Ama-me como se eu fosse a casta ovelhinha
e tu foste o ladrão,
aquele que deseja acima dos propósitos.
E se tiveres que vender a ovelhinha, vende-me
e se tiveres que matar a ovelhinha para que teu
nome não se suje,
mata-me também,
mas antes, ama-me com saúde, e ama-me alegremente,
enquanto não chegue o desaparecimento
de um de outro na transmutação do nosso amor.

(Imagem: RInaldo e Armida, pintura de Francesco Hayez) 

Texto de Miguel Esteves Cardoso – Alma gêmea

Como é que se reconhece a alma gémea? No abraço.

O coração pára de bater.

A existência é interrompida.

No abraço do irmão, do amigo, da amante, há sensação, do corpo, do tempo, do coração. Há sempre a noção dum gesto posterior.

No abraço de duas almas gémeas, mesmo quando se amam, o abraço parece o fim. Uma pessoa sente-se, ao mesmo tempo, protegida e protectora.

E a paz é inteira – nenhum outro gesto, nenhuma outra palavra, é precisa para a completar.

Pode passar a vida toda. Não importa.

Quando duas almas gémeas se abraçam, sente-se o alívio imenso de não ter de viver.

Não há necessidade, nem desejo, nem pensamento.

A sensação é de sermos uma alma no ar que reencontrou a sua casa, que voltou finalmente ao seu lugar, como se o outro corpo fosse o nosso que perdêramos desde a nascença.

(Imagem: banco de imagens Google)

Prece

Qualidade da prece por Allan Kardec - Kardec.Blog

Que você se cure das desculpas que nunca vieram, do perdão que nunca chegou.
Que você se cure do silêncio que deixaram quando tudo que você queria era uma explicação.
Que você se cure da falta de respeito e entenda que nem sempre o outro vai ter a mesma consideração e isso não diminui o que você é.
Que você se cure das promessas que nunca se cumpriram, das palavras que não se tornaram atitudes.
Que você se cure do adeus sem despedida, do vazio que fica quando alguém que amamos decide ir e não nos levar juntos.
Que você aceite que quem te feriu não vai te curar, porque muitas vezes, essa pessoa nem tem dimensão da ferida que ficou aberta no seu peito.
Que você se cure de quem te magoou.
Que você se cure de todas às vezes que se doou e doeu na mesma proporção.
Que você se cure, pois nada nessa Vida te faz mais forte do que superar o que um dia te magoou. (Autor desconhecido)

(Imagem: banco de imagens Google)

Vento e paixão

Wo sollte man bei einem Tornado Schutz suchen? - myHOMEBOOK

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades? Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento. Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá.

Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento.

Sua essência é a liberdade.

(Imagem: banco de imagens Google)

Vivendo na madrugada

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Madrugada. A hora mais escura na noite, que precede o amanhecer. A hora em que o mundo se cala. Ouço o silêncio, às vezes quebrados pelos metais e pedras se chocando. Como um chocalho a embalar a criança que resiste dentro de mim.

Madrugada não foi feita para dormir. Mas para pensar. Sonhar acordada.

São vários conjuntos, nem todos sonoros, ao redor da minha varanda. De todas as formas – golfinhos, sinos, borboletas, pedras, pássaros, mandalas, estrelas; feitos de pedras variadas, de cobre, de madeira, de vidro… cada um com sua beleza.

Quando um deles vem me chamar na madrugada e me transporta para meu outro mundo, saio de mim e o sigo numa jornada única, partilhada entre mim e minha alma.

E atravesso o portal do tempo, da distância, da vida e do querer.

Por algumas horas, antes que o sol quebre esse encanto, renasço na alegria de existir, na companhia da solidão amiga, no regresso a mundos onde nunca fora antes.

Meus mensageiros trazem até mim quem está longe, quem partiu, quem não está. E vozes, e luzes, e cantos e carinhos há tanto já perdidos.

Brincamos de roda, cantamos ritmos, tudo envolto no mais absoluto e solene silêncio da madrugada. Nessas horas, em que estou mais viva do que durante o dia, sinto o prazer da vida, abrigado pelo escuro e pelo silêncio.

E, quando a brisa os avisa que está partindo antes que a aurora a flagre desarrumando a ordem da noite, eles se calam, minha alma volta para mim, e então adormeço, até o raiar do novo dia.

(Imagem: Foto de Maria Alice)