Dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É a vontade de se lanhar em pedras quentes para sentir outra dor maior, de bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

Derramar lágrimas sem fim, um pouco de bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.

(outubro, 2019)

Poesia da casa – Versos para ti

Frases Feitas: A Maior Despedida da Minha Vida

Um dia hei de me cansar e me irei

E a ti, eu te deixarei para sempre

Quem te amará quando eu desistir de te amar?

Quem olhará nos teus olhos com tanto amor

Como sempre viste nos meus?

E ficará a teu lado em todos teus dias

E te esperará todas as noites e madrugadas?

Quem haverá de segurar tuas mãos nos momentos de dor

E nunca te dirá – mais tarde,  pois agora ocupo-me de mim?

Quem te enviará versos falando

De uma paixão ardente que abrasa a vida

Rompe o tempo e apaga a distância?

Quem mais te fará os versos que eu te fiz?

Tudo é nada

Era a lama da barranca que nunca se secava ao sol

Era o barro da beira do rio que nunca voltava à água

Era o mato verde que sempre se renovava na chuva

Era a mata intensa que distribuía verde para todos ao redor

Como a pétala de luz que se soltou de um olhar apaixonado

E qual uma estrela cintilou no ar até explodir em nova chama

Era a luz do sol trazendo calor para os corações frios

Era a luz da lua refletindo a tristeza do sol na noite quieta

A vida vive entre ondas, oscilando como oscilam as marés

E a calma que se enxerga pode esconder fortes correntes

A natureza guarda em si uma paz intensa e calada

Mas que pode se modificar a qualquer momento, sem aviso

Descem as águas com fortes estrondos em gritos de rios

E ressoam no infinito os trovões anunciando novas chuvas

E a cada novo dia nada mais é como sempre foi antes do hoje

Porque os olhos veem novas luzes, nada se repete, tudo se cria

E o vento, tão quieto, quase sempre invisível

Em seu momento chega e refaz tudo o que um dia existiu

Não há definitivo nem concreto nem acabado em uma vida

Porque até a própria vida não é definitiva, e se acaba

E tudo, na verdade, foi feito da lama da barranca

Que a água desfaz e se mistura na correnteza do rio

E chega ao mar sem memória do que um dia quis ser

Poesia da casa – Se acaso pretende voltar

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Não tranque as portas. Não levante muros.

Não destrua as pontes. Não apague caminhos.

Deixe seus sinais nos lugares por onde passar

Deixe sempre suas lembranças nas pessoas

Conserve suas trilhas abertas e os atalhos limpos

Porque um dia você foi. Fechou a porta e partiu.

Atravessou tantas pontes, cruzou algumas fronteiras

Passou por tantos lugares impensados

Encontrou muitas pessoas desconhecidas

Seguiu por trilhas surpreendentes, atalhos perigosos Mas você foi. Deixou tudo para um dia ir.

Nada o atraiu. Nada o chamou. Nada o prendeu.

E poderá, por isso, um dia querer voltar.

E, num ímpeto, em sentido contrário caminhará

Buscando o inverso das trilhas, a bifurcação dos atalhos

Revendo aquelas mesma pessoas pelas quais passou

E passará as mesmas fronteiras, terá as mesmas pontes

Voltando pelo mesmo exato caminho da ida

Até encontrar aquela mesma porta por onde já saiu.

Nem precisa bater, se você não a trancou quando se foi

Bastará empurrá-la, e entrar, quando voltar.

Dia de Poesia – Pablo Neruda – Parto

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Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste. Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

…Do teu coração me diz adeus uma criança. E eu lhe digo adeus.