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Dia de poesia – Eugénio de Andrade – Onde me levas

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.
Não quero que me conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.
Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.
Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Viver e morrer (memória)
Dans l’Histoire des temps la vie n’est qu’une ivresse, la Vérité c’est la Mort. ( L.-F. Céline)

Seria a morte apenas o reverso da vida? da mesma forma que o lado cara de uma moeda jamais poderá ver o lado coroa, a vida e a morte nunca se poderiam ver nem encontrar?
Ou a morte é a continuidade da vida em outro lugar, como acontece quando nos mudamos de cidade, e continuamos com a mesma vida, mas ao redor tudo se torna diferente?
A morte é apenas o fim da vida, ou o começo de outra existência, da mesma forma que a fase borboleta sucede a fase crisálida?
A vida só vai até a morte. E a morte, é para sempre?
O que é a morte? Ou melhor, o que é a vida?
O que vale mais a pena – viver ou morrer?
Tudo o que se faz na vida é provisório – o trabalho, o amor, a moradia, porque a morte virá. E na morte, tudo é definitivo?
Em um momento você está aí, hígido, alegre, trabalhando, pensando, comemorando. Daí a instantes, dentro do conceito tempo infinito, está morto, cremado ou enterrado em um caixão. Você só está vivo até morrer. Mas estará morto para sempre.
A vida, nesse conceito do infinito, seria, então um lampejo, um breve instante, porque todos passam mais tempo morto do que vivo.
Talvez a vida fosse, então, como um aperitivo, uma avant-première, para se ter uma ideia do que é viver. Porque, na verdade, estão, todos, sendo preparados para morrer.
E alguns sequer aproveitam essa prévia que nos é graciosamente concedida. Não vivem por medo de morrer.
Respiram o mínimo possível, comem o mais saudável possível, não bebem bebidas alcóolicas, não se entregam às paixões. Vivem apenas para se guardarem para a morte.
Ou nem vivem. Apenas esperam morrer. Alguns até se matam antes que morram.
Sem consciência de que todos morrerão, quantos passam a vida acumulando bens, sem aproveitar o que a vida lhes oferece, apenas pensando em aumentar patrimônio. Sem entender que tudo ficará nessa Terra, para favorecer quem nunca fez nada para ter o sacrifício de uma vida não vivida.
A vida é tão curta, tão frágil! Tem a duração e a resistência da chama de uma pequena vela. Começa a queimar no nascimento e não para até se extinguir na morte.
Como uma onda do mar, que se desfaz e desaparece logo que arrebenta e se torna visível com suas espumas. Ou uma nuvem, feita de nada, que o vento espalha e some no céu azul sem deixar vestígios.
Qualquer abalo, um mínimo sopro, e a chama se apaga. A vida se acaba subitamente. Não há meio de preservá-la ou prolongá-la.
Se somos tão diferentes no curso da vida, a morte nos iguala a todos.
Por isso, ame mais um pouco, apaixone-se mais intensamente, beba mais um copo, dê mais um sorriso.
Porque sempre pode ser o último.
Amarelo

Dia de poesia – Fernando Pessoa – Não sei quantas almas tenho

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo: "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.
(Imagem: banco de imagens Google)
Apenas isso
