Aquelas casas tristes da periferia, paredes rachadas, Tintas descascadas, abrem suas portas ao amanhecer E despejam no mundo, infelizes, seus moradores, filhos da miséria Que não têm vida, só trabalho, e apenas sobrevivem E dali saem a cada manhã, teimando em tentar viver Meninos arredios, moças sonhadoras, mulheres sem sonhos E homens de mãos e almas calejadas da dura lida Cada um leva consigo uma história de desencanto E por mais um dia lutam, batalham e esperam Que o amanhã lhes traga finalmente a boa nova Sem se dar conta que esse dia na verdade, não é mais um É, na verdade, menos um que descontam no viver E quando a noite enfim apaga o sol e fecha o dia, todos ali retornam, rostos tristes, corpos tão cansados buscando um abrigo, um repouso, seu descanso E então dormem seus sonos sem sonhos, só pesadelos. Nessa hora as casas os recebem, na volta de mais um dia Sem alarde as casas então abertas para abrigá-los, em silêncio Docemente como grandes mães protetoras Fecham suas portas, esperando novo amanhecer (Sta. Gertrudes, 18.09.15)
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Dia de poesia – Olavo Bilac – Os rios

Magoados, ao crepúsculo dormente, Ora em rebojos galopantes, ora Em desmaios de pena e de demora, Rios, chorais amarguradamente, Desejais regressar...Mas, leito em fora, Correis... E misturais pela corrente Um desejo e uma angústia, entre a nascente De onde vindes, e a foz que vos devora. Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança... Pois no vosso clamor, que a sombra invade, No vosso pranto, que no mar se lança, Rios tristes! agita-se a ansiedade De todos os que vivem de esperança, De todos os que morrem de saudade...
(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)
Texto de Alexandro Gruber – Quem ama também desiste

Quem ama também desiste!!!
Desiste quando percebe que não se pode amar por dois…
Desiste quando entende que onde não há reciprocidade, não vale a pena ficar…
Desiste quando compreende que só o amor não é suficiente…
É preciso comprometimento e vontade de fazer dar certo…
Quem ama também desiste!!!
Desiste depois de tanto insistir e machucar o próprio coração…
Desiste depois de cansar de lutar por alguém que não faz por merecer tanto afeto…
Desiste depois que aprende que se pra amar alguém a gente tem que se amar menos, não é amor de verdade…
Quem ama também desiste!!!
Desiste do outro, mas jamais de si…
Desiste da esperança de que algo mude, porque entende que só vivemos com a realidade e não com a ilusão de como as coisas poderiam ser…
Acredite, quem ama também desiste…
Porque chega um momento que é preferível partir, mesmo existindo amor, do que permanecer buscando sentimentos, onde só se encontram espinhos para o coração…
Quem ama sabe desistir do que dói…
Porque é válido desistir de quem machuca…
A gente só não pode desistir da gente!
(Imagem: banco de imagens Google)
Texto de Angela Caboz (Confissões de uma miúda gira) – Lembra-te de mim
Lembra-te de mim
Quando os teus braços pedirem um abraço
Quando os teus pés não derem um passo
Quando da tua boca não sair uma palavra
Quando o coração deixar de bater no compasso
Quando quiseres respirar e não tiveres espaço
Saberás então, por quem o teu corpo implora
Lembra-te de mim
Quando em ti não sobrar uma gota de saudade
Quando o sofrimento em ti se instalar
Quando começares a andar mais devagar
Quando já não te lembrares da tua idade
Quando o teu corpo sentir frio
E já não tiver ninguém para o aquecer
Saberás então, porque não corre água neste rio
Lembra-te de mim
Quando me vias sofrer lentamente
Quando não te sabia esquecer
Quando me prometias amar eternamente
Mesmo sabendo que isso não ia acontecer
Então, lembra-te de mim
Agora que vês o círculo do tempo a fechar
Agora que a glória já te abandonou
Agora que sabes com um vencedor vai acabar
Depois de ter tido tudo,
menos quem te amou
Lembra-te de mim
Como sendo aquela que enlouqueceu por amor
Mas a quem tu não soubeste amar
Lembra-te de que quem me matou não foi a dor
Mas sim, o amor que não me soube curar
Lembra-te mim
Porque te espero na última esquina da vida
Para te mostrar
que de ti, ainda não estou esquecida
Agora que o teu final está a chegar
E encontras todas as portas fechadas
Tentas falar,
mas quem é que te vai escutar?
Somente eu e o meu amor
Tudo o resto,
são agora apenas águas passadas
De quem te amou, apenas por favor…

Às vezes, é só isso mesmo…
Memória – No azul do céu – (07.03.2019)
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, / Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz / E corre um silêncio pela erva fora. (Fernando Pessoa)

Céu muito azul, fim de outono, anúncios de inverno.
Folhas ainda verdes, chuvas temporãs ajudando a natureza.
Nada muda para a humana percepção. Em um de repente sei que o céu se cobrirá de cinza, sei que ventos violentos surgirão não se sabe de onde vindos, as folhas não estarão mais nas árvores, mas cobrirão o chão.
Mas não poderei ver os detalhes dessas mudanças, a cada segundo se preparando para nos surpreender.
Vemos o antes e o depois. Não temos capacidade para escrutinar momento a momento o que se passa em torno de nós.
Um dia, sem que nos déssemos conta, ficamos adultos, responsáveis por nós mesmos, nossa felicidade, nosso bem-estar e nosso sustento. E, ainda mais de repente, nos tornamos responsáveis por tudo de nossos filhos, tão pequenos, tão dependentes.
E quando olhamos novamente, eles já se tornaram adultos, tomaram as rédeas da própria vida e se foram.
E nos tornamos responsáveis então pelos nossos pais, que eram tão fortes, tão determinados, tão independentes. Apenas a nossos olhos.
E os ventos se vão, a chuva cessa e novas folhas nascerão quando vier a primavera.
Quem sabe se ainda estará aqui para ver as flores que virão? E quem conosco ainda estará nessa nova estação?
Mas tenho uma certeza nessa vida: a de que o céu será – quase sempre – lindamente azul.
(Imagem: foto de Maria Alice)