Ainda me sinto…

Desconheço a autoria. Mas gostei do texto…

Revoluteando e adejando!: Despedida sutil

Ainda me sinto tão sua.

Talvez por um passado que teima em querer sempre continuar no presente, talvez pela forma como tudo acabou, talvez pelas vezes que você decide brincar-que-gosta-de-mim.

Talvez.

Mas o que não dá mais é pra viver pela metade, viver de suposições. Te amar mais ou menos e te odiar também. Te querer aqui, agora ou sentir náuseas só de imaginar aquele teu cheiro.

Preciso começar a ser completa em tudo o que faço, preciso parar de achar defeito em todos os caras que olham para mim só porque ele não é você.

Ser completa na vida.

Chega de você sempre!

Chega de ser sempre você!

Vou deixar de procurar alguém pra te repor porque assim eu só ia lembrar mais ainda.

Preciso aprender a ditar as regras do jogo, dar uma pausa nesse veneno que você injetou em mim e deixar de me sentir sempre culpada pelo nosso fim.

É fim e pronto, de quem é a culpa já não importa mais!

E seguir…

Viajar, sair, curtir, beber, dançar… encontrar alguém, simplesmente alguém que me faça feliz, sem precisar ficar comparando.

Dá vontade de gritar bem alto pra você me deixar em paz e sair da minha cabeça, dá vontade de parar de escrever isso aqui tudo e sair correndo pra viver, é isso, viver!

Pôr em prática todos esses “auto conselhos” e pronto, ser feliz.

Ah, se fosse fácil assim.

É que sempre que penso em ser feliz, você me vem a cabeça.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – A dor da ausência

O POETA E A ROSA — Vinícius de Moraes | SEMPREVIVA!
A dor dessa ausência tão sofrida

quanto inesperada e nunca desejada
que levou consigo o sorriso e a paz
a alegria, a paixão e a vontade de viver

A dor dessa ausência tão sofrida
como um barco abandonado no velho porto,
um cais esquecido, do amor passado,
mãos que não se tocam, olhos que não se veem


Essa dor tão intensa e tão sofrida
que apaga o sol e torna os dias tão cinzentos

desce dos olhos e rola pelas faces de forma de gotas:

lágrimas da chuva que congela um coração castigado


Essa ausência tão dolorida e insuportável
que tem contornos de uma presença constante
de quem partiu deixando um lugar vazio
que jamais poderá ser novamente preenchido


A ausência concreta da presença abstrata
como a flor esquecida no meio do caminho
preenchido apenas das pegadas solitárias
onde antes se caminhava unidos aos pares

Tudo isso rompe a alma e tira a paz e a alegria
torna o viver uma carga quase insuportável

e sangra a ferida eterna que nunca se fechará

na dor dessa ausência tão sofrida


(Imagem: banco de imagens Google)

Ausência – Vinicius de Moraes

Eu deixarei que morra em mim
O desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
Senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença

É qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto

Existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim
Como a fé nos desesperados

Para que eu possa levar
Uma gota de orvalho
Nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
Como nódoa do passado
Eu deixarei
Tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos
E tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu
Porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite
E ouvi a tua fala amorosa

Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
Suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado
Eu ficarei só
Como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei como ninguém
Porque poderei partir
E todas as lamentações do mar
Do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente

A tua voz ausente
A tua voz serenizada

(Imagem: foto de Maria Alice)

Dia de poesia – Joaquim Pessoa – Estou mais perto de ti

Estou mais perto de ti porque te amo.
Os meus beijos nascem já na tua boca.
Não poderei escrever teu nome com palavras.
Tu estás em toda a parte e enlouqueces-me.

Canto os teus olhos mas não sei do teu rosto.
Quero a tua boca aberta em minha boca.
E amo-te como se nunca te tivesse amado
Porque tu estás em mim mas ausente de mim.

Nessa noite sei apenas dos teus gestos
E procuro o teu corpo para além dos meus dedos.
Trago as mãos distantes do teu peito.

Sim, tu estás em toda a parte. Em toda a parte.
Tão por dentro de mim. Tão ausente de mim.
E eu estou perto de ti porque te amo.

De pássaros e livros

Bico-de-lacre é um pequeno pássaro trazido ao Brasil a bordo de navios  negreiros* – Terceira Margem

Fim de chuva.

Uma ameaça de sol.

Chega um primeiro pássaro solitário, buscando bichinhos no gramado ainda molhado.

Saltita alegremente em sua profícua colheita.

Mas sua solidão é passageira.

Logo outros pássaros  pousam a sua volta. Grande algazarra se instala no quintal.

Deixo de lado meu livro e os observo. Como é difícil ver um pássaro solitário – voam aos pares ou aos bandos. E, quando um se separa do grupo, logo é resgatado.

Sua força está na união. Dezenas de olhos enxergam em todas as direções, os predadores são logo avistados e os gritos alertam todo o bando. Um pássaro solitário é uma presa fácil.

Vão esgaravatando cada centímetro quadrado de grama. E, lentamente se afastam de onde os observo.

Passado algum tempo, pequenos bandos alçam voos, aos gritos, até não mais restar sequer um.

Provavelmente também não restam mais insetos.

Um pesado silêncio volta a reinar no quintal.

Volto à minha habitual solidão, e mergulho novamente na leitura.

(Imagem: foto de Edson Brandão)

Em noite de dançar

1368) Pintura com Diamantes - Casal Dançando - 20x30 cm

Há quanto tempo esses sapatos de dançar não saíam da prateleira… Só de isolamento já se iam 23 meses… e antes mesmo de começar essa história de covid, com festas de fim de ano, janeiro chuvoso, carnaval… realmente, há muito tempo não saíam para dançar.

Sempre dançaram muito. Afinal, eles se conheceram em um baile. E ele a chamou para dançar, e desde então, dançavam.

Em bailes, em academias de dança de salão, em festas, e até mesmo em casa.

Mas, quando se preparavam para saírem especialmente para dançar, até os sapatos eram especiais, com o solado apropriado, salto adequado e outro predicados.

Com uma ansiedade de adolescente, ela tomou um longo banho, fez uma maquiagem leve, prendeu os cabelos e passou seu perfume reservado para grandes ocasiões.

Vestiu-se com capricho, um vestido leve, esvoaçante, que a tornava uma etérea visão quando rodopiava nos braços dele em torno da pista de dança.

Por fim, sentou-se na beira da cama, calçou os lindos sapatos de dança, afivelou as tirinhas de couro que os mantinham firmemente presos aos pés.

Foi até o grande espelho do corredor e olhou para conferir se estava tudo direitinho como deveria ser.

Ouviu um assovio de aprovação e olhou para ele sorrindo.

Abraçaram-se e começaram a dançar ali mesmo, no estreito do final do corredor.