Poesia da casa (Memória) – Vulcão adormecido

Trouxe a poesia dentro de si:

Chegou mansamente e aqui ficou.

Pousou em meu peito com a leveza

De uma delicada borboleta

Que pousa em uma pétala de flor.

Coloriu meu dia e minha vida,

Até então sempre cinzentos;

Alegrou minha alma e meu caminhar

Que eram imersos em tantas tristezas.

Despertou toda a paixão latente

Como se fosse um vulcão adormecido

Que volta subitamente à vida.

Abriu as comportas do desejo,

E, desde então, acreditei que,

Encantados de tanto amor,

Seguiríamos sempre juntos.

Hoje, a saudade em forma de lágrimas

Inunda meu rosto com quentes gotas.

Saudade é privilégio de quem foi feliz

E esse sentimento, quando muito intenso,

Se liquefaz tal como magma em lava,

E esse vulcão, que então explodiu de paixão,

Volta à quietude de seu letárgico sono

E, novamente entorpecido, em sua ausência

Adormece triste e eternamente.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de Poesia – Katia Chiappini – Último poema de amor

Senti o corpo estremecer

Veio o cansaço enluarado

Um pouco antes do alvorecer

Renasci acordando ao seu lado


Fixei seu vulto em minha mente

E a ternura do abraço sem par

E o apelo da pele envolvente

Trouxe você para o meu andar


Senti meus lábios tocados

E perfumados lençóis de cetim

Os sentimentos desvendados

E seu amor vindo para mim


Faça-se a luz e a luz foi feita

Assim falou o Criador

Faça-se o amor: quero a colheita

Colher você meu semeador


Quantas palavras vazias

Você falou sem pensar

Fazem parte de minha agonia

Imaginei que fosse me amar


Um pouco de ilusão e muito de sonho

Transformou o sentimento de mansinho

O meu amor não sei onde ponho

O tempo me mostrará o caminho


Eu quis tento ter querer

Mas você não me deu espaço

A desilusão me fez ver:

-Só eu o sentimento abraço


Você foi o melhor momento

Deu sentido ao verbo amar

Ficou com meu envolvimento

Fiquei com seu corpo no olhar

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Hoeppner Dutra – Canção

Em meus dias meigos 
só de venturas, 
tu és o carinho. 

Em meu céu plúmbeo 
só de borrascas, 
tu és a bonança. 

Em meu desejo 
sempre a sonhar, 
tu és o beijo. 

Em minha vida 
só de silêncio, 
tu és a canção. 

Em meu ardor 
só de lirismo, 
tu és a divina. 

(Imagem: Nymphe endormie, quadro de Alphonse Osbert, banco de imagens Google)

Memória – Vou pular a fogueira, e você (20.06.2019)

Eu pedi numa oração / Ao querido São João

Que me desse um matrimonio / São João disse que não

São João disse que não / Isto é lá com Santo Antônio …

E junho chegou.

Festa para todo lado. No fundo o brasileiro gosta mesmo é dessas festas populares, quermesse na praça da Matriz, tudo genuíno, tudo de uma singeleza histórica ímpar.

Penso que todos conhecem essas típicas festas juninas, homenageando os três santos do mês: primeiro o casamenteiro Santo Antonio, que abre as festas no dia 13; depois São João, com a noite mais longa do ano, no dia 24 e finalmente vem São Pedro, no dia 29, fechando o mês e as festas com suas chaves.

Para quem é, mora, foi ou morou na roça, tudo isso tem um sabor especial.

Lá na roça a festa começa bem antes.

Escolhe-se o local, o terreno é aplainado – sem dança não é festa junina.

Faz-se o buraco da fogueira, que fogueira que se preza, fogueira de verdade não é do chão para cima, ela começa a ser montada lá no fundo e é de dentro do buraco que sai a armação que sustentará o fogo.

Estende-se o oleado – a não ser que já exista um bom barracão, daqueles de guardar tratores e máquinas, que então é desocupado e varrido, e nesse lugar ficará a mesa.

Não é uma mesa. Nem uma mesinha.

É uma respeitável mesa, compridíssima – geralmente uns quatro metros pelo menos, e é feita com pranchas de madeira sobre cavaletes, num improviso que se repete em todas as festas.

Cadeiras ao redor, algumas mesas de apoio, tudo simples, tudo bonito, enfeitado com flores e ramos, sem maiores gastos.

As lâmpadas – ou lamparinas de querosene, depende das instalações, são providenciadas.

O mastro.

A madeira para a fogueira é cortada e durante algum tempo os homens terão uma folga. A não se que queiram montar balões.

As crianças recebem a tarefa de recortar e colar no barbante milhares de bandeirinhas coloridas, que depois os homens estenderão e pregarão sobre o local da festa.

As mulheres, na cozinha, preparam a comida. E que comida! E que fartura!

Um bom caldo – de preferência uma canja feita com o galo velho do terreiro, porque o frio é intenso.

E além de bolachinhas diversas, pé-de-moleque, paçoca, cuscuz, milho assado, frangos (que nunca faltam na roça), arroz-doce, canjica, curau, pipoca, pamonha, bolo de milho, amendoim torrado, maçã caramelizada – a deliciosa maçã do amor, pinhão e, o que não pode faltar, o quentão, e, modernidade, o vinho quente com especiarias.

As roupas são preparadas com todo o cuidado.

A fogueira é acesa um pouco antes para estar bonita quando os convidados chegarem.

E chega a hora da festa. A vizinhança vai chegando, muitos pratos são trazidos para aumentarem a fartura à mesa, casais vão se formando e outros, já vem formados, a maioria se separa: homens para um lado, conversando assuntos da roça e mulheres do outro, trocando receitas e olhando as crianças.

A festa começa com a reza do terço – geralmente o padre já está no local, de batina e tudo.

Depois o mastro é levantado. Começa a diversão. O Santo do dia é homenageado.

E então entra em cena o sanfoneiro. Não existe festa junina sem sanfoneiro. Podem inventar televisão, vídeo-cassete, DVD, vitrola, toca-discos, CD Player, Home Theater, nada anima uma autêntica festa junina. Mas, no primeiro chorado do acordeom, o sanfoneiro põe fogo no recinto.

As músicas – ainda que sempre as mesmas, divertem e todos conhecem as letras.

Muitas vezes tem o casamento, geralmente o noivo só entra no recinto depois da noiva e com o pai e os irmãos desta armados com espingardas escoltando o “feliz” nubente.

Dança-se a quadrilha – arremedo dos minuetos franceses de outros séculos, porém mais divertida.

É balão subindo, é criança correndo com bombinhas para se assustarem na brincadeira, é rojão quase derrubando os dorminhocos das cadeiras.

No final tem padre dançando, idosos cantando, todos se divertindo numa confraternização saudável e tradicional.

Nestas ocasiões fica mais que comprovado que alegria é contagiante.

E, depois de bastante quentão servido, tem outra diversão: pular a fogueira. Em criança eu ficava apavorada ao ver os homens dando a corridinha e saltando por sobre o fogo.

Depois de grande, quando talvez até arriscasse eu mesma pular uma fogueira, não tem mais fogueira de São João, nem de São Pedro, nem de Santo Antonio.

Mas um dia – quem sabe – encontro os três juntos lá para onde eu for, e aí pularei quantas fogueiras quiser.

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Luis Miguel

Nem toda a mulher é “maluca”, mas, sem dúvida, as mais interessantes são…
São “malucas”o suficiente para serem elas mesmas…
São “malucas” o suficiente para darem ar à sua essência, mandando às malvas o julgamento alheio…
São “malucas” o suficiente para, assim do nada, abraçarem quem amam independentemente da hora, só porque sim, com aquela espontaneidade própria de quem ama e se sente feliz!
São “malucas” o suficiente para não deixarem para amanhã o que podem dizer ou fazer hoje…
Essa mesma “loucura” dá-lhes a perfeita noção de que o momento é sempre agora, e a perfeita consciência de que o amanhã, é a nossa maior incerteza de hoje…
São “malucas” o suficiente para ignorarem tudo aquilo que em nada as acrescenta, deixando o coração livre somente para os bons sentimentos, aqueles sentimentos que vão transbordar na curva mais bonita do corpo de qualquer mulher:
O seu sorriso !
São “malucas” o suficiente, acima de tudo, para darem voz e forma ao que lhes vai na alma e no coração, tendo a plena consciência que vivem num mundo onde, dar voz ao coração, se tornou algo digno disso mesmo, de gente “maluca”…

(Imagem: banco de imagens Google)

Talvez amor

“Talvez o amor não passe de uma deliciosa ilusão que se realiza em momentos sagrados, raros. Quando ele acontece é aquela felicidade imensa, aquela certeza de eternidade. Ah! Como os apaixonados desejam sinceramente que aquela felicidade não tenha fim! Mas o amor, pássaro, de repente bate as asas e voa… Brincando, faz tempo, eu sugeri que um casamento que se baseasse no amor teria de ser efêmero – porque o amor é sentimento, e os sentimentos não podem ser transformados em monumentos.” (Rubem Alves)