A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Quando te encontrar, não vou falar nada
Vou olhar nos seus olhos
Vou cair no seu abraço,
Vou chorar nos seus braços
Quando te encontrar, não vou falar nada , vou deixar você tocar meu rosto, pra enxugar as lágrimas que rolam.
Quando te encontrar não vou falar nada, vou deixar que nossas Almas se falem, se toquem
Quando te encontrar não vou falar nada, vou segurar sua mão e andar de mãos dadas
Quando te encontrar, não vou falar nada, vou rir pra você e me encantar com o seu riso
Quando te encontrar, não vou falar nada vou sentir a emoção de estar contigo
Quando te encontrar, não vou falar nada,
Vou deixar que nossas almas se falem, que Nossas almas finalmente se acalmem, se alegrem, por finalmente estarem juntas
Quando te encontrar, não vou falar nada, pois nenhuma palavra será capaz de expressar o que sentimos
Je voudrais que tu sois là / que tu frappes à la porte et tu me dirais c’est moi / Devine ce que j’apporte Et tu m’apporterais toi. (Boris Vian – Berceuse pour les Ours qui ne sont)
Leio essa estrofe, e sonho.
Sonho que pode ser verdade.
Quando você batesse em minha porta,
e simplesmente me trouxesse você,
com que amor essa porta seria aberta,
com que paixão eu diria para você entrar...
Sonho com a felicidade
que seria ver você voltando
a alegria de saber de sua volta
trazendo você de volta para mim...
Atire a primeira flor quem nunca sonhou com essa cena.Com essa chegada ou com esse retorno.
Vivemos na eterna espera da realização da paixão, essa força vital que nos mantém vivos e respirando.
Quando tudo naufraga, tudo afunda dentro e em redor de nós, a que nos agarramos? À paixão que segura nossa cabeça fora d’água e nos faz querer continuar vivendo. Para que? Para realizar essa mesma paixão.
A mais leve esperança de viver plenamente a paixão é a senha para o sonho, para a realidade, para a motivação vital.
A potência motriz de nossa existência é, simplesmente, a paixão.
Por tudo e por alguém.
E não existe o lado negativo em tudo isso?
Claro que existe.
A paixão nos torna saudosos, fantasiosos, gulosos, impacientes, destemidos, atrevidos, por vezes insones ou angustiados. Tudo bem. Faz parte.
Talvez a pior parte seja, mesmo, a saudade. Porque é a única que não depende exclusivamente de nós para ser aniquilada.E, pela saudade que corta mais do que faca afiada, nos tornamos sonhadores.
Sonhamos acordados com o momento encantado do reencontro.
Apaixonar-se é encantar-se. E encantar-se é ser enfeitiçado.Paixão é feitiço.
Tudo o que se quer é ter, frente a frente, ao alcance do abraço, a pessoa pela qual nos apaixonamos. A distância é a tortura do apaixonado.
Então, a cena modelo da realização de nosso sonho está nas palavras de Boris Vian, “Eu queria que você estivesse ali, que você batesse na porta e você me diria Sou eu. Adivinha o que te trago. E você me traria você”
Sempre estarei com as portas abertas,
Para que se vá daqui todo o amargor
Que restaram de uma vida de desamor
Deixando essas lágrimas incertas
Povoa a tristeza as almas desertas
Que vivem imersas na falta de amor
Não têm alegria – somente rancor
Estão sempre de cinzas cobertas
Quando estão assim abertas as portas
Aos poucos na alma aparece a vontade
Por entre caminhos de tantas retortas
Que deixam sair toda essa saudade
Que me povoavam como horas mortas
E deixam enfim entrar felicidade
Erraram as publicações com o anúncio de “morre o poeta” Thiago de Mello. Porque um poeta nunca morre. O poeta é tão imortal quanto a poesia. Apenas ele não pode mais ser visto.
(Imagem: banco de imagens Google)
CONFIDÊNCIA A MANUEL NA MANHÃ DO SEU DIA
Hoje, meu filho, eu queria
fazer um poema que fosse
límpido e com companheiro.
Queria fazer um poema
que fosse como um perdão,
que fosse como uma espada,
uma palma e uma esperança.
Um poema que te seguisse
como o pássaro ao veleiro,
e como o servo a seu amo.
Que te valesse na mágoa
docemente, como o amigo
que diz ao outro uma frase
bem simples, cujo sentido
nem importa: pois importa
é que as palavras depressa
se arrumem todas em ponte,
dando caminho à ternura
e à confiança.
Amigo desses,
que um dia bem te valesse,
assim o poema eu faria
se soubesse. Mas não sei.
De lembrança, pois te deixo
em vez do poema sonhado
- quase uma confidência.
Um dia, no teu bornal
de viagem, hás de encontrar
coisas que nele arrumei
à maneira de farnel.
Hás de encontrar tão-somente
uns brinquedos, umas nuvens
e umas palavras. No entanto
o mundo eu só não te dei
porque descobri que o mundo
com todas as suas torres
e todas as suas glórias
- o mundo cabe, meu filho,
o mundo cabe inteirinho
na palma da tua mão.AS ENSINANÇAS DA DÚVIDA
Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.
Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.
Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.
COMO UM RIO
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,]
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.
Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.
Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.
Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de águas impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.
Como um rio, que nasce
de outros, sabe seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.
Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.