Dia de poesia – Mario Quintana – Amar nunca me coube

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Amar, nunca me coube
Mas sempre transbordou
O rio de lembranças
Que um dia me afogou

E nesta correnteza
Fiquei a navegar
Embora, com certeza,
Não possa me salvar

Amar nunca me trouxe
Completo esquecimento
Mas antes me somou
Ao antigo tormento

E assim, cada vez mais,
Me prendo neste nó
E cada grito meu
Parece ser maior

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Por quê?

Uso dos porquês: Por que, Por quê, porque ou por quê?

Se não era para ficares, por que chegaste tão cedo?

Se era para partires, por que vieste um dia?

Igual uma chuva, tão desejada, mas que não dura,

Porque vem o sol que apaga todos os sinais.

Ou um deslumbrante luar em noite clara,

E, depois que vem o amanhecer, o dia faz desaparecer.

Se era para acabar e causar tanta dor, por que começou?

Se era para caíres em seguida, por que alçaste esse voo?

Da mesma forma que as marcas deixadas na areia

São em seguida desfeitas pelas ondas do mar;

E os frutos, tão caprichosamente concebidos na natureza

São derrubados e destruídos pelo vento insensível.

Se não pretendias amar, por que o juraste em falso?

Se não era para ser amor, por que surgiu esta paixão?

Como nuvens formando as mais lindas figuras

Que não permanecem, somem à primeira brisa.

Tudo que temos são as brancas espumas do mar

Que se desfazem quando se deitam em sua amada areia.

Se não era para beijares, por que me abraçaste?

Se não pretendias me levar, por que me chamaste?

Suas mãos

Busco suas mãos.

Eu as busco no conhecido e no desconhecido. No finito e no infinito. Na tristeza e na alegria.

Se tenho de atravessar um lindo campo, florido e iluminado, busco suas mãos. Para que você venha comigo, aproveitar desse momento único. Se estou em perigo, sem enxergar, correndo riscos, são elas que procuro para ter força e coragem, pois nelas eu confio.

Ao longo dessa vida busco suas mãos. Para todos os momentos. Para que guiem, sustentem, toquem e acariciem. Da mesma forma as buscarei no infinito, porque a morte não é o fim de um amor. O infinito é logo ali, fica atrás da cortina dessa existência, e lá estaremos juntos – um dará ao outro a mão na hora de atravessar o espelho.

Na tristeza só quero suas mãos. Quero suas mãos me afagando os cabelos, me abraçando e me fazendo acreditar que tudo vai passar. E, quando a alegria dominar novamente, serão suas mãos que buscarei, para nos tocarmos com paixão, e nos completarmos levando à comunhão das almas todo o aconchego que nossas mãos já deram aos corpos.

Por isso busco suas mãos. Hoje, aqui, amanhã, aí, antes, sempre e depois.

Busco suas mãos. Dê-me suas mãos. E vamos juntos conhecer a felicidade de amar.

Dia de poesia – Margaret Atwood – Variação sobre a palavra Dormir

Ontem enquanto você dormia… – Blog Odair Jr.
Gostaria de observar-te enquanto dormes,
algo que talvez não ocorra.
Gostaria de observar-te,
enquanto dormes. Gostaria
de dormir contigo, de penetrar
em teu sono enquanto a sua onda suave e escura
desliza sobre minha cabeça
e caminhar contigo através dessa luzente
e ondulante floresta de folhas verde-azuladas
com o seu sol desbotado e três luas
rumo à gruta a que deves descer,
até o pior de teus medos
Gostaria de dar-te o ramo de prata,
a pequena flor branca, a única
palavra que irá proteger-te
da aflição no cerne
do teu sonho, da aflição
no cerne. Gostaria de seguir-te
outra vez pela longa
escadaria e converter-me
no barco que te traria de volta
com cuidado, uma chama
em duas mãos arqueadas
até onde repousa o teu corpo
ao meu lado, no qual adentras
tão facilmente quanto um respiro
Gostaria de ser o ar
que te habita por um momento
apenas. Gostaria de ser tão despercebida
e tão necessária.

Poesia da casa – Rotina

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Sons que atravessam o espaço 
e trazem o sussurro do que foi perdido
Vento que vem de tão longe com o perfume de flores desconhecidas
Mostram que o mundo é pequeno, é só um, é esse único mundo
Os que sofrem coabitam o mesmo mundo dos felizes
Rastros de estrelas ainda brilham pelo espaço
Mesmo depois que o sol surgindo ameaça tudo apagar com sua luz
A lua tristonha e esmaecida desaparece por trás dos montes
Porque essa Terra gira e gira sem nunca parar
E sol e lua se alternam desde sempre e assim sempre será
E os homens esperam a cada dia o novo amanhecer
Acreditando que nessa rotina infalível está a felicidade
Se nada muda na natureza e as estações do ano
Se sucedem e trazem suas velhas novidades
Na vida de cada um tudo se altera e nada fica
Mas é preciso acreditar que tudo se manterá
E teremos, sempre a certeza de que teremos
Em cada dia, nossos passos, 
em cada noite, nossos sonhos...