Desespero

Não, não é sobre viver. Mas sobre como sobreviver.

Quando todas as portas se fecharam, o escuro e o silêncio se fizeram a seu redor, e você, paralisado, já não tem para onde ir.

Você poderia estar, alegremente, buscando um novo imóvel para se mudar e começar uma nova vida.

Mas você se surpreende entrando em uma agência funerária e escolhendo uma urna para suas cinzas.

Você poderia estar planejando uma nova viagem, nova aventura, novo viver. Mas apenas marcou na agenda uma data limite para suportar o peso da vida. E essa data se aproxima a passos largos. Você não tem saída. Sabe quando e onde. Mas ainda precisa decidir o como.

Você poderia estar comprando novas roupas, novos livros, fazendo planos. Mas está esvaziando os armários, doando para obras de caridade, bibliotecas públicas, porque nada mais será necessário.

Você poderia estar planejando uma nova vida. Mas só consegue planejar a morte.

Você poderia estar escrevendo, neste momento, um post apaixonado. Mas faz mais sentido escrever seu testamento.

Isso tem nome. Isso machuca. Isso dói.

Isso é mais do que desespero – isso é desesperança.

(Imagem: banco de imagens Google)

Poesia da casa – Distância

Eu acreditava que distância era substantivo abstrato.
E que saudade também fosse algo abstrato.
Mas descobri que distância e saudade podem ser concretas.
Existem, machucam e causam dor.
Trópicos, rios, florestas e o tempo nos distanciaram, 
mas nada disso conseguiu nos separar.
Deito agora nessa rede na varanda e olho para o céu:
o sol que me iluminou nesse dia é o mesmo que agora te aquece.
A lua que não vejo mas sei existir talvez esta noite brilhará para você.
As estrelas que aqui eu vejo serão as mesmas que você verá.
Respiramos o mesmo ar. O mesmo céu nos cobre.
Essa saudade que me sufoca e umedece os  meus olhos
é a mesma que te traga e te incomoda.
É tão grande, tão intensa, que sinto poder tocá-la.
Ela existe, mora comigo, está em mim.
E toda essa distância, tão medida, tão concreta,
não nos pode separar nem trouxe esquecimento.
Nossos pensamentos nos levam um ao outro
e assim, juntos na distância, unidos na saudade,
esperamos pelo momento mágico de um reencontro.
Que virá. Que virá...

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória do blog – Há um ano…

                 Na estrada    
 
 Não sei se passo eu por essa estrada
 Ou se é essa estrada que por mim passa
 No asfalto – tão cinza e tão feio
 Correm brancos riscos a meu encontro
  
 Nos dois lados troncos fazem cercas
 Cruzam rápidos, levando esticados
 Tantas linhas feitas de arame farpado
 Só para mostrar existir um limite invisível
  
 Poste e torres correm com seus fios
 Levam luz, levam calor, levam progresso
 E ainda levam as boas e as más notícias
  
 Cruzando com esses riscos brancos
 Passo eu por estrada que não tem fim
 Ou é ela, a estrada, que passa por mim? 

(Imagem: banco de imagens Google)