A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Se você surgisse como o sol dos meus diasTrazendo luz e calor para aquecer minha almaEu poderia enxergar então uma realidade melhorMas você não surge, ah, meu amor, você não surgeSe você voasse comigo para outros mundosJuntos conheceríamos a verdadeira felicidadeE nunca mais ficaríamos separados,Mas você não voa comigo, meu amor, não voa comigoSe você quisesse ser para sempre meu amorE andarmos todos nossos caminhos de mãos dadasEu te cobriria de beijos e carinhos sempre,Mas você não quer, meu amor, você não querSe você chegasse na minha noite de insôniaE me desse todo carinho até me adormecerColocaria cores e alegrias nos meus sonhos,Mas você não chega, meu amor, você não chegaSe você viesse navegar comigo no meu barcoEu te contaria todas as histórias das sereiasE te falaria o nome de todas as estrelas nas noites,Mas você não vem, meu amor, você não vem... (Guarujá, 01.01.2020)
Aos trancos e barrancos chegamos nas últimas horas desse ano esquisito.
2020, o ano que não vivi. Isso não é só o título de meu último livro, mas o sentimento que trago desse ano desanado e não vivido. Não foi um ano. Não usamos, não desfrutamos, não aproveitamos.
Esperei muito a virada 2019-2020.
Porque 2019 foi um ano muito difícil, muito triste, de intensas e sofridas perdas. Então, de frente para o meu mar, vendo a magnífica queima de fogos, em minha varanda rezei, pedindo que 2019 passasse de vez, não deixasse nada para trás e eu pudesse voltar a viver.
E pensei que seria assim, um janeiro de gratas surpresas e alegrias.
Fevereiro, mês quente no clima e morno na vida, travado pelo carnaval.
Quando entrou março, cheio de promessas, somadas alegrias – nos três primeiros meses participei de seis concursos literários e fui premiada nos seis – de repente surge a peste chinesa, premiações, eventos, encontros, tudo cancelado. Passagens aéreas perdidas, amizades distantes, tudo se desfazendo no ar.
E acabou o ano.
Não existiu de abril a dezembro. Simplesmente evaporou-se em março. E desapareceu.
Acrescente-se a isso sérios e graves problemas de ordem pessoal e familiar, e temos o meu ano de 2020. O pior de minhas muitas décadas.
Vejo, com alívio, a chegada dessa noite de 31 de dezembro. Depois de alguns dias de intensas chuvas e uma noite de tempestade arrasadora, com granizo, vendaval, desabamentos, arrancamentos, e hoje mais um dia estranho, de chuva fria, nesse momento anoitece suavemente, entre azuis e lampejos de algum sol que vigiou a terra por cima das nuvens o dia todo e agora mostra alguns raios. Amainados pelos temporais, mas que sabemos existir e temos certeza de que um dia voltará a brilhar, soberano e imponente.
E que venha 2021.
Que nos traga desafios. Nós os enfrentaremos.
Mas nos traga alegrias e adições.
Chega de tristezas e perdas.
Que venham novos dias, e sejam de paz. De saúde.
Feliz ano de 2021 a vocês, meus leitores, amigos e incentivadores.
Je voudrais que tu sois là / que tu frappes à la porte et tu me dirais c’est moi / Devine ce que j’apporte Et tu m’apporterais toi. (Boris Vian – Berceuse pour les Ours qui ne sont)
Atire a primeira flor quem nunca sonhou com essa cena.
Com essa chegada ou com esse retorno.
Vivemos na eterna espera da realização da paixão, essa força vital que nos mantém vivos e respirando.
Quando tudo naufraga, tudo afunda dentro e em redor de nós, a que nos agarramos? À paixão que segura nossa cabeça fora d’água e nos faz querer continuar vivendo. Para que? Para realizar essa mesma paixão.
A mais leve esperança de viver plenamente a paixão é a senha para o sonho, para a realidade, para a motivação vital.
A potência motriz de nossa existência é, simplesmente, a paixão.
Por tudo e por alguém.
E não existe o lado negativo em tudo isso?
Claro que existe.
A paixão nos torna saudosos, fantasiosos, gulosos, impacientes, destemidos, atrevidos, por vezes insones ou angustiados. Tudo bem. Faz parte.
Talvez a pior parte seja, mesmo, a saudade. Porque é a única que não depende exclusivamente de nós para ser aniquilada.
E, pela saudade que corta mais do que faca afiada, nos tornamos sonhadores.
Sonhamos acordados com o momento encantado do reencontro.
Apaixonar-se é encantar-se. E encantar-se é ser enfeitiçado.
Paixão é feitiço.
Tudo o que se quer é ter, frente a frente, ao alcance do abraço, a pessoa pela qual nos apaixonamos. A distância é a tortura do apaixonado.
Então, a cena modelo da realização de nosso sonho está nas palavras de Boris Vian, “Eu queria que você estivesse ali, que você batesse na porta e você me diria Sou eu. Adivinha o que te trago. E você me traria você”