A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Às vezes a saudade vem atropelando todos os outros sentimentos, tirando nosso sono e nosso chão. E algumas saudades são invencíveis, situações e pessoas irrecuperáveis.
São tantas saudades sem volta. São tantas pessoas que se foram para sempre.
E a alma dói. O coração sangra. Mas nada se pode fazer. Apenas olhar as antigas fotos, lembrar das circunstâncias em que foram tiradas. E chorar.
Nada melhor do que chorar para amainar a dor de uma saudade.
Mas esse pranto não é um choro qualquer. É um choro sentido. De quem sabe que não terá como recuperar a pessoa ida e perdida. Perder alguém em vida dói. Mas perder para a morte, é irremediável.
Assim choro meu pai. Eu o perdi para a morte. Ao mesmo tempo que agradeci aos céus ter cumprido minha missão de filha, e eu o acompanhei até seu túmulo, a falta e a saudade dele são terríveis em minha vida.
Ah, meu pai, quanto mais o tempo passa, mais sua falta eu sinto…
São dezesseis meses de sua partida para a casa do Pai. E sua falta, diária. Uma vontade indescritível de ouvir sua voz, e, mais ainda, de seus conselhos e conceitos sobre todo esse horror em que nosso mundo se transformou.
Eu queria, meu pai, que o senhor me dissesse como agir, o que pensar, o que esperar dessa pandemia, desse isolamento que não tem fim. Como ajudar nossos irmãos que sofrem privações, fome, e tanto medo e insegurança por causa disso tudo.
Sua opinião serena e ponderada. E, pai, o mais importante, ter a confiança de apenas segui-lo. Saber que se deixasse o senhor ir na frente, meu caminho seria seguro e me levaria onde devo chegar. Porque o senhor nunca se enganava, nunca deixou um filho sozinho, entregue à própria sorte. O senhor estava ali, ao lado, com seu amor inabalável e sua presença firme, a nos dar segurança.
E hoje, pai, sua falta doeu de forma mais aguda. Machucou, pai, quando eu vi nossa linda afilhada, Denise, surgir na primeira prova de seu vestido de noiva. Linda como nunca. E pensei no senhor, no seus olhos amorosamente verdes, e no seu sorriso emocionado, quando o senhor visse nossa querida “dona Dê” entrar na igreja, com seu vestido branco, seu sorriso lindo, e toda nossa emoção e nossa bênção.
De onde estiver, pai, abençoe nossa afilhada. E olhe por nós, que a saudade nos consome. Que um dia possamos novamente nos reunir. Seja em qualquer dimensão. Mas que eu possa, novamente, estar a seu lado.
Dia escuro, de vento, baixa temperatura… típico de mudança de estação. Era o inverno tentando resistir e ficar mais um pouco. Mas o equinócio não permite. É hora de acabar o inverno e começar a primavera.
Que estará conosco até dia 21 de dezembro, quando o solstício trará o verão.
E, por ser primavera, quero mais cores na minha vida, que tem sido muito cinza, muito bege, muito triste.
Quero as cores quentes, as cores variadas, de um alegre jardim florido.
Sair do casulo no qual passei o inverno e ganhar o mundo.
Andar nas praias, dançar nas praças, cantar nas madrugadas.
Primavera é a estação do namoro, do beijo apaixonado, das mãos dadas sem destino.
Na primavera quero amar. Ser amada. Descobrir novos lugares, provar novas comidas, apreciar novas bebidas.
Porque é primavera, renovação da natureza, quero também me renovar. E inovar.
Limpar as asas que o prolongado inverno enferrujou, e tirar o peso da bagagem excessiva que o início desse ano complicado adicionou à minha carga original.
Eu gosto do amor que sobra! Aquele amor que se derrama, Sem economizar. Amor que Se espalha, Enraíza, Só de olhar. Amor que dá sentido, que faz sentido, A tantas formas de amar. Gosto daquele amor cheio de intenção, Que faz o coração acelerar. Amor que dá água na boca, E depois secura, Para depois molhar. Gosto do amor, Remanso, calmaria, Um pouco de rebojo, Vento brando, sem assustar. Amor tempestade de verão, Chuva forte passageira, aroma de terra molhada no ar; Chuva fina com a sensação de vai-e-vem, Sem garoar. Gosto do amor sentido, Que alivia, mas tempera, Sem hora para acabar. Eu gosto do amor límpido, translúcido, farto, Sem medida ou receio de errar. Eu gosto do amor com jeito, cara e cheiro de amar. Amor que enobrece, cuida, dela, Amor para enfeitiçar. Amor que mata de rir, Que faz viver feliz, E meio sem querer Faz chorar. Amor atrevido, Que se faz presente, Para depois desembrulhar. Eu gosto daquele amor que pode-se chamar de “meu”, Sem medo de gritar. Amor frequente, que extasia, Amor da gente. Amor que faz (des)confiar. Eu gosto daquele amor que te puxa para o lodo e cochicha em meu ouvido, com voz rouca, dizendo: Meu bem, vem cá! Eu gosto daquele amor que usa, abusa E lambuza Com as mais diversas forma de amar. Eu gosto de amor farto, Sem resíduo. Para que economizar, Se amor é para viver de amar? Eu gosto!
Ouve, tão longe, os acordes de uma tarantella. Fecha os olhos e volta no tempo.
Houve um tempo em que foi feliz. Jovem, sorriso fácil e aberto, sempre dançando, levando, como única bagagem, a despreocupação.
Tan-tan-ran-tan-tan-tan-ran-tan-tan-tan-tan-tan-tan-tan… volta a sorrir.
Como era bom dançar a tarantella.
Ainda de olhos fechados, enxerga Napoli, Capri, Campania, Penisola sorrentina, Costiera Amalfitana, Mar Tirreno…
Sul da Itália, aquele lugar do mundo no qual Deus mais caprichou.
Caprichou no mar, na terra, nas praias, nas montanhas (até um vulcão ali Ele colocou para dar mais emoção), e caprichou nas pessoas.
Que sofreram, enfrentaram guerras, privações, erupções, inundações. Mas nunca deixaram de sorrir. De dançar. De cozinhar e criar os melhores doces do universo.
Caprichou quando deu o limão siciliano para esse povo inigualável, que, dentre inúmeras inovações, criou o maravilhoso limoncello.
O sol do sul. As paisagens que não existem em nenhum outro local conhecido. A beleza das pessoas. Os amores de verão.
Tudo ao som da tarantella.
Conclui, agora, já no final da melodia, que sua vida fora uma animada tarantella, às margens de uma praia da região amalfitana.
A grande roda que se fez, e onde rapidamente os dançarinos trocavam de par, sem perder o compasso do ritmo acelerado.