26º domingo da quarentena

E assim chego ao 26º domingo desde que entramos em isolamento social.     

Isolamento já mitigado por medidas que ampliam a possibilidade de vida, mas ainda restringem nossa vida, e, o pior, é que o rescaldo nem começou – quem conseguirá voltar ao chamávamos “vida normal” antes dessa situação que tanta miséria e tristeza nos trouxe?

Para alegria do meu coração, estou de volta a São Paulo, minha terra natal, minha cidade amada. Estava aqui quando decretadas as primeiras medidas restritivas, viajei para outra de minhas casas, no interior, no dia 19/03, onde fiquei todo o tempo da chamada “faixa vermelha”, que lá durou mais de 120 dias. Foi terrível.  

Por ter alma livre, nascida sob o signo da liberdade, é muito difícil, para mim, ficar cumprindo regras estúpidas e que não provaram ser nem eficientes nem necessárias. Até hoje sequer o governo do Estado conseguiu uma linha de ação clara e inteligível para contagem, sem fraudes, do número de doentes do vírus maldito, nem do número de mortos, nem estabelecer um protocolo eficaz de tratamento. A impressão que se tem é a de que, para esse (des)governo, quanto mais confusão, mais notícias histéricas, mais pânico, maior número de infectados e mortos (ainda que não corresponda à verdade), melhor.     

E, desta forma, fiquei restrita a uma casa (graças ao bom Deus, tenho casa onde ficar, e meios de me sustentar mesmo com tudo fechado e tantas empresas falindo e empregos desaparecendo) desde 19 de março. E lá se foram 25 domingos em prisão domiciliar.     

Mas hoje, nesse 26º domingo, estou em São Paulo. Estou viva. Não tive covid. Embora tenha cumprido dois períodos de total isolamento – o primeiro de 14 dias, quando cheguei de São Paulo, onde estivera em locais públicos, inclusive aeroporto – e por conviver com duas pessoas do chamado grupo de risco, fiquei isolada para não acontecer eventual contaminação. E, em final de agosto, por uma dor de garganta, mais doze dias totalmente isolada, porque foi necessário um exame – swab – para ser possível ao médico administrar medicação para a garganta. Nesse período, novo isolamento, sendo que, para a realização do exame foram necessários quatro dias apenas para conseguir agendamento, e, ainda, mais seis ou sete para sair o resultado, que foi negativo para a peste, e a garganta já havia sarado sozinha. De qualquer forma, mais doze dias confinadíssima.     

Continuo usando a focinheira, vulgo máscara. Sei que não adianta para nada, a não ser acalmar a histeria de certas pessoas. Uso para não complicar a situação dos poucos comerciantes que ainda resistem à falência. Esse uso compulsório se assemelha mais a um exercício, um teste de submissão – até onde podem ir para domar a população? o povo vai continuar a suportar a domesticação ou vai se revoltar? – do que uma medida eficiente de proteção a um vírus que nem sabem direito como se transmite. Eu uso o mínimo de tempo possível – com rinite alérgica, se não morrer de covid vou morrer de máscara mesmo, porque para mim é mais grave do que o vírus.

E, quem não quiser se aproximar de mim porque estou sem máscara, que não se aproxime. Será um favor. Mesmo porque, estranhamente, quanto mais esquerdista a pessoa, mais defende a necessidade de isolamento, máscara e outras baboseiras, como se dispusesse de informações privilegiadas e secretas, sobre os terríveis efeitos do vírus e da doença. Só não defende o uso e acesso da população à medicação preventiva, à qual médicos sérios creditam a verdadeira imunização contra o vírus.     

Mas hoje não foi um domingo perdido.     

Foi um dia muito bom. O melhor desde março.     

A última pessoa com quem estive antes do encasulamento foi Myrian. Amiga de décadas. Pessoa que não digo que ocupa um pedaço especial da parte dedicada aos amigos, do meu coração, porque, na verdade, ocupa quase todo o espaço ali existente. É minha amiga, fomos colegas, nos tratamos como se fôssemos irmãs pelo amor e pelos interesses que partilhamos.     

E ela veio almoçar comigo. Tal como no último dia antes de nos recolhermos compulsoriamente em nossas casas. E aqui ficou até o começo do anoitecer.     

Como é bom encontrar a Myrian, conversar com ela, partilhar um domingo com uma pessoa que faz tanto bem à mente e ao coração. Temos mil assuntos – sem cri-cri, sem pandemia, sem hipocondria nem fofoca.       

Tive, hoje, meu refresco nesse ano tão esquisito. Por isso não vou contar esse dia como 26º domingo de confinamento. Mas um dia de liberdade depois de 25 domingos sem alegria.     

Obrigada, Myrian, por sua amizade, seu carinho e sua companhia. Um dia voltaremos à vida.

E os spas e hotéis que se preparem, porque vamos tirar a diferença desse tempo horroroso, continuando nossas viagens.

(Imagem: foto tirada da janela de casa, por volta de 18h15, do vermelho anoitecer neste domingo em São Paulo)

Dia de poesia – Vinicius de Moraes – Canção do amor que chegou

Amor de Primavera - Mensagens - Paixão e Amor

Eu não sei, não sei dizer 
Mas de repente essa alegria em mim 
Alegria de viver 
Que alegria de viver 
E de ver tanta luz, tanto azul! 
Quem jamais poderia supor 
Que de um mundo que era tão triste e sem cor 
Brotaria essa flor inocente 
Chegaria esse amor de repente 
E o que era somente um vazio sem fim 
Se encheria de cores assim 

Coração, põe-te a cantar 
Canta o poema da primavera em flor 
É o amor, o amor chegou 
Chegou enfim

De solidão

A harpa e seu lamento retido em nervos de metal dourado, tão suave instrumento ressonante ou delgado, buscam, ó solidão, teu reino gélido. (Garcia Lorca)

Como definir a solidão, se não é igual para todos? É tão relativo o seu conceito…

Para os poetas é inspiração, para os amantes – se juntos é o ideal, se separados é desespero, para crianças é medo, para tantos adultos é tranqüilidade ou angústia…

A cada fase da vida a solidão se transforma, adota outros significados.

Um bebê deixado sozinho fatalmente morrerá. A cada vez que não visualiza o rosto da mãe o bebê chora porque não tem noção de tempo nem distância e encara a solidão momentânea  como total e definitivo abandono.

Nos primeiros anos da vida a solidão se transforma em medo – medo do escuro, medo do desconhecido, medo da noite…

Conforme se cresce,aprende-se a dominar os medos – especialmente os medos abstratos – para mostrar maturidade. Ninguém é ridicularizado se mostra medo de uma serpente, mas se disser que tem medo da noite ou do escuro, vira motivo de infinitas gozações…

E na idade adulta esses medos têm que ser controlados. Aí a grande arte de viver.

O medo da própria vida geralmente se transmuda em timidez. Cada medo vai encontrando uma forma de se encaixar na realidade. E saber lidar com essa gama de emoções se torna essencial para a convivência.

E o medo da solidão – algo abstrato e indefinido – mais cedo ou mais tarde aparece para todos. Vencê-lo é o desafio. Ou conviver com ele e fazer da solidão uma aliada da jornada terrena.

Quem é mais solitário, o filho que fecha a porta do quarto e ali permanece horas ou dias inteiros ou a mãe, que não tem essa escolha e continua nas lides domésticas, fazendo o trabalho invisível, que é feito exatamente para ser desfeito em seguida?

O defunto que é enterrado sozinho em sua caixa de madeira enfeitada ou a viúva, que terá que continuar viva, caminhando sozinha na vida depois de tantos anos de companheirismo?

A irmã que chora ao se despedir da irmã que vai embora para sempre do país ou essa que vai enfrentar o desconhecido em outras terras?

Todos são igualmente solitários.

E a pior de todas as solidões, sem dúvida, é a solidão cotidiana, dentro do grupo em que se convive.

Solidão em família, solidão entre amigos, solidão no ambiente de trabalho.

Todos passam, em algum momento da vida, por solidão. Doída, aguda, insuportável, porém inevitável.

E surpreendentemente, muitos conseguem lidar de forma extraordinária com a solidão, fazendo dela uma grande aliada, a melhor companheira.

E são felizes sozinhos, a companhia de outro ser humano, eventual, passageira, chega até a incomodar, porque se sentem melhor sozinhos…

Se a solidão é opção, poderá, até mesmo,  ser transformada em felicidade.

E equilibrar tudo isso é a maneira de se viver em paz: não se desesperar com tempos de solidão e dar valor às pessoas com as quais se convive – momentânea ou permanentemente.

Paixão

Imagens lindas - Boa noite envolvente, ardente,... | Facebook

Viver uma paixão sem limites

Que arrasta tudo que um dia já foi.

Como águas violentas de uma torrente

Que tudo levam, destroem, mudam a paisagem.

Como pássaros não voltam aos mesmos ninhos,

Também das cinzas nada mais pode surgir;

As ondas não trazem as areias que levaram,

Os amores passados devem ser esquecidos

Surgindo, forte e invencível, essa paixão ardente.

Olhos nos olhos, mãos se buscando,

Abraços loucos em meio a beijos insanos,

Corpos unidos, em um hipnótico desejo,

Pele contra pele, como pólvora e fogo

Já não há realidade, o mundo lá fora se acabou

Apenas o canto da chuva a embalar esse momento

Em que existem apenas dois seres que se querem,

Nessa entrega louca, que os torna apenas um,

No silêncio profundo do amor que se fez docemente

Nesse exato instante – o agora, sem antes nem depois

Se for amor

Eu te amo. Mesmo negando. Mesmo deixando você ir. Mesmo não te pedindo para ficar. Mesmo estando longe, eu te amo. E amo mesmo. (Caio Fernando Abreu)

Leio essa frase do Caio Abreu e penso sobre ela. O que é o amor. O que é a paixão.     

O recorrente tema da paixão. Porque esse “eu te amo” da frase acima é a expressão da paixão sem limites. É ser loucamente apaixonado por alguém a ponto de deixar de se amar.      

Não se amar nem se valorizar. Amar mesmo sendo abandonado. Trocado. Traído. E continuar apaixonado.     

Ver o outro ir embora sem ter chances de segurá-lo. E continuar amando.    

Ficar longe, completamente separados, mas ainda amando.     

Isso não é amor. Isso é obsessão.     

Porque amor é troca. Eu amo você e você me ama. Assim é amar.     

Não dá para amar pelos dois, não existe amor unilateral.  

Porque se for unilateral é loucura, não amor.     

Mas é esse desvario do amor não correspondido que desperta o mundo. Ou não teríamos poesias nem romances de amor.     

Se o amor for calmo, correspondido, metrificado, quem vai querer saber os detalhes?     

Para despertar a curiosidade, vender livros e filmes, a paixão tem de ser devastadora. Muito pranto, muito desespero. Alguém se arrastando até perder a dignidade. Alguém matar ou se matar. Escândalo, sangue, gritos… aí a atenção de todos se manifesta.

Mas se eu amar quietinha, deixar ir, chorar sozinha, que graça tem?     

Todos querem fatos picantes e detalhes sórdidos, na história alheia.     

No entanto, sonham com esse amor quadradinho, morninho, certinho para si.

Somente na canção de Gil existe o despendimento de “o seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar…” Aqui, na fria realidade, é ame-o, agarre-o e destrua sua liberdade; ou quebre suas pernas para que não se afaste, arranque suas asas para que não voe… o sentimento de posse sobre o ser amado é intenso e asqueroso.    

Não aceitar ver o outro partir não é amor. É doença.     

Matar o parceiro que quis se afastar não é amor. É doença.     

Tentar se matar porque o outro achou que era hora de terminar não é amor. É doença.     

Amor não mata. Não destrói. Não prende.     

O amor simplesmente ama. É altruísta. É bondoso. Acrescenta. Faz crescer e desabrochar.     

Se não for assim, não é amor.