Dia de poesia – Alberto Caeiro – Quando vier a primavera

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

(Imagem: banco de imagens Google)

Dia de poesia – Joaquim Pessoa – Tu sabes onde estou…

Sabes como me chamo.    
Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva 
e não encontrares mais esperança, 
quando a tua antiga coragem vacilar. 
Caminharei a teu lado. 
Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, 
mas haverá igualmente um sol limpo 
que interrogará as tuas mãos 
e que te ajudará a encontrar, 
entre as respostas possíveis, 
as mais humildes, 
quero eu dizer, 
as mais sábias e as mais livres. 
Conta comigo. 
Sempre

	

Dia de poesia – Rosa Lobato de Faria – Eu te prometo

Eu te prometo meu corpo vivo
Eu te prometo minha centelha
minha candura meu paraíso
minha loucura meu mel de abelha
eu te prometo meu corpo vivo
Eu te prometo meu corpo branco
meu corpo brando meu corpo louco
minha inventiva meu grito rouco
tudo o que é muito tudo o que é pouco
meu corpo casto meu corpo santo
Eu te prometo meu corpo lasso
mar de aventura mar de sargaço
vaga de náufrago onda de espanto
orla de espuma do meu cansaço
eu te prometo meu doce pranto
Eu te prometo todo o meu corpo
ardendo eterno na nossa cama
como um abraço como um conforto
P´ra que me lembres além da chama
eu te prometo meu corpo morto

Para hoje, 30.01, Dia da Saudade

Um dia, ao ler alguma coisa que aqui postei sobre Saudade, meu padrinho, Elcio, me ligou para elogiar o texto e disse: “Não sei se você tem saudade, se você sente toda essa saudade que você escreve, mas gosto tanto dos seus textos desse tema, que acho que você deveria escrever exclusivamente sobre saudade…” Dedico esse post de hoje a ele, que, agora também, é uma das minhas maiores saudades…

Para falar de saudade

Ah, saudade…

Tanta saudade, tanta ausência, tanta falta…

Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…

Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.

Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…

A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.

A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.

E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.

Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.

(Imagem – banco de imagens Google)