Dia de poesia – Cecília Meireles – Canção

No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas…
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.

Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto

Quando as ondas te carregaram
meu olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.

Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.

E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.

(Imagem: Foto de Maria Alice)

Memória – Resistir para viver

Ainda que pareça impossível de superar.

Ainda que isso pareça te esmagar todo dia.

Ainda que o desespero tente te fazer parar, aguente mais um pouco.

Não desista de você por nada, por ninguém.

A dor é a onda que passa. Você é o mar que fica.

(A menina e o violão)

Ah, palavrinha mágica essa tal de “superar”.

Quase ninguém se dá conta, mas se olhar de relance para trás, perceberá que ainda vive graças – exclusivamente – à própria capacidade de superação.

Desde quando se foi concebido já aconteceu uma superação. Dos milhares de óvulos e milhões de espermatozoides, a concepção se deu pelo encontro de um único óvulo e um só espermatozoide, que superaram todos os outros.

O nascimento requer uma incrível capacidade de superação. De um ambiente aconchegante, úmido, quente, silencioso e escuro, repentinamente a criança é exposta à luz, barulho, frio, secura e desconforto de um centro cirúrgico. Um choque. Mas superamos e sobrevivemos.

E assim pela vida afora – a separação traumática em relação à mãe nos primeiros dias de escola. As frustrações, o inevitável bullying para a maioria. Provas difíceis, notas baixas, quebras de expectativas. E superamos e sobrevivemos.

A confusa adolescência, as primeiras paixões, sem as quais pensávamos morrer. Tudo passou e nós não morremos.

Vida afora, nos estudos, nos empregos, nos amores, fomos lutando e nos superando para continuar existindo.

Tantos problemas a resolver. Tantos boletos a pagar. Tantos risos seguidos de tantas lágrimas. Tantas perdas pela via.

E resistimos. E superamos. E sobrevivemos.

Em nenhum momento a vida ficou mais leve nem mais fácil, mas nossa incrível capacidade de superação sempre nos fez cada vez mais fortes e com mais condições de seguir adiante. E se reinventar quantas vezes for preciso. Vencer todas as batalhas possíveis. Triunfar.

Por isso resistimos e insistimos. E, do alto – onde estamos graças a nós mesmos – olhamos em volta e dizemos: “eu venci”.

Isso é viver.

(Imagem: banco de imagens Google)

Texto de Vitor Ávila – Ela

Ela nem sempre foi compreendida pela vida, mas também nunca deixou de ter fé no dia seguinte.
Ela conhece os dias de luta e as suas próprias fraquezas.
Ela já quis desistir é claro e não foram poucas as vezes que o mundo parecia não fornecer abrigo nenhum.
Ela teve lágrimas de sangue mas as borboletas de sua alma nunca deixaram de voar.
Ela se trancou dentro de casa enquanto lá fora chovia tanto que os seus olhos podiam ter inveja do suposto sufoco que o céu despejara.
Ela sempre foi humilde e serena, era a própria gratidão em dias de sol.
Ela morreu.
Ela viveu.
Ela sofreu.
Chorou.
Acreditou.
E mais uma vez caiu.
Ela se levantou e deu a volta por cima.
Ela é como a fênix.
Ela descobriu ser a própria brisa e calmaria. Ela poderia ser a tempestade em forma humana mas preferiu ser refúgio.
Ela não é intacta, tem feridas que ainda não fecharam, mas
seu coração é com certeza a parte mais bonita do amor.
Ela é o amor!!!

(Imagem: foto de Maria Alice)

Memória – Invernos

“… E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível.” (Ruben Alves)

A Trail In The Forest On A Cold Winters Day, Calgary, Alberta ...

“Não é inverno, ainda…”, alguém vai dizer.

E eu respondo: “quem disse que não?”

Porque inverno não é apenas uma estação do ano, quase desconhecida aqui nesse país tropical. Inverno é uma estação da alma. Inverno é uma estação da vida.

Quando nos condenaram a esse isolamento social, colocaram-nos no inverno social.

Quando deixamos de voar porque precisamos de outra asa para formar um par, estamos no inverno afetivo.

Quando mais do que sozinhos, estamos sem a pessoa que amamos e queremos a nosso lado, nossa alma está no inverno.

E, por fim, quando a juventude já ficou muito longe, a maturidade também se foi, juntamente com as forças e as ilusões, já não somos mais capazes de sonhar, estamos no inverno da vida.

Quantas vezes derrapamos, tropeçamos, caímos na vida. Mas continuamos. De algum lugar insuspeito tiramos as forças e retomamos a luta. Por nós, por alguém, por outros.

Não podemos parar na queda e continuar caídos, ou seremos tragados pela crueza do existir.

Então sempre nos levantamos. E nossa força não reside em não cair. Mas em se levantar depois da queda e seguir adiante.

Quedas reais e figuradas.

Em minha vida, mais figuradas do que reais. Mas quedas. Algumas feias. Que machucaram muito. Deixaram cicatrizes – feias tatuagens na alma, que era tão delicada.

Leio novamente essa frase do insuperável Rubem Alves.

E penso, que, realmente, sempre descobri um novo verão dentro de mim.

Por isso segui em frente. Por isso estou aqui. Em pleno inverno da vida, descobrindo, ainda invencíveis verões.

Mas, para atingir esses verões, terei de passar, com toda a paciência, por outras primaveras.

(Imagem: banco de imagens Google)

Quando se canta a tristeza

Soneto (Chico Buarque)

Por que me descobriste no abandono?
Com que tortura me arrancaste um beijo?
Por que me incendiaste de desejo?
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo?
De que romance antigo me roubaste?
Com que raio de luz me iluminaste?
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida?
E me indicaste o mar, com que navio?
E me deixaste só, com que saída?

Por que desceste ao meu porão sombrio?
Com que direito me ensinaste a vida?
Quando eu estava bem, morta de frio

Lygia se foi, mas não morreu – ela é imortal

Hoje perdemos a “dama da literatura nacional”, escritora paulista, vencedora de cinco prêmios Jabuti, a imortal Lygia Fagunde Telles. Aos 98 anos de idade, ela partiu. Alma delicada, inteligência privilegiada, foi grande, foi enorme. Honrou o fardão que ostentou por décadas na Academia Brasileira de Letras, onde, desde 1985, ocupava a cadeira 16. Excelente escritora, ela é imortal. Estará sempre presente na memória dos leitores.

A disciplina do amor


Por que não lhe disse antes?
Apertá-lo demoradamente contra o meu peito e dizer: não disse porque pensava que tinha pela frente a eternidade. Só me resta agora esperar que aconteça outra vez, vislumbro esse encontro – mas vou reconhecê-lo? E vou me reconhecer nos farrapos da memória do meu eu?
Peço que me faça um sinal e responderei ao código secreto na mente e no silêncio dos navios que se comunicam quando cruzam no mar.

Ela disse tudo. Nada mais é preciso dizer…

(Imagem: banco de imagens Google)