Fim de outubro

O ano quase se acabando, rapida ou lentamente, dependendo de cada situação vivida.

Lá se vai outubro. Dez meses perdidos em uma ano que só tem doze.

O que trazemos desse segundo ano de desmando e descontrole?

Apenas desânimo, tristezas e falta de vontade de continuar lutando.

Não há mais vida.

Há uma insegurança total, seja quanto à vida pessoal, às finanças, ao futuro político do país.

Não conseguiremos deixar para nossos filhos e netos um mundo melhor do que aquele que recebemos dos nossos pais e avós.

O mundo se balança perigosamente à beira de um precipício.

E vemos se escoar esse ano, tão esperado como recuperação do desastre de 2020.

Mas foi pior.

E, sem dúvida alguma, 2022 será ainda mais nefasto.

E veremos as verdades serem negadas, as regras morais desaparecem sob o autoritarismo galopante e a vida – pessoal, familiar e social – se esfacelar.

Essa é a realidade hoje.

Passado o feriado prolongado (depois de tanta paradeira na pandemia, agora a moda são os feriados prolongados), será novembro.

E de nós, o que será?

Conjugando o verbo Amar

Repito hoje esse texto, porque estava lendo sobre o AMOR. E recordei-me do que já havia escrito. Quem já leu está dispensado de ler novamente.

Eu te peço perdão por te amar de repente, embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos. (Vinicius de Moraes)

Queimando (enésima tentativa de publicar este post) – cabecaliberta

Um dia Mário de Andrade nos brindou com “Amar, Verbo Intransitivo”. 

Deixando para lá o enredo, que não é do agrado geral, fico no título e sobre ele medito: “Amar, verbo intransitivo”. Para Mario de Andrade, eu amo. Ponto final. Eu amo porque amo. Eu amo por amar. Eu amo. Não interessa o que. Se amo alguém, se me amo, se amo o próprio amor. Porque não seria um verbo transitivo. Nem direto nem indireto. Mas um verbo intransitivo, sem qualquer complemento. Eu amo. Apenas.

Não, não é assim. Para mim amar é um verbo transitivo. Quem ama, ama alguém, ou ama algo. Ainda que ame a si próprio. Ou uma coisa desprezível. Mas ama com complemento. Portanto prefiro a outra forma: “amar, verbo transitivo”. 

Falo hoje não do amor, sentimento sublime, que une pais e filhos, que eleva, que apura, que doa, que tudo… Não. Nada disso. Falo do amor sensual. Ou melhor, da paixão quando denominada amor. 

O que seria do mundo sem esse amor-paixão? Já teria acabado há muito tempo. Por tédio, por inércia. Por verdadeira inação. 

Só agimos sob o signo da paixão. 

Vê-se de longe quem é, e quem não é, apaixonado. E não falo de quem está, ou não está, apaixonado. Porque não se trata de “estar”, mas de “ser” apaixonado. Como uma qualidade que a pessoa carrega consigo. 

Os apaixonados se arriscam, se lançam, se atiram, vão mais longe, querem chegar a algum lugar. 

Diferente de quem não ama ou não tem paixão: se deixa ficar, não busca, não sonha, não vai… 

A paixão é o sal e a pimenta do viver. Tempera a existência, dá gosto. Desperta o prazer de viver. 

Quanto mais se é apaixonado, aquela paixão que cega, de adrenalina, que faz acelerar o coração, que tira o fôlego, mais feliz se é. 

Colocar paixão em tudo – no estudo, no serviço, no que se faz por gosto e também em tudo que é feito somente por obrigação – torna a vida mais leve. 

Portanto, ser intensamente apaixonado nos torna melhores humanos, nos leva mais longe do ponto de partida. 

Esse verbo amar do amor-paixão tem de ser conjugado diariamente para que a vida valha a pena ser vivida. 

Mas, para mim, deveria ser modificado um bocadinho: o verbo amar não poderia, jamais, ser conjugado no tempo passado.

Dia de poesia – Carlos Drummond de Andrade – A um ausente


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

Dia de poesia – Cândido Arouca – Amo-te na ausência

Silhueta Casal Relação - Gráfico vetorial grátis no Pixabay

Uma parte de ti

Uma parte de ti é a que me dás quando me beijas.

Uma parte de ti é a que partilhas comigo quando me possuis.

Uma parte de ti é a que recebo em cada gesto teu,

em cada olhar,

em cada carícia,

na saudade de cada ausência,

no desejo de te ver,

de te ter.

Uma parte de ti é a distância que nos separa.

É ter-te encontrado.

É saber que existes,

que nos pertencemos,

que nos temos,

mesmo quando não nos temos!

Uma parte de ti és tu toda,

mas pode ser apenas a tua mão,

a tua boca,

os teus seios,

o teu sexo,

ou nada,

porque te amo mesmo na ausência do teu corpo.

Cada parte de ti é o teu todo,

és tu toda.

A tua ausência é também uma parte de ti,

a que dói,

a que faz sofrer,

a que faz chorar,

a que faz desejar-te mais ainda.

E quando voltas, a parte de ti que é o teu todo, completa-me,

satisfaz-me,

preenche-me.

E fico também completo,

por te ter,

toda.

(Imagem pixabay.com)

Memória do blog – O passado em uma foto

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é image-2.png

Fotos. Que antes eram fotografias. E, antes ainda, retratos.  

Em músicas, filmes, romances, sempre há o recurso da foto para voltar ao passado. Seja de forma figurada ou literal dentro da ficção. E, na vida real, fotos são lembranças vivas, fazem o passado sempre presente.  

Conseguimos nos desfazer de muitas coisas ao longo da vida, mas não temos coragem de rasgar fotos e jogar no lixo. A não ser algumas, que foram rasgadas com raiva e molhadas de lágrimas.  

Assim, vamos acumulando fotos e mais fotos. Álbuns e mais álbuns. E, nos dias de hoje, com a facilidade da foto digital, as temos aos milhares.  

Vejo antigas fotos (não as chamo velhas – ou seria eu também velha por as possuir…).  

Elas me trazem de volta meus vinte anos. No milênio passado. Não poderei nunca mais ter vinte anos, mas me posso ver nessa idade. E outras pessoas com quem convivi naquela época.  

Fico a lembrar de tantos acontecimentos, tanta leveza, uma vida livre e despreocupada.    

Meus pais ainda jovens, fortes, nossa casa tão cheia de amigos, nossa vida tão cheia de festas e encontros.  

Tudo se perdeu. Tudo ficou nessa caminhada árdua que a vida se tornou de repente.  

A memória é algo fabuloso. Deus a deu aos homens para tornar mais leve a realidade. Basta fecharmos os olhos e relembrarmos o que já foi, deixar fluir o pensamento. Reviver os melhores momentos. E, para isso, as fotos são magníficas. Porque não mostram nossa decadência física. Elas nos guardam naquele momento, em que a juventude brilhava em nossos olhos e tonificava nosso corpo.  

E Deus foi tão bom com os homens, que, para aqueles que a memória machuca no final da vida, ela se perde na bruma da velhice.  

Olho para mim mesma em uma antiga foto. E confiro no espelho com a imagem que me tornei.    

E entendo, sim, o que pensava Wilde com seu Dorian Gray…