
Semana Inesquecível Vinicius – parte final – Soneto de aniversário e diálogo com o Poeta
Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura
E eu te direi: amiga minha, esquece…
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.
(Soneto de aniversário)
Aqui, a blogueira dialoga com o Poeta, enquanto ouvem uma das mais lindas canções de sua extensa obra…
Se ela tivesse a coragem de morrer de amor (e eu teria, e eu tenho, toda a coragem tanto para morrer quanto para viver de amor a seu lado)
Se não soubesse que a paixão traz sempre muita dor, (mas isso eu sei, talvez saiba mais que tantos que já pensaram saber, mas insisto na paixão, mesmo assim)
Se ela me desse toda devoção da vida, num só instante, sem momento de partida. (Eu a daria. Toda a devoção e até a própria vida. E não partiria nem te veria partir. Jamais.)
Pudesse ela me dizer o que eu preciso ouvir. (eu podia e o diria, com todo amor, diria tudo e ainda mais, se você pudesse me ouvir).
Que o tempo insiste porque existe um tempo que há de vir, (e juntos teríamos todo esse tempo para amar, amar e sempre amar)
Se ela quisesse, se tivesse essa certeza, de repente, que beleza, ter a vida assim ao seu dispor. (você não percebeu, mas eu quis, eu tive essa certeza e sonhei com essa vida a meu dispor)
Ela veria, saberia que doçura, que delícia, que loucura, como é lindo se morrer de amor… (eu vi e eu sabia, e ainda mostraria a você como é ainda mais lindo se viver de amor…)
Ah, Poeta, mas nada disso aconteceu. Você cantou, eu ouvi, e me encantei. E isso foi tudo. Você é eterno, imortal. Seu canto nunca se foi. Sua poesia jamais morrerá. E o encanto ficará para sempre.
Feliz eterno dia de seu aniversário.
Os Poetas não morrem, encantam e permanecem!
Semana Inesquecível Vinicius – 8 – Minha namorada
Chegara enfim o mesmo que partira: a porta aberta, e o coração voando ao encontro dos olhos e das mãos. Velhos pássaros, velhas criaturas, almas cinzentas plácidas passando – somente a amiga é como o melro branco!
E enfim partira o mesmo que chegara: o horizonte transpondo o pensamento e nas autoras plácidas passando o doce perfil da amiga adormecida. Desejo de morrer de nostalgia da noite dos vales tristes e perdidos… (foi quando desceu do céu a poesia como um grito de luz nos meus ouvidos…)
(Soneto simples)
“Toco violão, de ouvido. E faço sambas de bossa.
Garoto, lutei “jiu-jitsu”. Razoavelmente. No tiro
Sobretudo em carabina sou quase perfeito. As coisas
Que mais detesto: viagens, gente fiteira, fascistas,
Racistas, homem avarento ou grosseiro com mulher.
As coisas de que mais gosto: mulher, mulher e mulher
(com prioridade da minha), meus filhos e meus amigos.
Ajudo bastante em casa pois sou um bom cozinheiro.” (Vinicius, por Vinicius)
Nessa semana dedicada ao Inesquecível Vinicius, em homenagem ao aniversário do Poeta, comemorado no dia 19.10, não poderia faltar esse poema. Ouvir essa proposta da voz do Poeta, em um sentimento nascido de sua alma e traduzido em seus versos é o sonho de todas as musas…
Se você quer ser minha namorada
Ah, que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder
Esse jeitinho de falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho
E chorar bem de mansinho
Sem ninguém saber porquê
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo em meu caminho
E talvez o meu caminho seja triste pra você
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
Os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem que ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois
Semana Inesquecível Vinicius – 7 – Soneto da hora final
Silêncio. Façam silêncio
Quero dizer-vos minha tristeza, minha saudade
E a dor, a dor que há no meu canto…
Ó silenciai, vós que assim vos agitais
Perdidamente em vão.
Meu coração vos canta
A mais dolorosa das histórias…Minha amada partiu, partiu
Ó grande desespero de quem ama
Ver partir o seu amor…
(A mais dolorosa das histórias)
Continuando a semana em homenagem a Vinicius, pelo dia de seu aniversário – 19.10, mais um trecho de depoimento dele e um soneto….
Moro em Paris, mas não há nada como o Rio de Janeiro
Para me fazer feliz (e infeliz). Desde os 7 anos venho fazendo versinhos.
Gosto muito de beber e bebo bem (hoje menos
Do que há dez anos atrás). Minha bebida é o uísque
Com pouca água e muito gelo. Gosto também de dançar
E creio ser essa coisa a que chamam de boêmio.
Em Oxford, na Inglaterra, estudei literatura inglesa
O que foi para mim fundamental. Gostaria de morrer
De repente, não mais que de repente, e se possível
De morte bem natural.
(Vinicius, por Vinicius)
Soneto da hora final
Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.
Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta da treva aberta em frente.
Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenha medo
E tu, tranquila, me dirá: – Sê forte.
E como dois antigos namorados
Noturnamente tristes e enlaçados,
Nós entraremos nos jardins da morte.
Semana Inesquecível Vinicius – 6 – Samba em Prelúdio
Mais que um samba, mais que um poema – uma carícia
Eu sem você
Não tenho porque
Porque sem você
Não sei nem chorar
Sou chama sem luz
Jardim sem luar
Luar sem amor
Amor sem se dar
Eu sem você
Sou só desamor
Um barco sem mar
Um campo sem flor
Tristeza que vai
Tristeza que vem
Sem você meu amor
Eu não sou ninguém.
Ai, que saudade
Que vontade de ver renascer
Nossa vida
Volta, querida
Os meus braços precisam dos seus
Seus abraços precisam dos meus
Estou tão sozinho
Tenhos os olhos cansados de olhar
Para o além
Vem ver a vida
Sem você meu amor
Eu não sou ninguém
Semana Inesquecível Vinicius – 5 – Canção para a amiga dormindo
É claro que a vida é boa E a alegria, a única indizível emoção É claro que te acho linda Em ti bendigo o amor das coisas simples É claro que te amo E tenho tudo para ser feliz.
Mas acontece que eu sou triste… (Dialética)
“Conheci Vinícius na aula de português da 7ª série, ou seja, 18 anos depois de sua morte. Minha reação foi bem viniciana: me apaixonei perdidamente na hora por aquele poeta. Assim ele era: a palavra certa e sensível com intensidade sempre constante.
Poeta e diplomata, por muito tempo Vinícius viveu entre as duas profissões, até que a música e a poesia falaram mais alto. Vinícius cantava e recitava o amor, um amor total, como em seu soneto um amor amigo, aquele que é “nunca perdido, sempre reencontrado”; um amor à vida: repleta de separações onde o “riso se faz pranto”; de desesperanças, que devem ser mortas; de desigualdades, onde o próprio operário se vê em construção.
Vinícius era um bon vivant, teve o privilégio de viver de poesia e vivenciar tudo o que queria até o fim (o que inclui nove casamentos, cinco filhos, centenas de amigos, milhares de admiradores). Sua fidelidade era à vida, aos amores diversos, ao copo de uísque. Deixa como legado um olhar leve e intenso, uma rima perfeita, um carinho por onde passa. Se seria mesmo o amor “eterno enquanto dure” como ele mesmo dizia, certamente Vinícius é um imortal.” (Lígia Pinheiro Paganini)

Canção para a amiga dormindo
Uma paz imensa
Dorme, amiga, dorme
Teu sono de rosa
Uma paz imensa
Desceu nesta hora.
Cerra bem as pétalas
Do teu corpo imóvel
E pede ao silêncio
Que não vá embora.
Dorme, amiga, o sono
Teu de menininha
Minha vida é a tua
Tua morte é a minha,
Dorme e me procura
Na ausente paisagem…
Nela a minha imagem
Restará mais pura.
Dorme, minha amada
Teu sono de estrela
Nossa morte, nada
Poderá detê-la.
Mas dorme, que assim
Dormirás um dia
De um sono sem fim…
Na minha poesia.
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