Rotina

 

Noite de domingo. Mais uma semana vivida. Menos uma semana para se viver…

E depois de um domingo preguiçoso, sempre vem uma segunda-feira acelerada. Já fico cansada só de pensar.

Quando estamos nos acostumando com o ritmo da semana, chega o esperado sábado. E desaceleramos. Mais um domingo de pura ociosidade. Nunca fui acostumada à vida madraça, mas agora, já na soleira do fim, estou apreciando viver sem muita obrigação. Mesmo assim, ainda acho que estou com muitos compromissos.

Sonho com o dia em que acordarei nos dias de semana sem absolutamente nada para fazer. Nem tirar o carro da garagem. Talvez mesmo nem destrancar as portas. Vaguear pela casa, em silêncio, sem tv ligada, sem ninguém falando nada.

Preparar meu café da manhã em qualquer horário – não fará a menor diferença se me levantar 5h45 ou 10h15.

Deitar para fazer nada até o corpo gritar que precisa se movimentar. Daí preparar alguma refeição – do meu jeito, sem carnes nem gorduras, saborear lentamente e continuar vadiando até a noite chegar. Passar a tarde lendo deitada em uma rede.

 Como não sou de ferro, ao anoitecer tomar um bom whisky, na varanda, pensando na vida boa que estou levando.

E assim continuar até ir dormir de novo.

Essa seria minha nova rotina. Mas acredito que vai ficar no sonho, porque minha realidade é bem diferente. Mas, como enfrentar a realidade sem sonhar?

Dia de poesia – Timidez – Cecilia Meireles

Basta-me um pequeno gesto,

feito de longe e de leve,

para que venhas comigo

e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída

das montanhas dos instantes

desmancha todos os mares

e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,

entre os ventos taciturnos,

apago meus pensamentos,

ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,

os mundos vão navegando

nos ares certos do tempo,

até não se sabe quando…

e um dia me acabarei.

O tempo não passa

Nessa hora morta entre o final da tarde e o anoitecer, o dia já se foi, mas a noite ainda não chegou. Hora de saudade doer, de ansiedade surgir, de fazer um balanço do dia – e sempre o resultado é negativo.

Dizem: “anoiteceu, acabou o dia, o tempo passa rápido…”. Não, isso não é verdade.

Nós passamos e o tempo fica, ainda que os homens acreditem que o tempo é que passa. Não, o tempo fica.

Todos os dias amanhece, entardece e anoitece. Igualmente.

Não há dia nem noite envelhecidos, nem de cabelos brancos, nem alquebrados.

Podem ser chuvosos ou luminosos. Nublados ou ensolarados. Mas com vida. Sempre. O tempo não se cansa. Não se desgasta. Apenas existe.

Enquanto a humanidade envelhece, apodrece, se torna incômoda.

Os homens passam, as gerações se findam, ninguém mais se lembra de quem estava aqui há cinquenta anos atrás.

Mas todos sabem como foi o dia de hoje há cem anos atrás: amanheceu, entardeceu e anoiteceu. Com ou sem sol. Com ou sem lua. Mas estava aí, exatamente como o dia de hoje.

O tempo não é cruel. Cruel é a vida, que nos açoita continuamente. Cruéis são os sonhos, que nos iludem e nos decepcionam porque não se realizam.

Cruel é apaixonar-se e ficar sofrendo em solidão aguda.

Cruel é a fragilidade do corpo humano.

O tempo, ah, o tempo é indiferente às misérias dos homens. Apenas se limita a assistir a batalha diária dessas criaturas insignificantes diante da majestosidade da eternidade.

Noite de paz

Queria conhecer a noite eterna

E nela adentrar

Deitar, adormecer na calma da escuridão

Do silêncio da ausência de vida

Calmamente, imergir no nada

E ali ficar

Sem a ansiedade de um novo amanhecer

Sem a angústias das dores da madrugada

Sem a nova manhã – que vai chegar

Sem um dia a mais – que vai chegar

Sem ter de sentir a dores – que vão chegar

Sem nenhuma decepção – que vai chegar

Sem ter de enfrentar problemas – que vão chegar

Apenas docemente adormecer sem pensar

Ouvindo minha interna música de acalanto

Sentindo o calor aconchegante de estar em paz

E assim morrer

E não amanhecer

 

Hoje é dia de poesia – Margarida Vieira – Não me deixes morrer longe do mar

 

não me deixes morrer longe do mar
das vagas de palavras que me sussurras
quando fechas os olhos espraiando os lábios
e as tuas mãos são algas apetecidas

não me deixes morrer longe do mar
das asas aladas de pássaros vivos
que ecoam as noites em amor escritas
salgadas por temperos escondidos

não me deixes morrer longe do mar
das marés tão certas de incerteza
como a vida preceder o tempo
ou o horizonte ser infinito com rosto

não me deixes morrer longe… de ti

 

Uma lembrança

 

Dai-me, Senhor, a perseverança das ondas do mar, que fazem de cada recuo um ponto de partida para um novo avanço. (Gabriela Mistral)

 

Caminhando hoje ao longo das praias Pitangueiras e Astúrias, na altura das pedras que as separam, o mar dificultava a passagem, pela maré alta.

As fortes ondas traziam coroas de espuma tão branca que era um espetáculo quando se chocavam contra as pedras. Parei ali, para atravessar passo a passo só enquanto as ondas recuavam para nova investida.

Cenas de um passado muito distante voltaram-me à mente.

Um grupo de jovens entre 18 e 22 anos, todos amigos, alguns irmãos, outros namorados.

Todos apaixonados por praia, ficávamos horas entre a areia e os banhos de mar. Até o corpo não aguentar mais. Daí casa, banho, um cochilo, e rua de novo. Ser jovem é não sentir cansaço, ter disposição para tudo.

Reuníamo-nos na pizzaria. Era um festival de muitas pizzas, porque o apetite era enorme. E    devorávamos tudo, e ainda sempre terminávamos com as infalíveis pizzas doces – califórnia, romeu e julieta, morango com chocolate. Hoje eu não comeria nenhuma. E, no máximo,  como duas fatias de pizza básica. Mas aos 20 anos a história era outra…

Alimentados e felizes, era hora de ir para o apartamento da família da Sílvia, namorada do Fernando. Exatamente naquele ponto da cidade, onde as praias se dividem, no Edifício Sobre as Ondas.

E, luzes apagadas, sentados no chão, alguém tocando violão, todos cantando, fascinados deixávamos o tempo escoar enquanto olhávamos a força do mar, em ondas com brancas espumas, “entrando” sob o edifício para bater nas pedras.

Cada um seguiu seu caminho, Carlos se casou com Marta, Fernando com Silvia, uns casais se separaram, outros nem se formaram…

Mas a doce lembrança daquele tempo vadio, onde tudo era alegria, ficou cravado na saudade que não desaparece…