Analisando Alice

 

Sempre escutei:– Alice? No país das maravilhas?

E eu ficava muda, muito sem graça, e nada respondia.

Detestei a vida toda essa pergunta. Mas a ouvi milhares de vezes.

E nunca fui muito entusiasta dessa obra. Narrativa chata. Passa do ponto do non sense e por isso logo perdemos o interesse em continuar a leitura.

De um par de anos para cá, resolvi inverter.

– Alice? No país das maravilhas?

E eu respondo: – Eu mesma. A própria. E que maravilhas! Você nem imagina!

E agora o bobo que pergunta fica mudo, sem graça e com cara de idiota.

Analiso Alice – realmente, não tem nada a ver comigo.

Eu nunca fui curiosa (não sou até hoje), nunca entrei em uma toca seguindo um coelho. Posso ter entrado em várias tocas e até tocaias na vida, mas nunca por curiosidade. Por ingenuidade e por vontade, mas não curiosidade.

Talvez me identifique um pouco com o White Rabbit, “Ai, ai! Ai, ai! Vou chegar atrasado demais!”

Mas não tenho o hábito de me atrasar. Sempre fui pontual. Algum atraso foi totalmente involuntário e inevitável. Apenas seria o Coelho Branco no item andar com o relógio – mas, no meu caso, para ter a certeza de NÃO estar atrasada. Embora quase nunca use relógio, afinal, sou uma sem hora.

O Chapeleiro Maluco? Nunca. Ele é meu avesso. Sigo regras, acho correto que tenhamos regras – especialmente as convenções à mesa e para possibilitar que mais de um ser humano permaneça no mesmo ambiente em que estou. Detesto quem tem por regra exatamente quebrar as regras.

A Lagarta? Pode ser em parte. Aceito toda a metamorfose que a vida nos impõe. Acredito que tenhamos de mudar continuamente para sermos sempre nós mesmos. Mas não seria inteiramente esse personagem.

A Rainha de Copas? Bem, não vou negar, tenho alguns pontos em comum com ela – todos sabem que meu pavio é bem curto e que, se pudesse, mandaria decapitar um par de existentes, seria muito bom ter o poder de livrar o mundo de algumas pessoas indesejáveis. Mas também essa Rainha é uma forma fora do meu número.

E nada a ver com os outros personagens.

Vivo num mundo real. Muito real. Tristemente real. Bem mais realidade do que eu gostaria. Minha alma poeta sonha com outro mundo, que crio e recrio para poder enfrentar esse aqui onde nos encontramos.

Mas não vivo no país das maravilhas. Nem vou falar em termos de país, porque atualmente o meu é péssimo.

E, decididamente, não sou a Alice que Lewis Carrol imaginou.  

Insanidade

La jalousie est le plus grand de tous les maux, et celui qui fait le moins de pitié aux personnes qui les causent. La jalousie nait toujours avec l’amour; mais elle ne meurt pas toujours avec lui.  (François de la Rochefoucauld)

 

Porque um dia se encantou com um olhar, se apaixonou. E porque uma vez se apaixonou, sentiu amor.

Aquilo que imaginava fosse sentir amor gerava necessidade de cuidar, de mimar, de estar sempre junto. E assim passou a se dedicar inteiramente a esse sentimento. E acreditava que muito amava.

E porque cuidava passou a se sentir dono. Tinha o dever de zelar e o direito de vigiar, de limitar, de controlar.

E assim, por acreditar que isso era amor, passou a ter ciúme.

Sem perceber que o ciúme não é amor, que se adonar não é amar, que amar não é estar apaixonado. Confundiu tudo.

Era uma sede insana de dominar. Que começou a minar a paixão, destruir o amor.

Precisava se sentir no comando. Tinha de ser obedecido.

Seu sentimento endureceu no ódio. Que nasceu do ciúme.

Subitamente percebeu que não havia mais paixão. Que não havia mais nada. Que seu ciúme pusera tudo a perder.

Enlouquecido, resolveu matar o que pensava ser amor. E aquela que o personificava. Agora só lhe restava se matar também.

Escolhas

Devine, si tu peux, et choisis, si tu l’oses (Pierre Corneille)

 

Quando a estrada se parte

E se tem de escolher um outro caminho

O coração dentro do peito se aperta

Entre a poeira conhecida do que já foi

E a luz do novo que virá

Onde estarão as flores nessa nova caminhada?

Onde a estrada será feita apenas de  pedras agudas

A nos lanhar os pés já tão cansados

De tantas caminhadas que já tivemos?

Todo o vazio da nossa existência

Que drenou a vontade de continuar seguindo

Súbito se torna intransponível

E vem o medo de assumir a escolha

Viver é difícil! Escolher é difícil!

Setembro

E setembro voltou…

Trazendo chuvas que prenunciam o retorno de um novo verão, levando os ventos que se foram com agosto…

Setembro, primavera, sensação de renovação da vida.

Ainda que já não mais tenhamos as estações bem definidas, ainda que hoje exista o recurso da ciência de proporcionar frutas e flores temporãs, mesmo assim há o que celebrar.

Porque alguns aspectos da natureza jamais serão alterados, nem pela ciência nem pelo chamado aquecimento global, talvez nem por outra era do gelo: setembro, o tempo de acasalamento dos pássaros.

Todos começam a procurar os locais para fazer seu ninho em meados de agosto. Agora, a partir de setembro, veremos as danças, os pios, os cantos, os voos de namoro, a explosão de beleza, a exibição de cores e plumagens e tudo o que têm a seu dispor para atraírem as fêmeas, na eterna roda da preservação das espécies.

E logo todo amanhecer será uma sinfonia de cantos e pios. E a cidade se tornará mais alegre, e os homens – aqueles que ouvem pássaros e não têm coração duro – sorrirão ao alvorecer, quando a serenata começar em torno de suas casas.

Teremos tempestades? Sim, muitas. Como na vida, não há bonança antes do temporal, não há arco-iris antes da chuva, não há felicidade sem alguma tristeza… Mas é novamente setembro: começa a época de grandes chuvas e temporais. Vendavais, raios e trovões.E ar lavado, e arco-iris e renascimento do verde. Isso é natureza, e nada mais lindo que um dia de chuva.

Mesmo que tenhamos de abrir mão de alguns programas ao ar livre, nada melhor que aproveitar as tardes chuvosas para nos sentarmos nas varandas e contemplarmos o doce cair da chuva.

Se for possível andar na chuva, melhor ainda. Caminhar lentamente, deixando a água escorrer, chapinhar nas poças, ir contra a enxurrada e, como crianças que um dia fomos, sentir que estamos em plena comunhão com a natureza.

Tudo isso nos traz setembro.

Seja bem vindo de volta, setembro, e que venha até nós a primavera da vida, e que ótimos ventos você nos traga!

Começo de semana

Já estou cansada dessa história de ter uma segunda-feira toda semana. Não dá para mudar isso?

É um dia sempre do avesso. Levantar da cama de segunda-feira é saber que vai se deparar com problemas. E é sempre assim.

Às vezes me sinto uma ilha, cercada de incompetentes por todos os lados. Ou incompetência ou falta de educação, ou os dois, sei lá.

Sabe aquelas pessoas maravilhosas, gentis, que parece que a qualquer momento começarão a distribuir flores, que se vê na internet? Pois é, não existem no mundo real.

E as pessoas do mundo real se combinam para se juntarem e começarem a atazanar os outros de segunda-feira. Você topa com muitas. Desde as que vêm bater na sua porta, as outras que você encontra no trânsito, nas lojas, nos supermercados… onde vai tem pelo menos uma.

De segunda-feira nada dá certo. Tudo o que pode dar errado, dá errado. O que não pode dar errado, dá errado também e até o que não tem como não dar certo, dá errado. Porque é segunda-feira.

Se amanhece chovendo, não é garoa, é tromba d’água.

Se amanhece quente, parece que você está no meio do inferno.

Se amanhece seco, você nem consegue respirar que o ar fica concreto de tanto pó e secura.

E por que? Porque é segunda-feira.

Qualquer parte do corpo que está mais ou menos, na segunda-feira dói intensamente.

Todos os chatos se lembram de você e telefonam ou fazem visita.

As contas vencem e as filas nos bancos são invencíveis.

O dinheiro acaba e as dívidas continuam. Mas você só percebe isso de segunda-feira. Nos outros dias dá para levar de forma mais leve.

A gasolina acaba e tem fila no posto, o pneu fura e o borracheiro está cheio de serviço, o cano arrebenta e o encanador não tem nenhum horário para vir hoje, a lâmpada queima e não tem onde estacionar perto da loja para comprar outra. E por que? Porque é segunda-feira.

Sei não, mas de agora em diante, vou dar um jeito de começar minha semana na terça-feira.

Texto de Piátnitsa Melo

Algumas vezes penso que ele conversou comigo antes de escrever…

 

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 É-me impossível fugir da essência incandescente e frágil que me liga a ti. É algo que tento controlar, mas que me descontrola, sempre que penso em ti.

A cada dia, acresce uma nova esperança e a ilusão fantasiosa, que se forma, em meu ser, me envolve e me queima por dentro, como de um desejo incontrolável se tratasse, por doer tanto. Mas o amor é assim e penso que a todos acontece, sentir a ilusão de amar quem ainda não nos amou… sentir o terno abraço, de quem nunca nos abraçou… sentir preciosos momentos de pura ficção, como algo que estivesse a ser vivido, mas, que, infelizmente só é sentido em flashes de distração que se formam em meu subconsciente baseados na esperança de um dia tornar real todo este sonho que coabita dentro de mim, ao qual, se me tornou, inevitável escapar.

É um sentimento que começou com escassos segundos, que se duplicaram; se treplicaram; mas que agora se apoderaram e me mortificam, de dia e de noite, como que, pensar em ti, seja o único comprimido capaz de serenar minha alma e contagiar meus sonhos, ao ponto, de me perguntar, a sonhar, se de facto estou a sonhar, por serem reais de mais, para que sejam sonhos.

Ao mesmo tempo, esta ilusão irreal, de te amar, que se torna real quando perco o controlo da consciência, é um fenómeno tão envolvente e tão fascinante, que mesmo não existindo, nada em concreto, a não ser esta compreensão errada da mente, de um dia, tu e eu e eu e tu, nos pertencermos, me faz feliz.

Talvez reveja em ti, o que já vivi?

Talvez seja o passado a fundir-se com o presente e tu sejas a mesma em outra vida, mas que para mim és a mesma que já amei e continuo a amar, duas vezes, numa só vida? Tudo prova, que és tu que tanto amo, mas que tanto me assusta, te amar, por não ter como provar, o que os dois juntos já vivemos. Há coisas que nunca te poderei explicar! Palavras que nunca te poderei dizer!

Momentos, que só eu poderei reviver e que tu apenas, poderás desfrutar. Ápices, de um passado, vivido a dois, que se cruza com o presente, único para ti, mas não para mim, mas que se funde com o presente do amanhã, como só de um momento se tratasse, em tua vida. Conhecimento que não te posso revelar e o qual daria tudo para não saber, porque é um saber que me faz sofrer.

Apenas te quero dizer, que te amo, porque já te amei e também me amaste, mais que a tua própria vida, e que me continuas amar, contra a tua vontade, por não saberes, descodificar, o laço de afinidade que te prende a mim…

Mas, o amor, não é para descodificar nem compreender. Apenas se deve deixar acontecer, e é isso que eu espero que um dia aconteça, entre mim e ti, entre nós dois, comigo e contigo. Sim! Eu e tu, juntos para sempre, nos amando, sem querer saber, qual a razão, que nos une eternamente..