Portas abertas

Quero portas abertas

Quero janelas destrancadas

A alma escancarada

A vida sem medida

Na hora em que o amor vier

Entrará sem mesmo bater

E se a paixão transbordar

O sorriso a acolherá

Quero brisas outonais

Que espalhem as folhas secas

Com seus ruídos do passado

Quero sol de primavera

Que me traga um cheiro de flores

E as lembranças da infância

Com gosto de doces caseiros

Feitos em fogão de lenha

Quero calor de verão

Sobre a areia da praia

Um mar de poucas ondas

E paz de velas bem rizadas

Quero a intensidade do inverno

Com frio na medida certa

Um bom copo de vinho

E aconchego de um abraço

Quero ouvir música dos anjos

No vento que me acaricia

O murmúrio suave da água

Na gostas da chuva que cai

E sentir a pele se entregar

À suavidade do sol da manhã

Comungar os dons da natureza

Partilhando a beleza de viver

Quero o altivo voo das águias

Por sobre todas as cordilheiras

Quero a paz de um colibri

Quando encontra a flor buscada

Quero ouvir os sons da música

Que a andorinhas compõem nos fios

Quero escrever toda a poesia

Que só o amor pode construir

E, depois de viver tudo isso

Se alguém me perguntar

Como pude viver tão intensamente,

Direi pergunte à paixão, ela que me fez assim

Porque ela me fez tanto amar

E me fez assim tão feliz,

Só ela poderá responder

E ela dirá então: encontrei a porta aberta…

De comidas e de filmes

Qualquer um pode contar o número de sementes em uma maçã. Mas só Deus pode contar o número de maçãs em uma semente. (Robert H.Schuller)

 

Assisti Julie e Julia, filme baseado em duas histórias reais. 

A primeira, Julie Powell, americana, vida desmotivada, decide fazer, em um ano, todas as receitas culinárias do livro de Julia Child – mais de 500, em 365 dias. Não é cozinheira, só quer algo motivacional. Para tanto inicia um blog narrando suas peripécias na empreitada. Faz sucesso. Torna-se escritora.

A segunda, Julia Child, também americana, segue para Paris acompanhando o marido, adido cultural na embaixada. Desmotivada, despatriada, tenta vários cursos até chegar no Cordon Bleu, onde passa apuros mas acaba o curso e ainda escreve um livro de culinária que se torna uma bíblia para as “americanas sem empregada” como ela mesma afirma. 

                                             

Meryl Streep faz a Julia Child. Não com a maestria habitual.

Talvez tenha se baseado na pessoa de Julia Child e essa fosse a pessoa de fala afetada e voz fora de tom, não sei. Mas duvido que Meryl Streep errasse tanto ao compor um personagem. Chega a ser irritante. Nada que se compare com Donna, de Mamma Mia, onde sua atuação é um show à parte, suplanta a própria paisagem do filme. 

Também em Simplesmente Complicado Meryl Streep se supera, em uma comédia adulta, leve e interessante. 

Lembro-me de sua atuação em As Pontes de Madison, contracenando com Clint Eastwood, a paixão madura de uma mulher que não passa de uma parede ou uma peça da casa para a família, e, na ausência desta, conhece o ardor de uma paixão proibida e maravilhosa cuja lembrança a sustentará até a morte. É o adultério mais bonito da estória do cinema.

Por outro lado, muitos são os filmes que giram em torno da culinária (Como água para chocolate;  A festa de Babette; Simplesmente complicado; Tempero da vida; A grande noite e muitos outros, sem que seja esquecida a fabulosa omelete de 24 ovos que Marcello Mastroianni prepara para a amada em Os girassóis da Rússia…) 

Mas, voltando ao Julie e Julia, tiro duas conclusões: 

1.- os blogues ainda vão substituir todo o contato humano. Não é preciso mais se conhecer para ter amizade, relacionamento comercial nem nada. Basta entrar num blog e começar a comentá-lo com o autor, e logo se inicial uma amizade, uma intimidade, que talvez em relacionamento pessoal nem acontecesse ou demoraria muito para se chegar lá. 

2.- todos – no caso as mulheres – podem se redescobrir através da culinária. 

Sou suspeita para falar nesse assunto, em razão da minha paixão pela cozinha. 

Mas tenho que confidenciar: cozinhar acalma, relaxa, traz realização. É um desafio compensador, o resultado é eletrizante. 

Já disse que considero a culinária minha alquimia: transformo coisas duras, insossas, feias, mal cheirosas, de aspecto ruim em comidas saudáveis, macias, cheirosas, apetitosas… 

E nada há mais gratificante que presenciar o prazer de quem degusta essas refeições, ver a satisfação – visão-olfato-e-paladar satisfeitos e agradados. 

                

Sejam os sofisticados frutos do mar ou risotos ou uma simples omelete – de origens imemorial. Segundo a Wikipedia, “acredita-se que a omelete surgiu na antiga Pérsia. Ovos batidos eram misturados com ervas picadas, fritos até ficarem firmes, e depois cortados em pedaços, para formar um prato conhecido como ‘kookoo’. Acredita-se que tal receita alcançou a Europa através do Médio Oriente e da África do Norte, onde sofreu adaptações e originou a frittata italiana, a tortilla espanhola e a omelette francesa.

                                                   

Na França, sua criação é atribuída a Annette Poulard, em 1888, no Monte Saint Michel, na Normandia. Ela elaborou uma refeição nutritiva e fácil de preparar para os famintos peregrinos que chegavam ao Santuário de São Miguel. Hoje, na entrada do local, existe o restaurante Mére Poulard.”

Somos da religião que nasceu em torno de uma mesa, na divisão do pão e do vinho. Nossas famílias se reúnem à mesa, para refeições e convivência. Temos a tradição de encontros ao redor de uma mesa.

 

Resumindo, por melhores que sejam os blogues e seus autores e leitores, nada substitui o encontro para degustar uma boa refeição. Principalmente se feita pelos próprios comensais.

(11/07/10 )

 

 

O pescador de Sorrento

Na terça-feira última, 28.05.2019, foi o lançamento do meu livro de contos – O pescador de Sorrento.

Esse é meu terceiro livro solo, sendo certo que participei, ainda, de cinco antologias.

É sempre uma emoção ver um livro “nascer” e seguir seu curso. Haverá outros? não sei… espero que sim!  agradará os leitores? não sei, espero que sim…

O conto que deu nome ao livro se desenrola no ambiente do mar, e, para o lançamento, foi-me preparada, pela Nina Kuznetzow, uma mesa que trazia o fundo do mar. Linda.

Esse cuidado ao preparar a mesa que me destinou, essa demonstração de carinho, valem mais do qualquer palavra.

Deixo, aqui, imagens da beleza do arranjo da Nina:

 

 

Dia de poesia – Clovys Torres

Hoje trago um poema de meu amigo Clovys Torres…

 

Se eu fosse poeta, te faria poesias…

se eu fosse escritor, te escreveria romances…

se eu fosse jardineiro, te cultivaria jardins…

se eu fosse doido, te faria loucuras..se eu fosse músico, te dedicaria canções….

se eu fosse bailarino, dançaria com você.

Só que não sou nada e me entrego inteiro!

Eu roubei o relógio do tempo.

 

Vem, vamos brincar com a eternidade

e então seremos românticos,

cantaremos em nossos jardins

e dançaremos como loucos pelas bordas do mundo!

 

Venha, vamos colorir o mar, engolir a lua e

coreografar o vento!

 

Venha,

vamos ser loucos,

fazer loucuras

sem saudade

da lucidez…

 

Se eu fosse sensato,

não te convidaria, 

eu sei que você virá!

e em seus olhos trará

o oceano inteiro

e eu te beberei

como um rei!

 

Sem medo de me afogar!

(de “Curva de vento”)

 

Para meu pai

Quando eu era só a criança que ainda habita em mim, pequena e assustada, ele era meu herói-todo-poderoso.

Matava as baratas que me aterrorizavam, explicava os barulhos noturnos e afastava os fantasmas. Dirigia o carro para fora dos temporais e o tirava de todos os atoleiros… Montava o cavalo com a maior facilidade, e cavalgava lindamente. Tinha uma pontaria incrível, acertava os discos lançados, e nunca voltou de mãos vazias das caçadas.

Ele remava no rio. Ele me levava mar adentro e ensinava a não ter medo.

Nunca contei para ele, mas eu morria de medo da pinguela na fazenda, principalmente quando anoitecia e eu passava sozinha – às vezes carregando algum objeto – sem enxergar nada e temendo cair no rio. Mas nada dizia, porque ele admirava e elogiava a coragem. E poderia não querer mais me levar junto. Quando a água estava alta, aí ele me dava a mão para atravessar e o medo desaparecia.

Então eu cresci. E seus ensinamentos mudaram. Era sobre a seriedade no trato com as pessoas, a honestidade nos negócios, e a justiça em todas os atos.

Era sobre respeito e religião.

Era sobre ter responsabilidade sobre os próprios atos, assumir os erros.

E a vida fluiu, seguiu seu curso.

E seus lindos olhos verdes se iluminavam cada vez que eu regressava à casa, e seu sorriso me acolhia.

Nunca cobrou nada de mim. Entendia minha vida corrida e a necessidade da minha ausência. Mostrava que se orgulhava de minhas conquistas, sempre companheiro e atencioso.

Sem nunca dar um palpite na minha vida, foi sempre companheiro e conselheiro.

Agora ele se foi. Nesta semana, há quatro dias atrás, eu o vi sendo levado, cercado de filhos e netos, deixando um vazio e uma dor que nunca terão fim.

Não consigo imaginar como será a realidade do dia-a-dia sem ele, sem seu apoio, seu sorriso, suas observações.

E, frágil e me sentindo abandonada, tenho medo dos rios que ainda atravessarei. Então, voltando a ser apenas aquela criança indefesa, eu peço – “pai, por favor, pega na minha mão em todas as pinguelas que eu tiver de atravessar, está escurecendo na minha vida”.

Dia do abraço

 

Recebi, hoje, várias mensagens referentes ao “dia do abraço”.

Eu nem sabia que existia um dia do abraço. Sempre pensei que abraços fossem dados diariamente, gratuitamente, por prazer e com alegria.

Mas, descobri que há um “dia do abraço”…

Há pessoas que eu queria tanto abraçar e delas receber um abraço.

Mas aquele tipo de abraço que envolve, acarinha, aconchega, dá paz e vontade de nunca mais sair dali, de tão gostoso que é.

Pessoas que abraço sempre e gosto de abraçar.

Pessoas que nunca mais abracei, mas tenho muita saudade de abraçar e ser abraçada.

Aquele momento único dentro de um abraço, quando os corações se encontram e batem dentro do mesmo compasso, dizendo um ao outro: “ estou aqui, estou com você; pode contar comigo”.

Sempre achei que o abraço foi uma das maiores descobertas – ou invenções? – da humanidade. Nada é tão confortável quanto um abraço de verdade, dado com emoção.

Só uma coisa me preocupa: pode-se abraçar nos outros dias do ano, ou só hoje?