Amigos de uma vida

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Quem os olhará com orgulho,

Quem os manuseará com carinho?

Esses livros – companheiros de vida

Que se foram somando e se deixando ficar

Estão comigo há décadas e décadas

Por os ter, assim comigo, nunca senti solidão.

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

A quem interessará manter todos eles

Assim juntos, numa ordem que só eu conheço

Lidos e relidos a cada tempo certo

Trazendo tantas respostas

Fazendo companhia e dando conselhos

Não me deixando esquecer tantas tristezas

E proporcionando incontáveis alegrias

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Não mais os poderei ter comigo

E nem sei a quem os deixar para adoção

Como filhos que não queremos ver separados

Eles estão juntos há tanto tempo

Já se amoldaram uns aos outros para

Dividirem o mesmo espaço. Tantas mudanças,

Tantas casas, tantas cidades, e eles comigo.

Sem ordem de preferência, todos amados.

Como garimpeira urbana eu os encontro

Em sebos, livrarias, velhas bibliotecas abandonadas.

Alguns com a dedicatória do autor

Outros até mesmo com a capa estragada

Muitos vieram direto das lojas, novíssimos

Cada um traz sua história e sua verdade.

Um dia – cada vez mais próximo – terei de deixá-los

E partir na viagem sem nenhuma bagagem

Entristecida com a sorte de todos eles, eu pergunto:

Quando eu morrer o que será feito de meus livros?

Dia de poesia – O mais-que-perfeito

  O MAIS-QUE-PERFEITO

           (Vinicius de Moraes)

 

 

Ah, quem me dera ir-me

       Contigo agora

Para um horizonte firme

       (Comum, embora…)

Ah, quem me dera ir-me!

 

Ah, quem me dera amar-te

        Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

        Que não presumes…

Ah, quem me dera amar-te

 

Ah, que me dera ver-te

        Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

        Jamais: cuidado…

Ah, quem me dera ver-te

 

Ah, quem me dera ter-te

        Como um lugar

Plantado num chão verde

        Para eu morar-te

Morar-te até morrer-te

Homenagem ao Dia do Imigrante Italiano

 

                                                 

                                                       O som do adeus

Há muitos anos não chovia tanto no outono. E o único jeito de chegar ao porto de Genova, era caminhando. Na chuva ou no sol. Era preciso caminhar. Quando a chuva apertava, a lama dificultava até tirar os pés do chão, eles se abrigavam em qualquer tapera ou loca, especialmente para que as trouxas não se encharcassem. E era tudo o que tinham. Porque venderam os outros bens – galinhas, xícaras, bules e enxadas. Tudo. O pouco que ficou era posto em trouxas de grosso tecido. E então seguiam até o porto. A pé. Genova era longe. Dias de distância. Noites dormidas nas beiras de caminhos, onde faziam uma roda em torno de si mesmos, crianças, moças e idosos no meio.

Antonella seguia firme, o coração apertado. Os pais ficaram na casinha de pedra esperando a morte. Os irmãos partiram antes, primeiro Giovanni, o mais velho. Que logo chamou os outros três mais novos, até Carlo, que sempre foi seu companheiro de vida. E com eles seguiu Luigi. Seu prometido. Ou seria ela a prometida?

E assim, andando dia após dia, o grupo chegou a seu destino.

Imponente, o vapor Matteo Bruzzo dominava a paisagem no porto de Genova.

Para Antonella  – e também para quase todos do grupo, era a primeira visão do mar. Ela começou a chorar. E se prometeu que todas as vezes em que visse o mar, enxergaria seu lindo Rio Pó, que deixara para trás, para sempre.

Do bolso do casaco tirou, amassadas, as cartas do irmão Carlo e do amado Luigi. E, o bem mais precioso que possuía, a foto dos dois juntos, rindo, com a dedicatória que a esperavam na América, no Brasil, em São Paulo.

Entraram no navio. Era simplesmente horrível a parte destinada aos mais de mil imigrantes pobres, lugar insalubre, mau cheiroso, onde ficaria nos próximos dias e noites. Antonella sentiu que começaria a chorar de novo, tinha apenas quinze anos, era a filha caçula do grupo de cinco irmãos e nunca mais veria os pais. Estava sozinha com um grupo de estranhos – vizinhos e conhecidos que também imigravam para tentar nova vida, longe da miséria e da guerra. Era muito triste fazer essa escolha. Mas seus pais não cabiam no seu futuro. Não tinham saúde para atravessar o Atlântico. Agora ela via que realmente não havia condição para sua mãe ficar naquele lugar, estava muito doente, não tinha muito tempo de vida. Ao menos morreria em casa, ao lado do marido e no seio da família, com as irmãs e primas cuidando dela. Sem os filhos. Mas sempre fora ela, a mãe, quem mais incentivara que partissem para buscar nova vida no Brasil.

Foi até o convés, e, aos poucos, a costa da amada Itália se desfazia no horizonte, quando, pela primeira, ouviu o verdadeiro som do adeus: o apito do navio que partia.

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Premio Eccellenza Letteraria, Milano, 2018

Publicado na Coletânea Incontro Letterario a Milano – Oficina do Livro, São Paulo, 2018

O futuro de todos nós

L’avenir c’est ce qui dépasse la main tendue. (Louis Aragon)

 

O que significa de verdade Depois, Amanhã, Futuro? 

Vivemos em função do futuro, do depois, do amanhã, do que há de vir e do que há de ser. Que desconhecemos. Às vezes nem acontece, pois acabamos antes que o futuro chegue. 

Mas se não tivermos essa idéia de futuro, não dá para viver, ficaria tudo sem sentido, seria terrível viver se só existissem o hoje e o ontem. 

Então vivemos em função de algo que desconhecemos, não atingimos, não enxergamos, o abstrato mais absoluto. Se pudéssemos, nem que fosse por um só momento, uma única vez em toda a existência, afastar a cortina tênue mas indevassável que esconde o que está à frente e espiar um mínimo que fosse do nosso futuro… 

Veríamos talvez dias ensolarados e floridos, amores bem resolvidos, paixões bem vividas, bonança e alegria. 

Também poderíamos ver choro e ranger de dentes… 

Agora que caminho entre o outono e o inverno de minha existência, vejo o quanto tenho para olhar para trás, e que nunca me foi dado ver uma hora, um segundo sequer do que há de vir. Tenho milhares de lembranças – principalmente boas, porque minha memória seletiva não me deixa fixar muitas recordações amargas, somente aquelas necessárias para não repetir erros passados – e com elas recheio o edredon que há de me agasalhar quando chegarem as horas derradeiras. 

Como não posso nem poderei conhecer o que virá depois, levo comigo a luz de muitas lembranças e algumas saudades para iluminar o caminho, que não sei onde vai dar, não sei onde vou chegar. Mas continuo firme, caminhando adiante, indo ao encontro desse amanhã que nunca chega. 

E tecendo abstratamente conceitos sobre o desconhecido, vou imaginando o que é amanhã, o que é futuro. 

Quando o novo dia nasce deixa de ser amanhã para se tornar hoje. 

Quando pensamos que chegamos no futuro, vemos que ele na verdade é o presente, e muitas vezes já é passado… é tentar segurar fumaça, reter água, guardar neve… 

A grande certeza da vida é a morte e o grande enigma é o futuro. Que nunca chegará.

(08/03/10 )

Silêncio pelo menino morto

Esse texto foi escrito em 03 de setembro de 2015. O mundo já esqueceu… 

 

O menino deitado na areia

Adormeceu

Espera por seu pai

De quem se perdeu.

O menino deitado na areia

Fugiu de sua pátria

Fugiu da guerra e do horror

Fugiu da fome e da violência.

No vento frio da noite

Segurava na mão de seu pai

O menino deitado na areia

Tinha pai, tinha mãe e irmão.

No vento da noite o balanço do mar

No frio da noite as ondas imensas

No escuro da noite seu corpo no mar.

Não viu onde foi seu irmão

Não ouviu mais a voz de sua mãe

Não achou mais a mão de seu pai.

E as ondas do mar levaram o menino

E o deixaram na beira da praia.

Adormecido ali ficou o menino.

O pequenino na areia da praia.

Rostinho virado de lado não viu

A cem metros estava seu irmão

Deitado na areia da praia

Dormindo na beira do mar.

Não mais se deram as mãos

Não mais se viram os rostos.

O menino deitado na areia

Deixou um planeta chocado

Sacudiu o conforto de todos

Arrancou lágrimas de dor

Porque não brincava o menino

Não aproveitava a alegria da praia

O menino deitado na areia

Fugindo do horror e da guerra

Não dormia o menino na areia:

Estava morto o menino

Deitado na areia da praia

Morrera nas ondas do mar.

A água e o rio

Era como se fosse a primeira vez que via o rio. Mas, na verdade, todos os dias olhava para ele, andava em suas margens, atravessava suas pontes. Há muito tempo morava ali.

Olhou com encantamento toda aquela água que descia cantando, enchia o ar com seus sons, trazia de tudo – madeira, flores, lixo, e tudo o que encontrasse pelas margens.

Parou no meio da ponte. Havia algo diferente hoje. Não era o mesmo rio de sempre.

Não conseguia identificar o que estava mudado. Seus olhos eram os mesmos. Seus ouvidos também. O que havia de diferente no rio, que parecia ser a primeira vez que o via?

Recostou-se na amurada, e olhou a água que vinha. Tão límpida, tão decidida, sabia seu destino e se atirava com coragem e alegria. Descia em busca da foz. Nada a detinha. Passava por baixo das pontes, por cima das pedras, contornava todos os obstáculos, mas sabia que chegaria a seu destino sem nada temer.

Depois atravessou a pequena ponte e olhou a água que ia.

Mansamente, sem atropelo nem angústia, ela seguia seu curso tranquilamente, levando em seu dorso as luzes do dia e as dores dos homens que do rio viviam e dele dependiam.

O rio sempre seguia. Dia e noite sem cessar, o rio fluía com a doçura de aceitar seu destino de seguir sempre até encontrar o mar.

Desceu até a beira do rio, e molhou as mãos. Sentou-se e ali ficou, pensando na vida, no dia que começara com tantos problemas. A briga em casa logo cedo. Decidiu ir embora para sempre. Chegou no emprego e encontrou tudo fechado, lacrado, os funcionários inquietos, nenhum responsável no local. Falaram em fraude fiscal. Não sabia o que aconteceria. Resolveu sair dali e ir caminhar.

À medida em que se afastava de casa e do emprego, sentia uma sensação desconhecida, como se outra pessoa estivesse surgindo em seu âmago. Quando chegou na velha ponte que atravessava todos os dias, viu outro rio. Tudo era novidade. Começou então a entender que na verdade era uma nova pessoa. Rompera os grilhões de um relacionamento falido, estava fora de um emprego sufocante. Agora finalmente respirava o que os outros chamavam de liberdade.

Voltou perto da água e tornou a molhar as mãos para lavar o rosto. E entendeu que era uma nova água. A água que vira da ponte, a água em que molhara as mãos, eram outras águas. Essa em que agora tocava era uma nova água, que se renovava a cada instante. Porque não se deixava, jamais, aprisionar, e, uma vez passada, não voltava para passar novamente pelos mesmos obstáculos, pelas mesmas dificuldades. Apenas ia. Não parava nem voltava.

Olhou seu reflexo na água que seguia e compreendeu o destino de quem é livre.