Dicionário emocional

ADEUS: quando o coração que parte deixa metade com quem fica

AMIGO: alguém que fica para ajudar quando todos já se foram

CIÚME: quando o coração fica apertado porque nao confia em si mesmo

CARINHO: quando encontramos nenhuma palavra para expressar que sentimoes e deixamos que as mãos falem por nós      

LEALDADE: quando se prefere morrer a trair o outro

LÁGRIMA:  quando o coração pede aos olhos que falem por ele

MÁGOA: espinho que colocamos no coração e depois esquecemos de retirar

PESSIMISMO: quando perdemos a capacidade de ver em cores

SOLIDÃO – quando estamos cercados de pessoas mas o coração nao vê ninguém por perto

(desconheço a autoria)

Dia de Poesia – Encontro das águas

Encontro das Águas

(Quintino Cunha – poeta cearense e amazonense de coração)

Vê bem, Maria aqui se cruzam: este
É o Rio Negro, aquele é o Solimões.
Vê bem como este contra aquele investe,
como as saudades com as recordações.

Vê como se separam duas águas,
Que se querem reunir, mas visualmente;
É um coração que quer reunir as mágoas
De um passado, às venturas de um presente.

É um simulacro só, que as águas donas
D’esta região não seguem o curso adverso,
Todas convergem para o Amazonas,
O real rei dos rios do Universo;

Para o velho Amazonas, Soberano
Que, no solo brasílio, tem o Paço;
Para o Amazonas, que nasceu humano,
Porque afinal é filho de um abraço!

Olha esta água, que é negra como tinta.
Posta nas mãos, é alva que faz gosto;
Dá por visto o nanquim com que se pinta,
Nos olhos, a paisagem de um desgosto.

Aquela outra parece amarelaça,
Muito, no entanto é também limpa, engana:
É direito a virtude quando passa
Pela flexível porta da choupana.

Que profundeza extraordinária, imensa,
Que profundeza, mais que desconforme!
Este navio é uma estrela, suspensa
Neste céu d’água, brutalmente enorme.

Se estes dois rios fôssemos, Maria,
Todas as vezes que nos encontramos,
Que Amazonas de amor não sairia
De mim, de ti, de nós que nos amamos!…

 

Pedro, meu amigo

Tenho milhares de conhecidos. Tenho muitos colegas. Tenho alguns amigos.

Dentre esses poucos amigos, tenho o Pedro. Mais que conhecido, mais que colega e muito mais que um amigo. É como um irmão. Podemos conversar horas a fio e o assunto não acaba. 

Antigamente fumávamos juntos, hoje ele fuma sozinho, mas eu fico junto.

Bebemos juntos. Brigamos juntos.

Rimos juntos, cantamos juntos, choramos juntos.

E, sempre que podemos, estamos juntos.

Essa amizade é um esteio para minha vida. 

Publico, hoje, poema do Pedro, meu mais que amigo:

Chagas

(Pedro Hideite de Oliveira)

Silêncio e solidão,

Que habitam o meu ser.

Ferindo o coração,

Cansado de tanto sofrer.

Sofrimento e dor,

Faz sangrar os ferimentos.

Trazidos de um amor,

Vividos só de momentos.

Momentos que não se esquece,

Por mais não se queira lembrar.

Vem a noite e amanhece,

Tudo vai recomeçar.

Recomeça com a saudade,

E com ela a solidão.

Mas no dia em que forem embora,

Restará, cicatriz no coração.

Mila

Há muito, muito tempo, ele escrevia na Folha. E publicou essa crônica, que levou seus leitoras às lágrimas. E minha querida tia Teca – tia, segunda mãe, amiga, companheira, com sua extrema sensibilidade, teve o cuidado de guardar. Trouxe-me para que relembrasse. Aproveitei para digitalizar e imortalizar. E a transcrevo aqui, para que outros tenham a ventura de conhecer um pouco do grande Cony:

 

                                          Mila

                                Carlos Heitor Cony

RIO DE JANEIRO – Era pouco maior do que minha mão; por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

            Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

             Amá-la – foi a resposta e também acredito que ela ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigia minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

             Tendo-a a meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

             No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem amor do que o meu peito, levei-a até o fim.

             Eu me considerava um profissional devente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

             Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

 

 

 

 

Dia de poesia – O Grito

O Grito

(Renata Pallotini)

 

Se ao menos esta dor servisse

se ela batesse nas paredes

abrisse portas

falasse

se ela cantasse e despenteasse os cabelos

 

se ao menos esta dor se visse

se ela saltasse fora da garganta como um grito

caísse da janela fizesse barulho

morresse

 

se a dor fosse um pedaço de pão duro

que a gente pudesse engolir com força

depois cuspir a saliva fora

suja a rua  os carros  o espaço  o outro

esse outro escuro que passa indiferente

e que não sofre tem o direito de não sofrer

 

se a dor fosse só a carne do dedo

que se esfrega na parede de pedra

para doer  doer  doer visível

doer penalizante

doer com lágrimas

 

se ao menos essa dor sangrasse 

(de Chão de Palavras)

 

 

Dia de Poesia – soneto quarta-feira

Hoje é dia de Poesia, e Poesia, em primeiro lugar, para mim, é Vinícius de Moraes. A poesia-paixão, a paixão-loucura… 

 

SONETO DE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Por seres quem me foste, grave e pura 
Em tão doce surpresa conquistada 
Por seres uma branca criatura 
De uma brancura de manhã raiada 

Por seres de uma rara formosura 
Malgrado a vida dura e atormentada 
Por seres mais que a simples aventura 
E menos que a constante namorada 

Porque te vi nascer de mim sozinha 
Como a noturna flor desabrochada 
A uma fala de amor, talvez perjura 

Por não te possuir, tendo-te minha 
Por só quereres tudo, e eu dar-te nada 
Hei de lembrar-te sempre com ternura.

(Rio de Janeiro , 1941)