Dia de Poesia – Álvaro de Campos – O que há em mim é sobretudo cansaço

O que há em mim é sobretudo cansaço —

Não disto nem daquilo,

Nem sequer de tudo ou de nada:

Cansaço assim mesmo, ele mesmo,

Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,

As paixões violentas por coisa nenhuma,

Os amores intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas todas —

Essas e o que falta nelas eternamente —;

Tudo isso faz um cansaço,

Este cansaço,

Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,

Há sem dúvida quem deseje o impossível,

Há sem dúvida quem não queira nada —

Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,

Ou até se não puder ser…

E o resultado?

Para eles a vida vivida ou sonhada,

Para eles o sonho sonhado ou vivido,

Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…

Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,

Um supremíssimo cansaço,

Íssimo, íssimo, íssimo,

Cansaço…

Dia de Poesia – Florbela Espanca – Os meus versos

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Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada dum momento.
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasga os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…

De lobos e hienas por Flávio Dutra

Para distrair um pouco, porque a semana foi pesada e não quer acabar, texto de Flávio Dutra:

Cansa este negócio de escrever sobre coisas ditas sérias. Por isso, decidi voltar às futilidades, para fazer um importante alerta: cuidado, muito cuidado, atrás de um lobo sempre vem uma hiena.

 

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A advertência nem é minha, mas do meu bom amigo LFA depois de ler a crônica Lobos em Ação, que cometi no ano passado e Coletiva se atreveu a publicar.  Tenho boas razões para suspeitar que o próprio LFA seja um lobo disfarçado, daqueles que atacam em eventos musicais. Convém lembrar que os lobos são aquelas criaturas que, na busca de suas conquistas amorosas, atuam em locais e horários diferenciados, cercando suas presas com sutileza e determinação. Distinguem-se dos comuns mortais pelo gosto ao inusitado, pelo enfrentamento das adversidades, pela ousadia na ação e pela técnica refinada na abordagem. O maior risco que as mulheres correm com essa espécie é de terem suas expectativas atendidas, porque o verdadeiro lobo valoriza suas conquistas e quer fazê-las felizes. 

Já as hienas são lobos fracassados. Elas bem que gostariam de ascender à condição maior, mas lhes falta finesse e, porque são hienas, ficam com as sobras. Alguns, de tanto viverem à sombra e no rastro dos lobos, acabam aprendendo e ocasionalmente podem se transformar em lobos juniores, mas jamais chegam a seniors e muito menos a masters. 

A diferença entre as duas espécies não está na condição social ou em qualquer outro tipo de segmentação, mas na atitude. O lobo prima pela finura, a hiena é sinistra; o lobo é pacencioso, a hiena é afoita; o lobo é seletivo, a hiena está aí para o que der e vier. Mas não é justo afirmar que a hiena só tem defeitos. É ainda o LFA quem observa que, embora cheguem depois, nem por isso as hienas têm uma tática menos ofensiva e letal. Podem parecer desengonçadas, mas são resistentes, capazes de perseguir suas presas por muito tempo sem esmorecer. 

É o caso da Hiena Eleitoral, que só participa de caminhadas de partidos nanicos, mas suporta carregar bandeiras com mastros enormes sem jamais perder o alvo de vista. SCA, analista de sistemas, se encaixa neste perfil. A preferência pelos partidos menores e mais radicais se explica: ele entende que grupos reduzidos já estabelecem uma seleção natural para escolher a presa que vai ser atacada e acredita, ainda, que o radicalismo das moças pode se transformar em intensidade na hora do vamos ver.

VJB, que se apresenta como bacharel em Direito, mas na verdade atua como despachante, é outra hiena típica. Ele até frequenta as baladas mais descoladas, mas é traído pelo medalhão no peito, pelo vistoso anel de formatura, pelas cantadas sem rodeios e o resultado final é zero. Por isso, a esticada é nos festerês mais populares, onde é conhecido como a Hiena dos Bailões. Entre músicas do Sidnei Magal, Wando, pagodeiros românticos e vanerões modernosos, ele se sente em casa. Aí ataca com fúria. È dois pra lá, dois pra cá e ele já começa a percorrer a anatomia da vítima. Quando sente reciprocidade, vai direto ao ponto:

– Tá na hora da gente partir.

A Hiena dos Bailões garante que a cada duas dessas abordagens uma pelo menos funciona, o que determina que ele trabalhe em dobro para não terminar a noite invicto. 

A hiena tem uma linguagem toda própria para se relacionar com suas vítimas, que podem ser honradas com expressões tipo “minha Deusa”, “Gatosa”, “minha Ídala” e outras meiguices do gênero. PNS, corretor imobiliário, prefere usar “minha Diva”, certo de que esse tratamento confere algum requinte a suas investidas. Ele é conhecido como “Hiena Bus Stop” porque seu habitat são as paradas de ônibus na região central, onde atua no final da tarde, à espera das moças que terminam seus turnos nas repartições públicas, bancos e comércio em geral. O elenco é numeroso e ele tem o cuidado de rejeitar as universitárias que se dirigem aos cursos noturnos porque sabe que vai ter poucas chances se a moça tiver que escolher entre o aprendizado e uma hienada. A hiena é hiena, mas pra boba não serve.

A existência de lobos e hienas, cada um com seu estilo e forma de atuação, mostra como a natureza é sábia. Há espaço para todas as espécies, a convivência pode ser harmoniosa e uma complementa o trabalho da outra, de forma a contentar vítimas de todos os perfis.

 

Dia de poesia – Roberto Ferrari – Viver teu amor

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Tu que circulas pelas minhas veias

Fazendo meu coração bater mais rápido

Tu que estás na minha pele

E que ferve de sedução ao me tocar.

 

Vivo

Por teu amor…

Pelo teu beijo intenso

Por tuas mãos me tocando

Pela força do teu abraço

Pela ânsia de te encontrar

Pelos teus caminhos que me conduzem a tua paixão

Pela leveza calma do teu silêncio

Pela ternura pura que brilha em teu olhar

 

Vivo…

Para correr como louco em teus pensamentos

Para me mesclar nas linhas do teu destino

E caminhar tranquilo, descobrindo ao teu lado

O significado do amor

 

Alegria louca

Realidade que compreende o sonho

De amar alguém que só vive por me amar…

Quando tu apareceste eu estranhei

Veio do nada, como quem nada quer.

 

E com seu jeito manso foi me conquistando…

Entre suas linhas, sentia as carícias

No meio dos teus sonhos fui me aprofundando.

 

As expressões eram mais fortes, mais ardentes, mas comoventes…

Te encontrei num olhar…

Um simples olhar sem palavras

Olhar calo, sereno, profundo que parou meu mundo…

Te amei sem palavras, sem olhares…

O coração disse adeus, um breve adeus.

 

Quem sabe um dia nós possamos dizer as palavras não ditas

Quem sabe um dia nós possamos sentir

O que nossos olhos nos disseram

Quem sabe um dia possamos ser um

Nesse jeito manso de ser

Nesta estranha forma de sentir

Somente nós dois

Mergulhados no mundo do nada mais…

Texto de Piátitsa Melo – Se eu escrevesse

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Se eu escrevesse tudo que me vai na alma, tu irias ler e reler, mas também irias pensar que eu estava louco e eu no meu silêncio diria: será que sou eu que estou louco ou és tu que estás a enlouquecer por eu ter aflorado, em ti, desejos adormecidos e delírios de prazer.

Se eu escrevesse tudo que me apetece escrever, começavas a transpirar e não ias aguentar tanto deleito, só com o prazer de ler.

Se eu escrevesse o que me apetece escrever, todos os dias ias ler, sem ninguém se aperceber o que é que te excita tanto e porque é que gostas tanto de ler.

Se eu escrevesse todos os devaneios, que contigo anseio ter, teu ser se transcendia em desejos desmedidos e tua força cedia ao domínio dos sentidos.

Se eu escrevesse tudo que a minha alma quer que eu escreva, sobre o que contigo desejo partilhar, não chegavam mil páginas, para descrever a minha forma de amar.

Se eu escrevesse tudo que imagino contigo, era o maior drama de amor, algum dia escrito, mas era triste e ias chorar, porque não sobrava tempo para te amar…

Melhor mesmo, é não escrever, e se um dia quiseres saber o que eu tenho para te dizer, eu o prometo fazer, cada vez que te esteja a amar… 

Desejo-te uma boa noite e sonhos de amor intenso comigo, para te ires habituando, à minha forma de amar…