Personal killer – escrito em 20.06.2012

 – Faz mais uma vez…

– Só mais três…

– Só mais dois…

– Aguenta mais um pouquinho, só trinta segundinhos (como se existissem segundões, segundos e segundinhos)…

E assim Fabrício – o personal killer – vai me alongando…

Acho que depois de cada sessão de ginástica fico um pouquinho mais alta…

É um tal de puxa daqui, segura dali, respira fundo, solta o ar devagar, contrai musculatura de um lado, sente puxar musculatura do outro…

E vamos mais uma vez, começa tudo de novo.

– Agora equilíbrio…

Pensam que é fácil se exercitar sobre uma perna, trabalhar a outra perna no ar, quase flutuar, pensar que conseguirá voar um dia???

– Sentiu a perna? então inverte, agora com a outra…

E agachamento… sentar sem cadeira…

– Vamos lá, vamos fazer vinte repetições hoje. Segura mais tempo na última, respira fundo.

– Ótimo! (que delícia ouvir esse Ótimo! – significa que aquela parte do matadouro foi superada).

– Trabalhando o adutor, força no adutor.

Êita músculo difícil de ser alongado…

– Só mais um segundinho, vamos lá…

– Sentiu puxar?

E assim eu sigo, semana após semana, alternando a ginástica com as diárias caminhadas, que é a parte aeróbica e que eu mais gosto.

Mas além de brasileira sou corinthiana, por isso não desisto nunca.

E, depois de um bom banho relaxante, a sensação é que, além de crescer um pouco, alguns gramas me abandonaram, fico mais leve.

Só não consigo entender pessoas que dizem detestar ginástica. Não sabem o que perdem…

 

É primavera!

Exatamente hoje, às 4h50, iniciou-se a primavera. A mais romântica estação do ano.

Por que hoje? Por que às 4h50? Quem marca esses dados? Algum instituto, onu, nasa, ongs? Não. O início da primavera é marcado pelo famoso desconhecido equinócio – definido como “momento em que o Sol, em seu movimento anual aparente, corta o equador celeste, fazendo com que o dia e a noite tenham igual duração.”

Ou seja, põe fim às longas noites do inverno.

Precisamos do inverno. A terra repousa, a temperatura cai, a natureza se recolhe. O sol – especialmente no hemisfério norte – já não é tão frequente. Mas, por mais que se aprecie o tempo do inverno, sem dúvida alguma também necessitamos que ele acabe e o calor volte, a terra renasça e a natureza se torne exuberante.

Esse o equilíbrio do clima. Esse é desenrolar natural da vida.

E então entramos na primavera. Com muitas promessas no ar – novas chuvas, novas safras, novas paixões. A vida renascendo em todos os sentidos.

E a poesia das flores e dos pássaros a enfeitar a natureza.

Ela não dura para sempre. Chega a seu fim, inexoravelmente, em 22 de dezembro, para dar lugar ao verão.

E quando acabará a doce primavera? No domingo, 22 de dezembro, à 1h19. Quando ocorrerá o solstício – “na astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante seu movimento aparente na esfera celeste, atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador.”

Mas o mais romântico da primavera, na minha opinião, são os fenômenos que a delimitam: a primavera se inicia no equinócio da primavera e vai ate o solstício de verão.

Sua efêmera duração é de um equinócio até um solstício. Isso, por si só, é poesia.

Construindo a saudade

A saudade paira no ar como paina depois da florada. Cada um carrega em si suas próprias saudades. Mas o caminho para as possuir é igual para todos – temos de construir as memórias para então surgir a saudade.

Plantamos uma árvore e dela cuidamos com dedicação. Um dia ela amanhecerá florida inundando nossos olhos com tanta beleza. As flores cairão, mas na nossa mente, para sempre, ficará a lembrança da explosão de beleza que nossa árvore nos proporcionou.

Assim é a saudade. Ela só surge depois que fomos felizes. Depois que uma paixão explodiu no peito. Que um amor ardente foi vivido. Não há saudade do triste, do luto, da infelicidade. A saudade fica do que nos tocou no campo das emoções, como cordas de violinos, tirando os sons mais celestiais.

E ainda tem de haver distância. Não temos saudade do que nem de quem está próximo. Precisamos que um tempo se passe desde que tudo aconteceu para que surja a saudade. Precisamos que as pessoas amadas se afastem e se distanciem para então sentirmos saudade.

Feliz de quem tem saudade. Feliz de quem tem do que ter saudade.

Piedade, Senhor

E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. (Lucas, 9:23)

 

 

Piedade, Senhor, a esta peregrina pecadora!

Piedade por minhas fraquezas que me levaram a pecar.

Piedade por não conseguir ajudar meu irmão a não viver em pecado.

Piedade por não entender os planos traçados para meu destino e por vezes me revoltar.

Piedade por tanto pedir e tão pouco agradecer.

Senhor, permita-me aliviar o peso da cruz dos irmãos e ajudá-los a carregá-la.

Eu peço, Senhor, que se algum dia cair sob o peso de minha cruz, consiga forças para me reerguer e continuar a cumprir minha caminhada.

Eu peço, Senhor, caminhe comigo, a meu lado, dando-me conforto e mostrando os perigos da caminhada e que eu perceba sempre que o Senhor caminha junto de mim.

Não peço, Senhor, que me alivie do peso da minha cruz, mas imploro, Pai, que fortaleça meu ombro para que possa carregá-la com alegria de dever cumprido.

Que a alegria de Cristo esteja sempre comigo, mesmo nas horas mais tristes, porque estas são parte de Seu plano para mim.

Que as forças nunca me faltem quando chegarem as tempestades da vida.

Que eu seja forte por mim e para socorrer o irmão que estiver sofrendo.

Piedade, Senhor, piedade de mim.

Quando enfim encerrar minha jornada, depois de cumprir Seus planos a mim destinados, que eu possa ajoelhar em Sua frente, ali depositar minha cruz e finalmente, olhar para Sua Sagrada Face.

Despedida

Ficou parada no vão da porta, observando enquanto a velha tia cochilava, tranquila, em sua poltrona. Sentiu-se inundada das lembranças daquela sala, o “seu” sofá, onde era a única pessoa autorizada a deitar… a mesa de canto, pequena, com duas poltronas onde tomavam chás, sucos ou café, com bolachinhas caseiras enquanto punham a conversa em dia.

Há três dias, no outro lado do mundo, recebeu uma ligação de sua mãe. Estava com voz preocupada que traduzia tristeza. Sua tia está morrendo, disse. Ela não diz nada, mas espera ansiosamente por você. Dá um jeito de vir.

Imediatamente entrou num site de passagens, fez a compra, largou tudo e voou quase um dia. Mas precisava vir.

Olhava com ternura a velha senhora, tão diminuída pela idade, os traços quase irreconhecíveis pela velhice, mas que tinha sido sempre seu mundo de amor incondicional.

A tia acordou. Olhou desinteressada ao redor. Notou o vulto encostado no batente. Levou um susto. Levantou o corpo, apertou os olhos.

– Você! Você!

Levantou-se e veio devagar, como se tivesse medo que ela desaparecesse, que não fosse real o que via…

Abriu os braços.

– Tia, estou aqui. Senti saudade e vim vê-la.

Abraçou o pequeno corpo e se perguntou onde estava aquela tia grande, sólida, que tanta segurança lhe dava.

Voltaram abraçadas até a poltrona, a tia se sentou. Ela se sentou no sofá ao lado. O sorriso da idosa a rejuvenescia décadas, era o mesmo riso de toda sua vida, desde o nascimento.

– Você deve estar cansada. Deita aí, minha filha.

Ah, como era bom essa voz, que continuava incrivelmente a mesma, aveludada e carinhosa, autorizando a deitar no sofá…

Deitou-se de forma a ficar de frente para a tia, vendo seu rosto e segurando sua mão.

Aquela mão que tanto a segurara… sempre lhe tirara os medos. Pedra, poça, muro, degrau, tudo que era intransponível, e a tia, com aquela mão estendida e a voz calma dizendo “Venha, princesa, pode vir que eu ajudo você a conseguir”.

Assim foi tudo o que conseguiu na vida. Até a carreira.

Aqueles mesmos braços que a seguraram forte quando bebê, a ampararam quando começou a andar, e deram adeus quando se foi para o outro lado do mundo buscar seu próprio caminho. “Vai com Deus, minha flor. E já sabe, estou aqui para o que precisar”.

Sabia. E como sabia. Como sempre soube, desde sempre. Estava ali, para resolver as disputas com os irmãos. Para ajudar nas lições da escola quando começaram a ficar difíceis. Para mediar os desentendimentos com os pais quando adolescente. Para completar o dinheiro quando as contas eram maiores que os meses. Para rirem juntas, delas mesmas, dos outros, das coisas…

Às vezes nem precisava pedir. Bastava pensar intensamente nela, e, como se adivinhasse, ela aparecia. “Está precisando de alguma coisa, minha querida? Posso ajudar?”

Toda a segurança que veio dela, e nunca percebeu que ela envelhecera, pois continuava a ser seu porto seguro. Nunca pensara nela como simples mortal. Sabia que um dia os pais e os irmãos morreriam, como morreram os avós e alguns tios mais velhos. Mas ela? Ela era eterna, imortal em seu imaginário.

– Pensando em que, florzinha?

– Nada, tia.

– Você deve estar cansada. Mas estou tão feliz que esteja aqui. Você está de férias?

– Estou. E vim ficar uns dias aqui com a senhora. Matar as saudades, rir um pouco. Estou carente de amor e colo…

– Veio no lugar certo, que bom que ficaremos juntas uns dias, como nos velhos tempos…

Sorriu alegre. Fechou os olhos e mergulhou em suas lembranças. Começou a cochilar.

Olhou com ternura para a tia, também estava cansada, com sono depois do longo e desconfortável voo. Adormeceu.

Acordou de repente, sem saber onde estava. Voltou à realidade. Alguém a cobrira com uma delicada colcha, o dia terminava e uma luminosidade mortiça entrava pelas frestas da cortina, tornando o ambiente surreal.

Viu que a tia cochilava, mas não se soltaram as mãos. As mãos que sempre se encontraram e se ampararam.

Voltou a dormir. Sonhou que voava junto com a tia. Não tinha asas. Mas as asas da tia bastavam para as duas voarem juntas. E foram se distanciando de tudo, a paisagem foi diminuindo, o corpo cada vez mais leve. E a tia a levava, e ela ia confiando cegamente porque estava segura, estava com quem sempre a protegera.

Repentinamente, as mãos se soltaram e ela se viu solta no ar, sabia que cairia, tentou gritar e acordou assustada, respirando com dificuldade.

A tia soltara sua mão, e, ainda guardando um sorriso de felicidade, mansamente se fora, voara para outra dimensão…