Le vent, le cri

Neblina. Ar ainda um pouco frio. Espero o sol para – voltar – a caminhar, depois de quase um mês de febres e dores.

Só posso sair quando o ar esquentar. Para passar o tempo resolvo ouvir uma boa música. Procuro algo de Ennio Morricone, um dos maiores compositores do século XX.

Encontro esse videoclipe com O vento, o grito. Começo a ver.

Meu Deus, quanta beleza. A música eu já conhecia, e sempre considerei sensacional.

Mas a natureza, a perfeição da mão de Deus em nossa vida, essa é inigualável.

Apago a luz, ponho em tela cheia e entro na paisagem.

Volta-me o desejo infantil de voar – voar por mim mesma, de ser pássaro. E vou junto com as gaivotas, mar adentro.

Mar, o que mais amo na natureza. Tenho esse “meu” imenso mar aqui em frente de casa, que não canso de olhar, admirar, perquirir, amar…

Surgem os golfinhos… mostram o que é surfar de verdade… Impossível conter a emoção que leva às lágrimas no encontro das aves com os golfinhos, todos em plena harmonia com céu e mar.

Como podem os homens – os terríveis e cruéis homens – prender pássaros em gaiolas e golfinhos em tanques, para ganhar dinheiro – maldito dinheiro – à custa desses animais. O primeiro instinto de todos os animais, inclusive do homem, é a sobrevivência, e o segundo é a liberdade. Que o homem nega aos demais.

E segue a música, tão linda tão doce, tão emocionante… O vento e o grito. O que é o vento? nada mais que a natureza a perscrutar seus domínios…

O tubo das ondas, mostrando a grandeza e doçura do mar… que o homem agride, tenta conter, e que por vezes, descontrolado, vem em busca de tudo que lhe foi tirado…

O vento e o grito. Que grito? o grito dos animais clamando por respeito e liberdade. O grito do mar pedindo que o deixem em paz.

E no final, surpreendente, a leveza da baleia quando em seu meio – a água que a sustenta.

Se tiver um tempo, abra o vídeo, ponha em tela cheia, apague a luz e se deixe levar. Se sentir seus olhos se umedecerem de emoção sinta alegria em seu coração por ter comungado com essa natureza divina e maravilhosa: http://youtube.com/watch?v=rRbyZ3eD-9M

(Guarujá, agosto de 2012)

Felicidade e o sofrer

                             

Meu amigo poeta se diz triste, muito triste. Posta em seu blog poesias lindíssimas, inspiradas em sua tristeza. 

As músicas que mais emocionam são aquelas que versam sobre a tristeza, o desencanto, a desilusão, a perda; os filmes mais vistos e lembrados são os mais tristes. 

E no entanto vivemos em uma busca infinita pela felicidade. 

Que não vende jornais, não aparece no noticiário da TV, não prende telespectador de novela… 

Paradoxal o ser humano. Será que gosta de sofrer? Ou gosta que os outros sofram? Então por que buscar tanto a tristeza para as horas de lazer?

Em seu livro WERTHER, diz o autor Goethe, no prefácio: “E a ti, homem bom, que sentes as mesmas angústias do desventurado Werther, possas tu encontrar alguma consolação em seus sofrimentos!” 

Será então que ao ver outro sofrer ainda mais profundamente o sofredor encontra algum consolo, sente diminuída a própria dor? O abraço dos sofredores acalma a ambos, quando os dois corações contritos se encontram e batem em sintonia por alguns segundos? 

O que é sofrer? A dor física, o abandono afetivo, o desvalimento emocional, a fome, a sede, a miséria… como definir o sofrer em uma palavra ou ideia? 

Em seu pensar Platão já afirmava que a felicidade tem muitas faces, é o calor para quem tem frio, o alimento para o esfaimado, o aconchego para o abandonado… então concluo que o sofrimento também pode se apresentar sob muitas formas. 

Ideia corrente é que rico não sofre. Nada mais falso.

 O dinheiro em si não é causa nem de sofrimento nem de felicidade. O que o dinheiro pode comprar é fonte de conforto, proteção, distração. Mas isso seria felicidade? 

O que o dinheiro não pode comprar não está à disposição de ninguém em particular: o amor, o afeto sincero, a companhia, o aconchego, a ternura… mas tudo tão efêmero que dura o tempo de uma noite de verão na nossa vida.  

Se não sofremos não damos valor à felicidade. Quando estamos felizes também não damos valor à felicidade, pois a pomos a perder tão levianamente como se fosse o cachorro, que mesmo batido volta para lamber a mão do dono.

Na verdade acho que não sabemos direito o que é a felicidade. Conhecemos mais o sofrer do que o ser feliz.

Mas a felicidade que se foi não volta mais. O momento vivido se perde no passado e se esgarça como uma musseline ao sol. Temos só o agora, este exato momento fugidio que quando nos damos conta de sua existência já desborda para o passado. 

Na verdade só temos futuro e passado. O presente é tão efêmero que não conseguimos retê-lo por frações de segundo. Ele não chega. Apenas passa por nós, na sua eterna viagem do futuro para o passado. 

Mesmo assim, com a vida passando tão ligeira por nós, insistimos em sofrer…

 

Só a leve esperança, em toda a vida,

Disfarça a pena de viver, mais nada:

Nem é mais a existência, resumida,

Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,

Sonho que a traz ansiosa e embevecida,

É uma hora feliz, sempre adiada

E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,

Árvore milagrosa, que sonhamos

Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim : mas nós não a alcançamos

Porque está sempre apenas onde a pomos

E nunca a pomos onde nós estamos

(Vicente de Carvalho)

Vento e vida

Há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que espera…

 

Ouço umas trovas portuguesas – Trovas ao vento – e essa frase de encerramento me faz pensar. Muito. 

Os homens não têm raiz. Literalmente. Mas em sentido figurado as temos. E muitas. 

Nossas raízes nos forçam a permanecermos fiéis a nossos princípios, ligados a nossa família, coerentes com nosso passado. 

Ainda bem. Imaginem um mundo em que os seres humanos fossem como borboletas, nascidos de um anônimo casulo, vivendo soltos pelos ares, sem ponto de partida nem de chegada. 

A vida seria um imenso vácuo.

 Por nossas raízes resistimos. Permanecemos. Somos. 

Podemos oscilar com a força do vento, mas não abandonamos nosso lugar ao sol. Elas nos prendem firmemente no lugar em que devemos ficar, não nos permite desvios. Por isso resistimos. 

E a resistência nos faz fortes. Exatamente como as árvores. 

Quanto mais ventos e tempestades nos açoitam mais fortes elas, as nossas raízes, se tornam. 

Se plantamos uma árvore atrás da montanha, os ventos não a fustigam. Ela cresce protegida e frágil. 

Mas se a plantamos no alto da montanha, onde os ventos são inclementes, suas raízes serão tão fortes para resistir que a tornarão invencível.

Assim somos nós – e serão nossos filhos – se os criarmos como flores de estufa não estarão preparados para a vida, muitas vezes inclemente, muitas vezes violenta.

Mas se os deixarmos suportar os ventos de sua própria existência, eles estarão fortes e armados para viver – serão árvores do ponto mais alto. 

Depende de nós. Apenas.

Os sinos da Sé

 

Lá no infinito azulado uma estrela formosa irradia /  A mensagem do meu passado quando o sino tange “Ave Maria”. (Erothides de Campos)                     

 

Com grata surpresa leio no jornal que os sinos da Sé – o imponente, fantástico e raro conjunto de 62 sinos – voltam a tocar depois de muitos anos de silêncio. 

Os mecanismos que os controlam, martelos internos e externos, toque por teclado remoto… a tecnologia aliada a um dos instrumentos de som mais primitivos da história do homem na Terra.

Segundo a Wikipedia, “Um sino é um dispositivo simples de produzir som. É um instrumento de percussão e um idiofone. A sua forma é aproximadamente um cone oco que ressoa ao ser golpeado.

O instrumento de percussão pode ser uma lingüeta suspensa dentro do sino, (também se usam os nomes “badalo” para a lingüeta interna, ou “martelo”, quando é uma peça que bate o sino por fora), de uma esfera pequena, livre, incluída dentro do corpo do sino, ou de um malho separado.

Os sinos são feitos geralmente de bronze, mas os sinos pequenos podem também ser feitos de cerâmica ou de vidro.

Os sinos podem ser de todos os tamanhos: dos acessórios minúsculos do vestido aos sinos da igreja que pesam toneladas. Um sino muito famoso é o Liberty Bell, que está em Filadélfia, nos EUA.

O maior sino já fundido em bronze é o Tsar Kolokol, exposto atualmente na praça principal de Moscovo, capital da Rússia.”

De acordo com a reportagem do jornal, “A Catedral já definiu as melodias programadas para brindar os fiéis: serão três sessões diárias de Ave Maria, tocadas às 6 horas, ao meio-dia e às 18 horas. Durará 1,5 minuto e poderá ser ouvida, segundo estimativa da Fundição Artística Paulistana, responsável pelo restauro, “ao menos até o fim da praça.”

Às 9 e às 15 horas, outras duas sessões de músicas religiosas serão realizadas – o repertório está sendo definido, mas deve contar com clássicos das missas, como Viva a Mãe de Deus e a Nossa, Coração Santo e Maria de Nazaré. Na primeira semana de funcionamento, por ser época de Natal, canções como Noite Feliz e Jingle Bells também estão previstas.

O som dos sinos representa a voz dos anjos chamando os fiéis para a igreja, lembrando-os da existência do Senhor. Por isso a importância de termos todo o carrilhão funcionando, em alto e bom som, disse o cura da Catedral da Sé, padre Walter Caldeira. O organista oficial da Catedral também poderá tocar sinfonias de sinos em um teclado, instalado no coro da igreja.”

Grande parte de minha infância teve suas horas marcadas pelos sinos da Igreja Matriz de São José, na cidade do interior em que morei.

Pelos sinos sabíamos as horas das missas, as mortes, as festas. E a hora da Ave Maria…

Subitamente, ao ler essa matéria no jornal, fui tomada por intensa vontade de ir a São Paulo, só para ouvir esses sinos, tocarem sabe-se lá por quem…

Mas com muita tristeza visualizo a decadência, a miséria humana que rodeia a majestosa Catedral da Sé e sei que não poderei deixar-me ficar simplesmente em algum banco daquela praça apenas para esperar ouvir os sinos tocarem… mas agora sei que eles tocam por nós, brasileiros sem segurança nem futuro num dos países mais violentos do mundo em tempo de paz.

Constato então que não temos mais praças neste país desnorteado. Contrariamente às grandes metrópoles, onde podemos ficar horas nas praças centrais apenas vendo a vida passar…

Mas qualquer dia desses passarei horas na Sé, com a alma em êxtase ao som de seus sinos. Que Deus então me proteja, porque apenas estarei atendendo ao chamado das vozes de seus anjos…

(16.12.2010)

O futuro de todos nós

L’avenir c’est ce qui dépasse la main tendue. (Louis Aragon)

 

O que significa de verdade Depois, Amanhã, Futuro? 

Vivemos em função do futuro, do depois, do amanhã, do que há de vir e do que há de ser. Que desconhecemos. Às vezes nem acontece, pois acabamos antes que o futuro chegue. 

Mas se não tivermos essa ideia de futuro, não dá para viver, ficaria tudo sem sentido, seria terrível viver se só existissem o hoje e o ontem. 

Então vivemos em função de algo que desconhecemos, não atingimos, não enxergamos, o abstrato mais absoluto. Se pudéssemos, nem que fosse por um só momento, uma única vez em toda a existência, afastar a cortina tênue mas indevassável que esconde o que está à frente e espiar um mínimo que fosse do nosso futuro… 

Veríamos talvez dias ensolarados e floridos, amores bem resolvidos, paixões bem vividas, bonança e alegria. 

Também poderíamos ver choro e ranger de dentes… 

Agora que caminho entre o outono e o inverno de minha existência, vejo o quanto tenho para olhar para trás, e que nunca me foi dado ver uma hora, um segundo sequer do que há de vir. 

Tenho milhares de lembranças – principalmente boas, porque minha memória seletiva não me deixa fixar muitas recordações amargas, somente aquelas necessárias para não repetir erros passados – e com elas recheio o edredon que há de me agasalhar quando chegarem as horas derradeiras. 

Como não posso nem poderei conhecer o que virá depois, levo comigo a luz de muitas lembranças e algumas saudades para iluminar o caminho, que não sei onde vai dar, não sei onde vou chegar. Mas continuo firme, caminhando adiante, indo ao encontro desse amanhã que nunca chega. 

E tecendo abstratamente conceitos sobre o desconhecido, vou imaginando o que é amanhã, o que é futuro. 

Quando o novo dia nasce deixa de ser amanhã para se tornar hoje. 

Quando pensamos que chegamos no futuro, vemos que ele na verdade é o presente, e muitas vezes já é passado… é tentar segurar fumaça, reter água, guardar neve… 

A grande certeza da vida é a morte e o grande enigma é o futuro. Que nunca chegará.

Poeta

–  Onde você vai, poeta?

–   Vou buscar inspiração.

–  Para que, poeta?

–  Para escrever meus versos, não deixar a poesia morrer.

–  E onde tem inspiração para buscar?

–  Não sei. Vou procurar.

–  Procurar, onde?

–  Vou andar pelas ruas com olhos de criança, ver em cada pessoas um amigo, em cada lágrima uma tristeza, em cada mão um pedido.

Vou andar pela praia, ver em cada onda um grito, em cada gaivota uma fuga, cada pedra um descanso.

Vou subir a montanha, ver em cada árvore uma súplica, em cada monte um aviso, em cada regato um bálsamo.

Depois vou olhar para o céu, ver em cada nuvem um presságio, em cada pássaro uma paixão, em cada estrela um esplendor.

Se nada disso me inspirar, vou então buscar um amor, um amor de muita paixão, muita densidade e muita intensidade. E quando perder esse amor, o sofrimento que vou experimentar fatalmente me trará muita, muita inspiração. 

E assim o poeta se foi, não encontrou inspiração, nem amor… e sua poesia morreu.