No dia em que nos separamos

No dia em que nos separamos o sol brilhava

E pássaros inundavam o ar com seu canto delicado.

Naquela noite a lua, insensível, surgiu radiante

E reinou soberana liderando o séquito de estrelas brilhantes.

E as flores da noite se abriram e perfumaram os caminhos.

As aves, amantes, aos pares se recolheram aos ninhos,

E o vento soprou mansinho,

apenas leve brisa a acalentar as folhas.

Nada nem ninguém viu meu desespero, tanto sofrimento;

Lágrimas escondidas misturadas ao sangue

corriam em minhas veias,

Não houve dentro de mim qualquer alegria,

qualquer alívio ou bálsamo

Somente a dor aguda de mais uma separação,

que me inundava toda

E ocupava os lugares onde até então era só alegria,

sorriso e êxtase.

Amanheceu um novo dia.

A natureza não se abala com a dor alheia.

Como se tudo estivesse bem, o sol brilhou novamente.

Poesia da casa – Encontro

Por todas as vidas que estivemos separados

Todos os dias, todas as noites, todas as horas

Em que inutilmente tanto nos quisemos

E a distância impediu o nosso encontro

Não sei os atalhos por onde você foi, quais seus caminhos

Nunca soube onde procurar você, por isso aqui fiquei

Como cega, seguia meu caminho, sem sonho nem luz

Vivendo apartada do querer, na noite contínua.

Por tudo isso chegará um dia em que

Estaremos novamente frente a frente

Suas mãos ao alcance de minhas mãos

Encantados então nos abraçaremos

E à sua única pergunta responderei:

Não duvide, eu sempre estive aqui!

Poesia da casa – Versos soltos

 

 

Meus versos soltos flutuam e se perdem

pelos cantos da casa da minha alma

fogem impunes pelas frestas das janelas

ou se escondem atrás das pesadas mágoas

Tento, em vão,  capturá-los uma a um,

trazê-los de volta para a minha poesia

mas escorregam pelo tampo da mesa

correm pelo chão onde desaparecem,

e se confundem com as águas que caem

dos olhos em doloridos prantos sofridos

e derramados na hora derradeira

do último amor que aqui um dia habitou.

Poesia da casa – Nada

Nuvens sem fim, escuridão

O céu desaparece e o nada é imensidão

Luz sem vida de estrelas mortas

No âmago da inconstância

Indefinidas formas se encontram

A vida, finita por natureza

Não pode conter infinitos

Amores também nascem para morrer

Tudo o que floresce, fenece

Das correntes nos libertamos

Para nos atirarmos dos rochedos

E morrer no mar

Nada permanece, nada é eterno

Cada minuto diminui sessenta segundos de vida

Só insensatos não entendem essa realidade

A sede de viver é proporcional à consciência da morte

Certeza absoluta nesse oceano de incertezas

Quando chega um momento certo

Verdes e azuis se tornam marrons e cinzas

E até a natureza parece soçobrar

De tudo aquilo que fomos, vimos e amamos

Então nada restará

 

 

Férias de sonho

Vou tirar férias de mim,

Vou tirar férias de tudo.

Jogar os sapatos pro alto,

tirar as pilhas dos relógios.

 

Desligar o telefone, a campainha,

Dispensar a entrega de jornal,

Perder as chaves do carro,

Esquecer de abrir os portões.

 

Afofar os travesseiros,

encomendar muito sol.

Ficar sem mala, nem bolsa.

Não pensar, não querer, não ouvir.

 

E assim ficarei trinta dias

Ausente de tudo e de mim.

E, se lá estiver muito bom,

Quem sabe não volto mais, não.

Todas que sou

 

Tantas eu sou quantas mais eu fui

Porque indiferente ser um, não ser um ser nenhum

Se viver é se superar a cada momento, lanhar a casca para seguir adiante

Não posso me levar inteira para onde eu for

Alguns lugares são tão pequenos para todas essas

E jamais poderei deixar alguma para trás, abandonada

Ou corro o risco de nunca mais a encontrar

Temos de nos unir e nos adaptar ao nosso canto

E assim vivendo entre mim e mim mesma

Indecisa entre ficar inteira ou ir partida, despedaçada,

Prefiro deixar-me ficar junto de mim aqui

Espalho eu mesma minhas eus pelo meu mundo

E depois as recolho e as guardo com amor