Brincadeira de leitura

(autor desconhecido)

 

Não te amo mais

estarei mentindo dizendo que 

ainda te quero como sempre quis

tenho certeza que

nada foi em vão

sinto dentro de mim que

você não significa nada

não poderia dizer jamais que

alimento  um grande amor

sinto cada vez mais que

já te esqueci!

e jamais usarei a frase

eu te amo!

sinto, mas tenho que dizer a verdade:

é tarde demais…

 

Chegou até aqui? agora leia as frases de baixo para cima…

 

Dia de Poesia – Olavo Bilac – Nel mezzo del camim

Momento Poesia, hoje com soneto de OLAVO BILAC

 

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E alma de sonhos povoada eu tinha…

 

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

 

Hoje segues de novo… Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

 

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo.

Dia de Poesia – Edmond Haraucourt – Rondel de l’adieu

Momento Poesia

Partir, c’est mourir un peu,
C’est mourir à ce qu’on aime :
On laisse un peu de soi-même
En toute heure et dans tout lieu.

C’est toujours le deuil d’un vœu,
Le dernier vers d’un poème ;
Partir, c’est mourir un peu,
C’est mourir à ce qu’on aime.

Et l’on part, et c’est un jeu,
Et jusqu’à l’adieu suprême
C’est son âme que l’on sème,
Que l’on sème à chaque adieu :

Partir, c’est mourir un peu…

( Edmond Haraucourt – Recueil : Seul, roman en vers (1890)

[Partir, é morrer um pouco
É morrer naquilo que amamos:
Nós deixamos um pouco de nós mesmos
Em todo momento e em todo lugar.

É sempre o luto de um desejo
O último verso de um poema;
Partir, é morrer um pouco
É morrer naquilo que amamos.

E nós partimos, e é um jogo
E até o supremo adeus
É nossa alma em que semeamos
Que nós semeamos em cada adeus:
Partir, é morrer um pouco …]

Dia de poesia – Manuel Alegre – Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas

coisas do mar. Contar-te o amor ardente

e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.

Contar-te longamente as misteriosas

maravilhas do verbo navegar.

E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi

num tempo doce coisa amar. E mar.

Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.

Contar-te o mar ardente e o verbo amar.

E longamente as coisas perigosas.

(Imagem: Foto de Maria Alice)

Dia de poesia – Guilherme de Almeida – Canção bem simples

Momento poesia, trazendo Guilherme de Almeida:

 

Se eu achasse uma rima em “Eu”

mas uma rima rica e linda

que nenhum poeta achou ainda

e em que coubesse mais do que eu;

 

E também uma rima para “gosto”

mas que pudesse traduzir

tudo o que eu sinto sem sentir

e o quanto eu gosto quando eu gosto;

 

E ainda mais uma para “muito”

que fosse rara como um bem

que é meu, só meu, de mais ninguém,

e é sempre pouco, nunca é muito;

 

E tivesse uma para “de”

que alguém que adoro me dissesse

num beijo louco e que pusesse

entre o seu e o meu nome um de;

 

E uma afinal para “você”

se eu tivesse tudo isso um dia

eis a canção que eu comporia:

“Eu gosto muito de você”.

Pressa

Hoje, apressada, vou postar um poema de Ronaldo Cunha Lima. Todos sabem que foi político paraibano. Mas, além de político, foi advogado, promotor de justiça, professor e um grande poeta:

Quando meus filhos disserem a meus netos

o quanto eu os amava

e quando meus netos disserem a meus filhos

que  guardam lembranças minhas

e de mim sentem saudade,

não terei morrido nunca,

serei eternidade.

 

E ainda:

 

Eu amo uma mulher que não existe.
Mas a vejo sempre,
conversamos muito
e lhe quero bem.
Tem muitas faces,
não sei seu nome
e, se nome tem.
Só sei que quando
eu estou triste,
ela então existe
e de repente vem
confortar-me a alma,
trazer-me calma
e me fazer bem.
E a quem me indaga:
– Que forma vaga
de amar alguém?
Eu nada escondo
e então respondo
como convém:
– É meu coração,
na solidão,
sem ter ninguém.