Dia de poesia – Perda

                                       Perda

Quando te fores

Leva a maresia e o cheiro das arribas em desassossego

Leva as cores do sol destronado

O vento amarrado à lama e este vinagre

da tua ausência

Leva tudo a que já me habituara.

Sabes,

Fica aqui um mar de luas caídas

sempre que levas o barco

e abandonas minhas mãos no cais.

(Isabel Cabral)

Momento poético – Os cisnes

Para meditar…

Se fôssemos todos cisnes a felicidade seria geral… Se tivéssemos essa capacidade de amar!      

 

                                                               Os cisnes   

 A vida, manso lago azul algumas 

Vezes, algumas vezes mar fremente,

Tem sido para nós constantemente 

Um lago azul sem ondas, sem espumas,   

 

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas 

Matinais, rompe um sol vermelho e quente, 

Nós dois vagamos indolentemente, 

Como dois cisnes de alvacentas plumas.   

 

Um dia um cisne morrerá, por certo: 

Quando chegar esse momento incerto, 

No lago, onde talvez a água se tisne,

 

Que o cisne vivo, cheio de saudade,

Nunca mais cante, nem sozinho nade,

Nem nade nunca ao lado de outro cisne!   

(Julio Salusse)

 

Poesia para o sábado de chuva – Duas Almas

Sábado, carnaval, MUITA chuva e visitas… para não falhar no propósito de postar 100 dias seguidos, mas, também, sem tempo para escrever, preencho o post com uma de minhas poesias favoritas: Duas Almas… que me encanta desde sempre…

Duas Almas

(Alceu Wamozy)

 

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

Entra, e, sob esse teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…  

Dia de poesia – O mais-que-perfeito

  O MAIS-QUE-PERFEITO

           (Vinicius de Moraes)

 

 

Ah, quem me dera ir-me

       Contigo agora

Para um horizonte firme

       (Comum, embora…)

Ah, quem me dera ir-me!

 

Ah, quem me dera amar-te

        Sem mais ciúmes

De alguém em algum lugar

        Que não presumes…

Ah, quem me dera amar-te

 

Ah, que me dera ver-te

        Sempre a meu lado

Sem precisar dizer-te

        Jamais: cuidado…

Ah, quem me dera ver-te

 

Ah, quem me dera ter-te

        Como um lugar

Plantado num chão verde

        Para eu morar-te

Morar-te até morrer-te

Soneto do Amor como um Rio

Hoje é dia de poesia. Dia de Vinicius de Moraes:

 

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno, interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.

(Vinicius de Moraes)

Começo de amar

A gente começa a amar
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.
E como, no fundo, a gente
Se quer muito bem.
Ama quem ama somente
Pelo gosto igual que tem.
Pelo amor de amar começa
A repartir dor por dor,
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.
E, sem pensar, vai falando
De novo as que já falou,
E então continua amando
Só porque já começou.

(Paul Géraldy)

Brincadeira de leitura

(autor desconhecido)

 

Não te amo mais

estarei mentindo dizendo que 

ainda te quero como sempre quis

tenho certeza que

nada foi em vão

sinto dentro de mim que

você não significa nada

não poderia dizer jamais que

alimento  um grande amor

sinto cada vez mais que

já te esqueci!

e jamais usarei a frase

eu te amo!

sinto, mas tenho que dizer a verdade:

é tarde demais…

 

Chegou até aqui? agora leia as frases de baixo para cima…