Passado (dezembro/2010)

Enquanto houver um olhar fixo no ponto por onde chega alguém que tarda, e não vem…

 

                                                           Muitas vezes nos damos conta de que parte do nosso passado teima em ficar escondidinho atrás da cortina da sala da existência, e nos espreita, deixando-se flagrar em sua missão de nos mirar sempre, para incomodar mesmo, para que não a deixemos ir para as brumas do esquecimento, a névoa da confusão em que os fatos pretéritos se misturam em datas, locais, vozes, sabores…

                                                           Súbito vêm-nos à mente acontecimentos que há muito julgávamos esquecidos.

                                                           Como o cheiro e o sabor das comidas que comíamos aos domingos na casa da avó.

                                                           A cor dos papéis que envolveram os ovos de páscoa de nossa infância.

                                                           O toque gostoso das tímidas mãos do primeiro namorado.

                                                           O peso do material que levávamos à escola diariamente.

                                                           E podemos ver as fachadas das casas cuja frente automaticamente percorríamos diariamente e nem sequer as olhávamos. Agora, nítidas, vêm à nossa mente como se as tivéssemos visto ontem.

                                                           O cheiro da chuva ao molhar a terra do quintal…

                                                           Os sons das músicas que dançávamos – nossa geração dançou muito, novos ritmos, novos modismos, rompendo um sistema secular, e vieram as discotecas, as danceterias, e hoje nossa música, tão moderna, tão “nova” já se perdeu, já ficou para trás.

                                                           E tantos amigos que deixamos ao longo do caminho, por mudanças de cidade, por ingresso em faculdades distantes, e aqueles que nos deixaram para sempre…

                                                           Então mergulho em tantas lembranças, deixo a saudade inundar minha alma e trago o passado para dentro de minha sala.

                                                           Vejo então que muita coisa, na verdade, nunca passou. O passado não é passado. Apenas fatos que colocamos mais fundo nas gavetas da memória, que tantas vezes nos esquecemos de arrumar, mas, em qualquer distração, saltam e vêm nos assombrar, acendendo a luz da saudade…

 

                                                     

Saudade encantada

É preferível a dor da saudade encantada à tristeza de uma presença encarcerada

 

Mudamos quando lemos Rubem Alves. E para melhor.

Suas idéias, suas crônicas, seus livros, seus ensinamentos. E também suas Estórias para pequenos e grandes.

Eu usava essa frase da abertura de hoje no meu MSN – e a curiosidade era incontida: quem era a saudade encantada, quem era a presença encarcerada? Não sei, eu respondia, não é comigo, essa frase não é minha.

É apenas uma frase – lindíssima – de A Volta do Pássaro Encantado. Que tanto me encantou.

Talvez por tê-lo lido em um dos momentos mais delicados que passei na vida, inclusive foi lido na sala de espera de um consultório médico.

E fui atrás, comprei e o trago comigo para lê-lo sempre.

Ninguém é a saudade encantada. Ninguém é a presença encarcerada. Ao mesmo tempo somos – todos – saudades encantadas e presenças encarceradas.

Atire a primeira pedra quem nunca teve vontade de cortar as amarras e voar. Mas não o fez porque alguém – companheiros, filhos, pais – não sobreviveriam Ainda bem que essa vontade passa logo, dura pouquinho, só o suficiente para abrirmos os olhos da alma para sonharmos acordados.

E quem nunca foi presença encarcerada – em casa, no trabalho, na escola. Apenas por obrigação. E a alma nublada da tristeza de querer estar muito longe dali.

E se pensarmos em todas as pessoas que passaram pela nossa vida e já não mais estão aqui – mudanças, separações, mortes, quantas saudades encantadas trazemos dentro de nós que nos dão alento para continuarmos lutando. Todas essas saudades encantadas, que nasceram do não-mais-ver, da separação imposta, mas que enchem de encanto o mundo das lembranças.

E não podemos, então, deixar de pensar nas pessoas que estão hoje do nosso lado, mas são apenas presenças encarceradas… Cujas gaiolas, por covardia, comodismo e insegurança nos recusamos a abrir, porque não sabemos se resistiremos à saudade encantada de sua liberdade.

Vocês se lembram? Já contei a estória do Pássaro Encantado de muitas cores, que amava a Menina… Mas sempre chegava a hora em que ele dizia:

“É preciso partir, ficar longe por muito tempo, para que a saudade cresça, e dentro dela o encanto!”

E ele voava…

A Menina ficava, e chorava. Até que não mais agüentou a dor da saudade e prendeu o Pássaro numa gaiola de prata, para que nunca mais a deixasse.

Ele ficou, mas murchou. Seus olhos se entristeceram e suas cores se apagaram. Acabou também a saudade, e o encanto se foi. A Menina entendeu então, que é preferível a dor da saudade encantada à tristeza de uma presença encarcerada. E abriu a porta da gaiola. O Pássaro voou para muito longe até que a saudade voltasse a crescer. (Rubem Alves, A volta do pássaro encantado)

(27/09/08)