O perfume das madressilvas

Madressilva Banco de Imagens e Fotos de Stock - iStock

Uma janela não é uma simples abertura na parede. Uma janela pode ser tudo o que quisermos que ela seja – o quadro animado, a fonte de sons, o elo com a vida, o símbolo da esperança…
Foram meses, quase ano, de isolamento social. De dor e tristeza. De muita angústia.
E a janela quase sempre cerrada – não havia utilidade em ser aberta nem diferença em permanecer fechada.
A rua estava sempre deserta, as outras janelas, aferrolhadas. Os jardineiros desapareceram e as rosas não mais floriram. Eu me perguntava: como isso tudo acabará? O que será de nós?
As calçadas, abandonadas, já não eram mais o ponto de reunião e de animadas brincadeiras das crianças do quarteirão. Por isso a janela ficou muito tempo fechada. Era menos triste do que permanecer aberta para o silêncio e o nada.
A vida estava do avesso. E o avesso se tornou o lado certo para se tentar sobreviver.
Até esta manhã. O ruído de rodinhas de bicicletas, e o infalível assovio dos meninos chamando os outros para a rua, logo cedo, deram a ideia de que ainda estamos vivos.
Tímidas, as crianças começaram a chegar, trazendo bolas, boliches, piões e outros brinquedos.
Logo a gritaria se instalou, naquele caos que só as crianças sabem organizar e nele se entendem.
Havia sol na manhã. Abri a janela. Era outra paisagem ou eu já me esquecera como eram as manhãs ensolaradas do lado de fora dessa janela?
Encantada, deixei-me ficar ali por horas, assistindo jogos e disputas. Admirada da resiliência desses humaninhos que não se deixaram aniquilar pela desesperança que dominou os adultos durante a peste. E que voltavam à vida com todo o ardor de quem sempre acreditou.
As mães chamaram para o almoço. E eles se foram. Provavelmente ficaram em casa para os estudos online.
Mas minha janela permaneceu aberta.
Para celebrar a vida. Ainda estamos vivos. Somos sobreviventes desse ano de horror e medo.
Perdemos pessoas queridas. Choramos mortes. Mas nós sobrevivemos.
E de todo esse caos que tivemos de enfrentar, vejo que renasceremos um dia, e esse dia está próximo.
Nunca mais haverá o mundo livre que já conhecemos e vivemos. Os sorrisos – depois que for abolido o uso compulsório dessas horríveis máscaras – não serão os mesmos. Porque as almas entristeceram. A espontaneidade dos abraços dos antigos encontros será substituída por frios acenos distantes. O medo também foi compulsório. E abraçar alguém se tornou perigoso.
A maior morte que enfrentamos nessa experiência foi dos sentimentos. Famílias separadas. Abraços, aconchegos, beijos, proibidos. Encontros desmarcados. E tudo, durante esse ano, se resumiu ao medo e ausência. Tristeza e saudade.
E quem não teve medo foi obrigado, do mesmo jeito, a se isolar. E foi apontado como negacionista, idiota, fronteiriço. Porque a ordem era dominar pelo medo. E sempre que alguém não se curva às imposições, torna-se malvisto. Subversivo. Ignorante do perigo.
Porque é preciso pensar com a manada. E andar no meio da manada. Ou será alvo fácil.
Foi muito triste ver que as pessoas simplesmente aderiram a uma ideia de perigo sem ao menos pensar, avaliar a situação, ter a opção de correr riscos. Apenas se deixaram dominar por uma ideia vendida pela mídia.
E assim um ano foi perdido. Vidas foram destruídas.
Mas aqueles que resistiram, aqueles que serão os primeiros a reagirem na hora determinada, estes terão forças para o recomeço e, quem sabe, até mesmo se tornarem motivação para que outros saiam das ostras e voltem à vida.
Porque haverá vida depois da peste. Disso tenho certeza.
Ainda cantaremos juntos nossas canções e celebraremos a vida que continua com brindes e alegria.
Empresas reabrirão, empregos serão restaurados. E, todos juntos, conseguiremos colocar novamente nossa vida, nossa família, nossa cidade e nossa Pátria de pé.
Todos os dias desses tempos de peste, eu tenho me preparado para o fim dela. Não pensava em me esconder, não receava adoecer nem mesmo morrer. Mas tinha a mente fixa no momento do renascimento, do recomeço.
Quero de volta minha vida nômade. Quero minha praia na manhã ensolarada. Quero minha mesa no bar ao anoitecer.
Cruzar estradas, mares e céu em busca de outros mundos, voltar à vida que sempre tive, sem rotina, sem parada, sem medo de morrer.
Escrever, publicar, discutir – com pessoas e não com letras ou imagens de computador – e ver brotar a vontade de viver e de seguir adiante, construindo um futuro não só para mim, mas para todos os que vêm e virão depois de mim.
Vou deixar meu legado de luta e disposição para ajudar nas mudanças que a humanidade precisa para não sucumbir ao voraz apetite do consumismo nem à falta de liberdade das dominações.
Ainda brindarei com muitos outros resistentes nossa vitória sobre o medo e – mais importante – sobre a dominação pelo medo.
Porque os homens se levantarão e voltarão à vida com a vontade de crescer e de vencer que demonstravam antes que fossem engolidos pela onda de medo que dominou o mundo.
E tenho planos, muitos planos, para recomeçar do ponto onde parei para me recolher nesse isolamento não desejado. Eu sobrevivi. E honrarei o destino que me deixou viver quando tantos sucumbiram, física ou emocionalmente, diante de um vírus.
Assim foi meu dia de renascer, quando tive a certeza de que estamos de volta.
Agora, quando chega a noite com a doçura da lua crescente – símbolo maior da esperança de que virão as noites de lua cheia – é o momento de fechar minha janela. Apenas por uma noite, porque será aberta todas as manhãs. Será aberta pelo simples motivo que estou viva.
Mas hesito a fechá-la: o calor do dia e a brisa do anoitecer ativaram todo o perfume das flores, e fico mais uns minutos com minha janela aberta, para voltar a sentir a delicadeza do doce perfume das madressilvas em flor
.

(Imagem: banco de imagens Stock)

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