Texto de Victor Fernandes

Mesmo se eu não for o amor de sua vida,
nessa vida nossa cheia de amores,
que eu seja alguém que te fez bem,
que contribuiu para a sua felicidade,
que cuidou de você, que plantou bons sentimentos.

Se eu não for o amor da sua vida
que eu seja alguém marcante, alguém importante
alguém que deixou lembranças boas,
aprendizados e que você sempre
leve com carinho dentro do seu coração

se eu não for o amor da sua vida
que eu seja aquele amor bom,
aquele amor leve, aquele amor que 
de algum jeito, é para sempre
dentro da gente

Se eu não for o amor da sua vida
que eu chegue bem perto disso
que chegue absurdamente perto
e quase não dê pra dizer
que eu não fui

Porque não me importa, de verdade,
se eu vou ser chamado de 
o amor da sua vida, ou não
o que importa é aquela bonita certeza
de que eu cuidei direito do seu coração.

(mas eu acho que sou, viu?

(Imagem: banco de imagens Google)

Memória – A mulher livre

Je me sens libre comme une bulle de champagne / Libre d’escalader les montagnes. / Moi j’ai mon visa pour le folies / J’ai mon passeport couleur de la vie. (Visa pur les beaux jours, Eddy Marnay).

Mulher Livre Feliz Que Aprecia No Por Do Sol Do Mar Mostrado Em Silhueta  Contra Foto de Stock - Imagem de silhueta, mulher: 40752536

Ser livre. Apenas e singelamente livre. Parece fácil.     

Mas não é nada fácil.       

Principalmente para as mulheres, as quais, assim como eu, são nascidas no milênio passado, na década pós Segunda Guerra.     

A partir do final dos anos 60 demos nosso grito de liberdade. Mas isso não nos fez livres.     

Muitas mulheres têm a alma livre, mas o corpo prisioneiro de um sistema que esmaga a essência feminina e a amolda a uma ideia preconcebida de ideais, que não passam de uma intensa forma de dominação/submissão.

Uma mulher livre é assustadoramente forte. Para ser livre, é preciso muita coragem, porque é bem mais fácil, mais cômodo e mais seguro, acovardar-se atrás de um casamento, de um homem, de uma situação já estabelecida, em um caminho já trilhado e que já se sabe onde vai chegar.     

Ser livre é ser a única responsável por todos seus atos e suas consequências. Trabalhar e ganhar o suficiente para pagar suas contas e bancar seus luxos. Ter coragem para sair da gaiola e voar, sabendo que nunca voltará. Pisar solos desconhecidos para trilhar seu próprio caminho, mesmo que não saiba onde conseguirá chegar.     

Ser livre é ter a coragem de enfrentar o preconceito e a maledicência invejosa daquelas que optaram pela gaiola.

E também a condenação pelos homens que têm medo de uma mulher livre e do estrago que ela fará no mundo deles se ela propagar suas ideias de liberdade e mostrar que é feliz, sim, assumida, e, principalmente, LIVRE.

Uma mulher livre jamais será domesticada. Poderá até mesmo se casar. Mas manterá intacta sua liberdade – econômica, afetiva e emocional. Porque ela só precisa dela mesma para viver e ser feliz. Se alguém quiser DIVIDIR essa liberdade e essa felicidade, tudo bem. Mas terá de respeitar sua liberdade.     

Uma mulher livre, além de corajosa, é solitária. Porque, em geral, espanta os algemados da vida. Assusta com sua liberdade.     

Essa mulher livre assume seus atos e não precisa de muleta nem de desculpas. Simplesmente vive e aceita a vida como ela é. Enxerga outras cores, escuta outros sons, vive em outro mundo – sem correntes nem prisões.

A liberdade não está exatamente nos atos que ela pratica. A liberdade está na sua alma, no seu pensar. A liberdade é sua essência. Exerce essa liberdade dizendo “Não”. Porque liberdade é a possibilidade de dizer “Não” às situações que não admite. Seja usar burca, seja não poder exercer uma profissão, seja não poder externar uma opinião, seja decidir ter ou não ter filhos. 

Essa mulher vê o mundo com seus próprios olhos, e, se, por acaso, marcha em outro passo, é porque ela ouve a batida de outro tambor que não aquele do pelotão. A mulher livre não é a ovelha negra da família. Geralmente ela é o próprio lobo. Que respeita sua família, mas não pode ser enquadrada em uma forma que não é seu número.

Sua solidão não é negativa nem traz sofrimento. É seu modo de ser.     

Não são muitas as mulheres realmente livres, porque até nos dias de hoje, as mulheres são direcionadas a se tornarem apêndices. Dos pais. Dos irmãos. Dos maridos. Dos patrões.

As mulheres livres não são escravizadas por vozes que ditam modas ou modismos. Vaidosas, sim, mas no limite da vida saudável. Não se conduzem em razão das determinações estéticas ditadas por quem não é livre, nem bonito, nem exemplo. Não são passíveis se serem contidas por opção do mercado visando o consumismo, nem por outras mulheres, nem por imposições sociais absurdas.

Aquelas que, sem medo, ousam exercer sua liberdade, são tachadas de loucas.

É mais fácil rotular do que apoiar ou tentar entender.      

Loucas, malucas, doidas. Porém livres.

(Imagem: banco de imagens Google)

Vamos flutuar?

Saudade do meu terraço à beira-mar, daquele bar à meia luz, da tarde que cai, de contar aquela velha história, daquela vida, daquele viver e conviver, daquele beijo…

Eu, você, nós dois

Aqui neste terraço à beira-mar

O sol já vai caindo e o seu olhar

Parece acompanhar a cor do mar

Você tem que ir embora

A tarde cai

Em cores se desfaz,

Escureceu

O sol caiu no mar

E aquela luz

Lá em baixo se acendeu…

Você e eu

Eu, você, nós dois

Sozinhos neste bar à meia-luz

E uma grande lua saiu do mar

Parece que este bar já vai fechar

E há sempre uma canção

Para contar

Aquela velha história

De um desejo

Que todas as canções

Têm pra contar

E veio aquele beijo

(Tom Jobim)

Poesia da casa – As naus

As naus partiram
Uma a uma, deixaram o porto
E se foram para sempre
O grande mar as tragou
E elas sumiram
Num horizonte sem fim
Num balanço sem volta

As naus partiram
Como todos os amores
Que um dia deixam a alma
E se vão, mar da vida afora
Em busca de novos horizontes
Sem se importarem com a dor causada
Vão, felizes, seguindo as ilusões

As naus partiram
E aquele porto, agora vazio,
Guarda apenas o inútil cais
Que vê as naus diminuírem
Na medida que se afastam
As mesmas naus, ingratas,
Que sequer olham para trás

As naus partiram
Ignorando o pranto do cais
Que suporta tanto abandono
Que tanto pedia “leva-me junto,
Nau amada, não me deixes aqui”
E o cais, desesperado, agora vago,
Deixado para sempre no velho porto...
As naus partiram
Para quem parte, a aventura
A conquista, a novidade
E, para quem fica
O vazio do porto onde,
Até então, se abrigavam
Na ternura do cais amoroso

As naus partiram
Deixando um vácuo de amor, de paixão
E de vontade de viver
Um rastro de pranto dolorido
Um cais destroçado e ferido
Onde tudo é saudade
Tudo é angústia, desolação

As naus partiram
Chora o cais o desespero solitário
De se ver sozinho, sem porvir
Tudo ficou triste, vazio, 
Neste cais, coração abandonado, e sabe
Que as naus partiram
E não voltarão jamais

(Imagem: banco de imagens Google)

Para hoje, tudo isso… Desejos vãos… (Florbela Espanca)


Eu queria ser o Mar de altivo porte

Que ri e canta, a vastidão imensa!

Eu queria ser a Pedra que não pensa,

A pedra do caminho, rude e forte!


Eu queria ser o Sol, a luz imensa,

O bem do que é humilde e não tem sorte!

Eu queria ser a árvore tosca e densa

Que ri do mundo vão e até da morte!


Mas o Mar também chora de tristeza...

As árvores também, como quem reza,

Abrem, aos Céus, os braços, como um crente!


E o Sol altivo e forte, ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia!

E as Pedras... essas ... pisa-as toda a gente! ...