Poesia da casa – A poesia da chuva

Acho que nunca mais vai parar de chover… então trago novamente esse poema…

Sim, há poesia na chuva. A água que docemente cai do céu, limpa o ar, renova a vida.

Há poesia na chuva. Que cai em gotas como se fosse o pranto celestial por essa humanidade ingrata e violenta.

Há a poesia de um guarda-chuva unindo dois corpos que caminham pelas calçadas da cidade, sem pressa, sem preocupação, celebrando o amor.

Há poesia no corpo preguiçoso, que escolhe a tarde de chuva para ficar na rede da varanda, vendo os pingos correrem pelos telhados, ouvindo o doce murmúrio nas calhas e condutores.

Há poesia no canto dos pássaros que celebram a chuva e ávidos esperam que ela acabe para buscarem os bichinhos que surgirão nos gramados.

Há poesia no barulho gostoso e ritmado das gotas nas janelas.

Há poesia no cheiro da chuva que invade as narinas e nos remete a verões antigos, cozinhas toscas, fornos de lenha.

Há, ainda, poesia na chuva, que deixa, atrás de si, o radioso rastro de um lindo arco-íris...

(Imagem: foto de Maria Alice)

Les Voyageurs – de Bruno Catalano

Não há como apreciar essa esculturasem se emocionar, sem aquele aperto no peito de ver alguém deixando para trás a própria vida para tentar sobreviver…

Bruno Catalano, escultor francês, nos brinda com esse trabalho extraordinário – Les voyageurs ou I viaggiatori ou Os viajantes.

O escultor desconstrói a figura humana e retrata o imigrante: ele se vai, leva sua bagagem e parte de seu corpo. Porque não consegue partir por inteiro – sua alma, sua essência, seu amor ficarão na terra natal. A fragilidade de quem se vai, deixando tudo para trás.

Há várias dessas esculturas espalhadas em portos, estações de trem e outros locais de partida de imigrantes. A obra aqui destacada está no porto de Marseille, na França.

Texto de Ângela Caboz – Teu silêncio

Sabes a que cheira um silêncio, ou então, qual é a forma da saudade.

Claro que não sabes!

Os sentimentos são como as estrelas brilham no escuro, misturando-se com a luz.

Estão para lá da linha dos olhos e brilham dentro de nós.

O nosso silêncio, esse eu sinto-o na minha pele, ainda antes mesmo das tuas mãos me tocarem.

O nosso silêncio arrepia-me com a brisa do teu desejo. Eu sinto-te até quando não estás.

Tu és o ruído do meu sentir, as mãos que massajam os meus sonhos.

Sinto-te a deslizar para dentro de cada um deles, para que o nosso silêncio nunca acabe.

A saudade, por vezes, bate na minha porta e essa chega sempre com as formas do nosso amor.

Tem a forma exacta dos meus sonhos, aqueles onde o nosso amor se encaixa em tudo o que somos.

Ela chega e vai espalhando o teu cheiro pelos quatro cantos da casa.

Vai soprando o som das tuas palavras pelo ar que eu respiro.

A saudade grita por ti e eu respondo-lhe que já senti o cheiro da tua voz , num amo-te que roçou agora mesmo os meus ouvidos.

Digo-lhe que senti esse sopro que me empurrou para cima da cama, onde tu ontem me amaste em silêncio.

Onde o teu beijo deixou as marcas da paixão que sentimos para que a razão não multiplicasse as dúvidas julgando que uma simples distância poderá ser superior à proximidade de tudo o que sentimos.

É tão tonta a saudade, que julga que a razão pode suicidar o que nós fazemos de eterno.

O teu silêncio tem o meu cheiro e tua saudade tem a forma do meu amor. Nasci assim, já vivendo dentro deste amor.

Da série “Foi poeta, sonhou e amou na vida” – 17 – Paul Géraldy

Paul Géraldy (pseudônimo de Paul Lefèvre, Paris, 06 de março de 1885 – Neuilly-sur-Seine, 10 de março de 1983) foi um dramaturgo e poeta francês.

Paul Géraldy nasceu em París em 1885 onde fez seus estudos. Publicou em 1908 seus primeiros poemas no livro intitulado “Les Petites Ames” (As pequenas almas, em uma tradução livre). Em 1912 ele volta em sua segunda obra poética de nome “Toi et moi”, traduzido para o português por Guilherme de Almeida com o título de Eu e Você, em 1932.

Seu sucesso como poeta foi tão grande que tende-se a negligenciar seu sucesso no teatro onde iniciou escrevendo a peça “Les noces d’argent” de 1917. Ficou eternamente conhecido como o poeta das mulheres e das coisas do coração, Paul Géraldy só voltaria a cena poética em 1960 com o livro “Vous et moi” que teve uma ótima crítica ainda na época.

(Fonte: Wikipédia)

Sabedoria

Não sejamos muito exigentes:
nem sempre a sorte é acessível
a todo mundo, a toda a gente.
Ela é só dos menos sensíveis,
ou dos ricos, naturalmente…
Não desejemos o impossível.
Devemos estar contentes
de ser quem somos:
simplesmente namorados intermitentes
loucamente se namorando
de vez em quando.
É já uma grande cousa a gente
ser dois, à parte, entre os mortais,
dois que se bastam mutuamente
e não se aborrecem demais.
E somos mais exigentes,
se às vezes a alma ainda se sente
solteira e triste, isso é explicável:
temos um gênio insuportável…
ou somos muito inteligentes.


Meditação

A gente começa a amar
Por simples curiosidade,
Por ter lido num olhar
Certa possibilidade.

E como, no fundo, a gente
Se quer muito bem,
Ama quem a ama, somente
Pelo gosto igual que tem.

Pelo amor de amar começa
A repartir dor por dor.
E se habitua depressa
A trocar frases de amor.

E, sem pensar, vai falando
De novo as que já falou…
E então, continua amando
só porque já começou.

Vento e paixão (Memória)

Wo sollte man bei einem Tornado Schutz suchen? - myHOMEBOOK

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades? Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento. Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá.

Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento.

Sua essência é a liberdade.

(Imagem: banco de imagens Google)