
No quadrinho

Blog de de Alice – Alinhavando letras
A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –



Se eu um dia
te deixei
de escrever
não foi porque te
e s q u e c i …
Foi porque o que
te esqueceste
de levar e
deixaste em mim…
Ainda não cicatrizou
e dói cada vez
que lhe mexo,
às vezes basta
uma palavra e
o mar fica agitado,
as ondas tornam-se
demasiado grandes
e sinto-me a
a f o g a r …
É isso…
deixar os sentimentos
lá no fundo,
manter-me à tona
a boiar sem ter de
suster a respiração…
Ficar ali a ver
as nuvens a viajar,
as marés a passar,
sem mergulhar!
Não me esqueci
apenas
não quero
lembrar!
(Imagem: foto de Maria Alice)
“… E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível.” (Ruben Alves)

“Não é inverno, ainda…”, alguém vai dizer.
E eu respondo: “quem disse que não?”
Porque inverno não é apenas uma estação do ano, quase desconhecida aqui nesse país tropical. Inverno é uma estação da alma. Inverno é uma estação da vida.
Quando nos condenaram a esse isolamento social, colocaram-nos no inverno social.
Quando deixamos de voar porque precisamos de outra asa para formar um par, estamos no inverno afetivo.
Quando mais do que sozinhos, estamos sem a pessoa que amamos e queremos a nosso lado, nossa alma está no inverno.
E, por fim, quando a juventude já ficou muito longe, a maturidade também se foi, juntamente com as forças e as ilusões, já não somos mais capazes de sonhar, estamos no inverno da vida.
Quantas vezes derrapamos, tropeçamos, caímos na vida. Mas continuamos. De algum lugar insuspeito tiramos as forças e retomamos a luta. Por nós, por alguém, por outros.
Não podemos parar na queda e continuar caídos, ou seremos tragados pela crueza do existir.
Então sempre nos levantamos. E nossa força não reside em não cair. Mas em se levantar depois da queda e seguir adiante.
Quedas reais e figuradas.
Em minha vida, mais figuradas do que reais. Mas quedas. Algumas feias. Que machucaram muito. Deixaram cicatrizes – feias tatuagens na alma, que era tão delicada.
Leio novamente essa frase do insuperável Rubem Alves.
E penso, que, realmente, sempre descobri um novo verão dentro de mim.
Por isso segui em frente. Por isso estou aqui. Em pleno inverno da vida, descobrindo, ainda invencíveis verões.
Mas, para atingir esses verões, terei de passar, com toda a paciência, por outras primaveras.
(imagem: banco de imagem Google)

Mi táctica es mirarte aprender como sos quererte como sos mi táctica es hablarte y escucharte construir con palabras un puente indestructible mi táctica es quedarme en tu recuerdo no sé cómo ni sé con qué pretexto pero quedarme en vos mi táctica es ser franco y saber que sos franca y que no nos vendamos simulacros para que entre los dos no haya telón ni abismos mi estrategia es en cambio más profunda y más simple mi estrategia es que un día cualquiera no sé cómo ni sé con qué pretexto por fin me necesites.
(Imagem: banco de imagens Google)
Eugénio de Andrade (1923-2005) foi um dos maiores poetas portugueses contemporâneos. Tem obras publicadas em várias línguas. Recebeu o Prêmio Camões, em 2001.

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Frontinhas Neto, nasceu em Póvoa de Atalaia, pequena aldeia da Beira Baixa, Portugal, no dia 19 de janeiro de 1923.
Filho de camponeses, após a separação dos pais, passou sua infância em companhia da mãe. Com sete anos de idade mudou-se com a mãe para Castelo Branco.

Em 1932 muda-se para Lisboa, onde frequentou o Liceu Passos Manuel e a Escola Técnica Machado de Castro. Em 1935 já mostrava seu interesse pela leitura, passando horas nas bibliotecas públicas. Em 1936, Eugénio de Andrade começou a escrever seus primeiros versos.
Em 1939 publicou seu primeiro poema “Narciso”. Pouco tempo depois passou a assinar com o nome “Eugénio de Andrade”.

Em 1947, já em Lisboa, tornou-se funcionário público, exercendo durante 35 anos a função de inspetor administrativo do Ministério da Saúde.
Em 1948 publicou o livro “As Mãos e os Frutos”, que recebeu elogio dos críticos literários. Em 1950 foi transferido para o Porto. Em 1956 morreu sua mãe, que tinha sido sua grande companheira. O poeta levava uma vida reservada, vivia distante da vida social e pouco aparecia em público.

Paralelamente ao cargo público, Eugénio de Andrade publicou mais de vinte livros de poesia, publicou obras em prosa, antologia, livro infantil e traduziu, para o português, livros do poeta Frederico Garcia Lorca, José Luís Borges, René Char. (Fonte: ebiografia)

As palavras
São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras? Adeus Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, E o que nos ficou não chega Para afastar o frio de quatro paredes. Gastámos tudo menos o silêncio. Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, Gastámos as mãos à força de as apertarmos, Gastámos o relógio e as pedras das esquinas Em esperas inúteis. Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada. Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro, Era como se todas as coisas fossem minhas: Quanto mais te dava mais tinha para te dar. Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes. E eu acreditava. Acreditava, Porque ao teu lado Todas as coisas eram possíveis. Mas isso era no tempo dos segredos, Era no tempo em que o teu corpo era um aquário, Era no tempo em que meus olhos Eram realmente peixes verdes. Hoje são apenas os meus olhos. É pouco, mas é verdade, Uns olhos como todos os outros. Já gastámos as palavras. Quando agora digo: meu amor, Já se não passa absolutamente nada. E no entanto, antes das palavras gastas, Tenho a certeza De que todas as coisas estremeciam Só de murmurar o teu nome No silêncio do meu coração. Não temos já nada para dar. Dentro de ti Não há nada que me peça água. O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.