Butch Cassidy and the Sundance Kid, dirigido por George Roy Hill, com trilha sonora de Burt Bacharach
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Poesia da casa – As naus

As naus partiram
Uma a uma, deixaram o porto
E se foram para sempre
O grande mar as tragou
E elas sumiram
Num horizonte sem fim
Num balanço sem volta
As naus partiram
Como todos os amores
Que um dia deixam a alma
E se vão, mar da vida afora
Em busca de novos horizontes
Sem se importarem com a dor causada
Vão, felizes, seguindo as ilusões
As naus partiram
E aquele porto, agora vazio,
Guarda apenas o inútil cais
Que vê as naus diminuírem
Na medida que se afastam
As mesmas naus, ingratas,
Que sequer olham para trás
As naus partiram
Ignorando o pranto do cais
Que suporta tanto abandono
Que tanto pedia “leva-me junto,
Nau amada, não me deixes aqui”
E o cais, desesperado, agora vago,
Deixado para sempre no velho porto...
As naus partiram
Para quem parte, a aventura
A conquista, a novidade
E, para quem fica
O vazio do porto onde,
Até então, se abrigavam
Na ternura do cais amoroso
As naus partiram
Deixando um vácuo de amor, de paixão
E de vontade de viver
Um rastro de pranto dolorido
Um cais destroçado e ferido
Onde tudo é saudade
Tudo é angústia, desolação
As naus partiram
Chora o cais o desespero solitário
De se ver sozinho, sem porvir
Tudo ficou triste, vazio,
Neste cais, coração abandonado, e sabe
Que as naus partiram
E não voltarão jamais
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Florbela Espanca – Outonal

Caem as folhas mortas sobre o lago; Na penumbra outonal, não sei quem tece As rendas do silêncio... Olha, anoitece! - Brumas longínquas do País do Vago... Veludos a ondear... Mistério mago... Encantamento... A hora que não esquece, A luz que a pouco e pouco desfalece, Que lança em mim a bênção dum afago... Outono dos crepúsculos doirados, De púrpuras, damascos e brocados! - Vestes a terra inteira de esplendor! Outono das tardinhas silenciosas, Das magníficas noites voluptuosas Em que eu soluço a delirar de amor...
(Imagem: banco de imagens Google)
Poesia da casa – da paixão

E eu pensei que partia Que era livre, nada a me prender Então parti. Fui embora Sem rumo, sem Norte Apenas fugi. De tudo. De todos. E, principalmente, de mim. No impacto da coragem Não pensava em mais nada Estava, finalmente, livre! Livre! Busquei estradas, percorri atalhos Deitei em bosques, nadei em remansos Era só para mim que as nuvens dançavam O céu era inteiramente meu As estrelas sorriam e piscavam para mim Mas logo o encanto se perdeu A angústia voltou a me perturbar O que eu queria? O que eu buscava? O escuro novamente se fez em minha alma E, vi, com tristeza, que não era livre Apenas fugira de um lugar Mas não encontrara a liberdade Porque trazia comigo, dentro do meu peito A prisão que me limitava, A tristeza infinita Da saudade eterna que habita Dentro do meu mais profundo existir E não deixa minha alma voar: A terrível gaiola da paixão...
(Imagem: banco de imagens Google)
Dia de poesia – Domingos Carvalho da Silva – Poema Explicativo

Inúteis são os voos. Inúteis são os pássaros. Silenciosas sombras tudo extinguem. Como as vagas de um mar longínquo e frio, são de inúteis palavras estes versos, pois o calado tempo esmaga tudo. Moro num rio inútil que caminha entre margens de musgo e subalternas pontes e águas que reflectem estrelas, luminárias, desencanto. Os peixes não obstante já não dormem. São inúteis os sonhos e as amarras que nos prendem ao cais. E o sangue que nos leva em artérias eléctricas de desejo. Já somos todos poetas — e a poesia é inútil — antepassados simples de um futuro remoto onde seremos sinais na rocha, apenas. Germinará o trevo entre os alexandrinos e nenhum pássaro compreenderá o sentido das páginas dispersas sobre a areia. Estas palavras nuas se transformarão em pó, em lodo, em traças e raízes.
(Imagem: foto de Maria Alice)
Não chores por teus mortos – Desconheço a autoria

Sabias que quando choras pelos teus mortos, choras por ti e não por eles? Choras porque os "perdeste", porque NÃO os tens ao teu lado. Achas que tudo termina com a morte. E achas que eles já não estão. Então, se os teus mortos já não estão, onde estão? Se eles se foram, ou agora estão noutro lugar, esse lugar é melhor do que este? Sim, definitivamente esse lugar é melhor do que este. Então por que sofres com a partida deles? Quando acabares por aceitar que eles já “NÃO estão aqui”, mas que eles estão noutro lugar ainda melhor do que este, pois onde eles estão já não estão doentes nem a sofrer, então vais parar de chorar e recuperá-los na memória para que eles te continuem a acompanhar com a alegria de tudo que já viveram. Não morras com os teus mortos. Revive-os no teu coração. Se tu realmente os amavas, VOLTA a amá-los e desta vez com maior força, com maior pureza. Com maior entrega. Bem, não haverá mais censuras de nenhum tipo. Só o amor será a essência entre vocês, entre eles e nós - a essência do amor incondicional. Agora o teu amor será puro e incondicional. Já não os amamos por necessidade ou medo. Nós respeitamos a tua dor, e a tua maneira de a expressar. Nós sabemos que choras e chorarás sem consolo. Mas... Hoje nós dizemos-te: Não morras com os teus mortos. Deixa-os partir, como partem as andorinhas no Outono, para nidificarem noutros climas e voltarem mais numerosas e crescidas, noutra Primavera. Deixa-os voar para a Fonte do Amor de que estão ansiosos por partilharem connosco. Enxuga as tuas lágrimas e ama-as. Lembra-te que nós só estamos a ver um lado da moeda. Não estamos a ver o outro lado. Nós não estamos a ver o lugar maravilhoso de luz onde eles estão. Que tal começarmos a ver a “morte” como um segundo nascimento? Segundo Nascimento pelo qual TODOS passaremos. Nascimento este que nos une, aqui e além. Não morras com os teus mortos... honra-os vivendo a tua vida como eles gostariam que tu fosses.
(Imagem: banco de imagens Google)