A todas as pessoas que passaram pela minha vida; às que ficaram e às que não ficaram; às pessoas que hoje são presença, àquelas que são ausência ou apenas lembrança… – desde 2008 –
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Blogueira, escritora, poeta... porque escrever é preciso
Carrego seu coração comigo Eu o carrego no meu coração Nunca estou sem ele Onde quer que vá, você vai comigo E o que quer eu que faça sozinho Eu faço por você Não temo meu destino Você é meu destino, minha doçura Eu não quero o mundo por mais belo que seja Porque você é meu mundo, minha verdade.
Eis o grande segredo que ninguém sabe. Aqui está a raiz da raiz O broto do broto e o céu do céu De uma árvore chamada vida Que cresce mais que a alma pode esperar ou a mente pode esconder E esse é o prodígio que mantém as estrelas à distância.
Eu carrego seu coração comigo Eu o carrego no meu coração.
(Um ano e seis meses de pandemia – por isso a impossibilidade de viajar doeu tanto para mim neste tempo estranho…)
Que correria no dia-a-dia. Mas me mantenho firme no propósito de postar aqui diariamente.
Enquanto conseguir…
Trabalho, família, escritos, quatro casas para administrar…
Por viver essa vida tão corrida e sem rotina, recebi há algum tempo o título de “administradora do caos”. Não me ofendi.
Pensei que, se conseguir, realmente, administrar o caos, já estarei fazendo muito.
Porque não é fácil não morar de verdade em nenhum lugar, não ter parada, ficar indo de um lugar para outro, vivendo à moda nômade.
Sou cigana do século XXI. Cigana do Terceiro Milênio.
Lembro-me dos belos ciganos húngaros, que nos receberam naquela noite mágica, e me pergunto se algum dia voltarei lá, para jantar novamente num sítio nos arredores de Budapeste, vendo a neve caindo suavemente sobre o azul Danúbio.
E, depois de saborear um inigualável goulash original, feito por mãos ciganas, acompanhado de vinho feito em casa naquele sítio no meio do nada, passar o resto da noite dançando as danças típicas com uma família cigana.
Não sou desse tipo de ciganos, aqueles que têm sua pequena propriedade e passam a vida morando no mesmo lugar.
Talvez tenha, na verdade, raízes nômades de outros lugares, das tribos de beduínos que atravessam sem cessar os desertos, a procura de tudo e ao encontro de nada.
O silêncio do deserto me atrai. A solidão também. Mas não o calor.
Ou apenas carrego nos ombros mais do que posso realizar, então fico nesse vai-e-vem cumprindo agendas alheias, tentando dar conta de três ou quatro vidas em uma.
Mas aí teria de somar todas essas vidas aos meus já tantos e tão cansado anos e seria muito velhinha para estar dando conta.
Então continuo só tentando entender porque não consigo parar numa casinha de porta-e-janela e ali plantar meus temperos e minhas flores e ficar sossegadinha em uma cadeira de balanço, sonhando o que já foi e esperando, com tranquilidade, a morte chegar.
Às vezes penso que sou feita só de saudade, por isso a distância existe – para que eu também possa existir…
Não há Drummond, Vinicius ou Neruda que consiga cantar a saudade que sinto. Essa saudade é tão minha, tão carne, tão sangue, que outros não a pressentem nem sentem. Só eu posso tê-la, senti-la, descrevê-la. É o que mais tenho de meu nessa vida: essa saudade, companheira inseparável, péssima conselheira, grande estimuladora de bobagens, bebedeiras, e lágrimas.
Porque sentir saudade é viver do que não há; é tentar forçar a realidade dentro da névoa do esquecimento; é tentar esquecer dentro do whisky; é chorar, chorar e chorar…
A vida, muitas vezes, é leve, mas a saudade que arrasto tem um peso imensurável.
A presença é pouca, é pequena. Mas a ausência, ah, essa é ilimitada. E a saudade que a ausência traz é de tamanho indescritível.
E por isso o sorriso se torna raro. A alegria se esgarça.
Caminho, levando comigo o fardo e a doçura dessa imensa saudade. Que se tornou, depois de tanto viver a meu lado, a única e fiel companhia que tenho.
Não vejo a vida como as estações do ano, terminando com o triste inverno depois do longo outono. Prefiro medir a minha vida pelas floradas anuais.
Tudo se repete com tanto ritmo, até nos faz pensar que vivemos repetidamente a mesma história. Não há um novo ano, mas o mesmo ano se repetindo indefinidamente enquanto vivemos…
No início, a profusão dos verdes – muita chuva, gramados, samambaias, heras, os intensos verdes contrastando com o azul forte do céu.
Então o calor se acalma e vêm a temporada das quaresmeiras em flor. A cidade coberta de tons de rosa, desafiando os olhos para conseguirem enxergar tanta beleza.
Em seguida, a explosão das flores das paineiras, outros tons róseos, que desaguam em uma neve branca cobrindo calçadas e praças quando a paina se liberta e é levada pelo vento.
De repente, entram os ventos de agosto – intensos, por vezes violentos, e a bandeira nacional se completa com o verde fazendo fundo para a profusão dos ipês amarelos colorindo lindamente a paisagem.
Os caminhos e gramados se tornam amarelos com as flores ali espalhadas.
Vão-se os ventos, vai-se agosto e irrompe setembro – o tão esperado setembro.
Explodem os ipês brancos, as calçadas se tornam uma sucessão de flores brancas, a vista descansa, sabendo que logo as chuvas retornarão – quanto mais secos os meses anteriores, mais linda a florada do ipê branco, que anuncia abundância de chuvas nos próximos meses.
A natureza se recolhe, pela seca prolongada. As flores se exibem, desesperadas para chamar a atenção e então receberem água.
Os ipês se despedem de suas flores, alguns ipês rosados resistem. Mas todas as flores se vão, tingindo as calçadas.
E começa a beleza ímpar, o arrebatamento dos flamboyants nas praças e nos canteiros de avenidas.
Originário do distante Madagascar, atingindo até 12 m de altura, com diâmetro da copa muitas vezes superior a esse número, traz a sombra para nosso calor tropical e enche de alegria nossos olhos com suas flores de fortes tons.
Realmente seu nome é adequado à sua florada – pois as flores flamejantes nos lembram exatamente o fogo ou as chamas de uma fogueira.
E vejo as mesmas ruas, agora vestida de tons alaranjados, avermelhados, tudo misturado dando a impressão de que as árvores se curvam sob flores em chamas.
E o calor avança, tropical e violento, e as flores rasteiras voltam a dominar a paisagem, desenhando os caminhos, colorindo os lugares, antes que tudo volte aos verdes originais, enquanto aguardam a próxima florada das quaresmeiras…