Difícil ser blogueira

Por vezes não é fácil ser blogueiro sem ser TI ou, pelo menos, aprendiz de ciberpirata, o conhecido  hacker…

Comecei meu blog há mais de uma década, no uol. Simplesmente um dia avisaram que o serviço seria “descontinuado”, a forma tucana de dizer que me deram um “passa moleque”. Pensei em desistir.

Mas sou brasileira, não desisto fácil. Tentei várias hospedagens, mas a internet não estã preparada para blogs de textos. Querem anúncios, frivolidades…

Conheci a WordPress. Recomecei pela décima vez. E tudo ia bem.

Até que inventaram esse sistema de “blocos”, muito apropriado para blogs comerciais. Quase impossível para textos. Um serviço que eu fazia em quinze minutos agora leva mais de uma hora.

Vendo que não desisto, agora apareceu uma faixa preta indecente no meio da página que limita meu texto.

Realmente, penso seriamente que agora acho que desistirei de vez. Direi, “OK, vocês venceram”, vou jogar a toalha, deitar meu rei de deixar de ser blogueira…

Memória do blog – há um ano – O Caderno da vida

O que está escrito no caderno da sua vida?

No dia em que você nasceu, recebeu um caderno com as folhas em branco e uma caneta, que deveria ser usada para nele escrever. Mas só poderia escrever o dia presente.

A cada dia, deve-se, com a caneta do livre arbítrio e a ações diárias, escrever uma página. Ao final, estará pronto o relato da sua vida, que deverá ser levado de volta quando for para sua solitária viagem sem retorno.

Não é possível voltar e corrigir nada nas folhas dos dias passados, e, da mesmo forma, uma trava impede de se ir adiante do dia presente e até mesmo de se ver quantas folhas existem no caderno da vida.

O que se escreveu, está escrito para sempre. O que se realizou, está realizado.

É permitido reler, à vontade, todas as folhas passadas.

Ver os erros, os acertos, as tristezas, as alegrias, as vontades satisfeitas e os desejos pendentes.

Muitas vezes, na iminência de repetir um erro, reler uma página leva a se mudar a vontade e a ação. Mas aquele erro passado, esse não como apagar nem mudar.

E a releitura do passado traz conforto emocional, saudades, lembranças.

Disso é feita a vida – o conforto de se ter a certeza da solidez dessa vida, as saudades de tantas pessoas que passaram por todos e cada um, e se perderam em cadernos alheios, e as lembranças de coisas, situações, cidades, tudo aquilo que se viveu buscando apenas ser feliz.

Quando se percebe, a parte preenchida já é bem mais volumosa do que a parte reservada ao futuro. É preciso aceitar a passagem do tempo, saber que há muitos mais ontens do que amanhãs.

E não se pode escapar dessa realidade: só restam algumas poucas páginas para escrever. Então se começa a tentar escrever mais devagar, fazer cada página render, colocando mais critério nas vontades, nas ações, nos desejos.

Até que um dia um vento qualquer abre o caderno em uma folha de um passado distante, mas que nunca passou de verdade, e a saudade obriga a se deixar tudo e buscar esse passado, não importando mais quantas folhas ainda restam, desde que se resgate aquele momento. E se tenha, então, a melhor parte da vida para escrever.

Assis Valente na pandemia

Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso, nessa noite, lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei a boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso, nessa noite, lá no morro não se fez batucada
Chamei um gajo com quem não me dava
E perdoei a sua ingratidão
E festejando o acontecimento
Gastei com ele mais de quinhentão
Agora eu soube que o gajo anda
Dizendo coisa que não se passou
E vai ter barulho e vai ter confusão
Porque o mundo não se acabou
Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar
Por causa disso a minha gente lá de casa começou a rezar
E até disseram que o sol ia nascer antes da madrugada
Por causa disso, nessa noite, lá no morro não se fez batucada
Acreditei nessa conversa mole
Pensei que o mundo ia se acabar
E fui tratando de me despedir
E sem demora fui tratando de aproveitar
Beijei a boca de quem não devia
Peguei na mão de quem não conhecia
Dancei um samba em traje de maiô
E o tal do mundo não se acabou

O fim

Sei que um dia morrerei. Nem cedo, nem tarde, nem antes nem depois. Apenas na hora marcada, no momento exato. 

Mas não me será dado o castigo de viver eternamente. 

A morte coroa a vida, como uma bênção.  

Há aquele tempo determinado que não podemos ultrapassar, ainda que não tenhamos a mínima ideia de qual é nosso tempo. 

De alguns, são minutos, de outros horas, dias, semana, meses e anos. Há ainda aos que são reservadas décadas e, para poucos, século.  

A todos, o mesmo fim – um dia hão de morrer.    

Tenho muitas décadas. Portanto, a cada novo sol, a cada nova lua, menos tempo tenho para continuar aqui, pois mais e mais me aproximo da curva no meu caminho.    

Esse é o destino – ou a sorte – de todos e de cada um.  

Não me furto, não me escondo, não penso muito nisso.    

Quero viver intensamente todos os dias da minha vida.  

Aproveitar todas as horas.  

Viver, apenas isso: viver. Viver como quem sabe que um dia morrerá.    

Não sei quem estará a meu lado quando chegar o momento de minha partida.   

Ou se estarei completamente sozinha – afinal, a maior parte da minha vida eu vivi sozinha.   

Se terei das mãos de alguém um pouco de amor e um gole de água para morrer acolhida.  

Não importa.   Nada disso importa.  

A única coisa que levarei comigo para onde eu for será essa paixão pela vida que sempre comigo esteve.  

A certeza que estive viva todos os minutos que vivi.  

Só isso.

(Imagem – Banco de imagens do Google)

O canto do canário

Foto de Canary Bird Inside Cage e mais fotos de stock de Animal - iStock
Era uma casa – um lar – vazia de amor e preenchida de gritos.   

A mãe, histérica e infeliz, gritava dia e noite com todos. O pai, quando em casa, colérico e egoísta, só falava aos berros.

Os filhos, crianças acuadas, de olhos amedrontados, só sabiam falar muito alto – ou não seriam ouvidos.

Até o coitado do cachorro latia em altos brados dia e noite. Quando, por um instante, ali se fazia silêncio, era possível ouvir, então, o doce canto de um canário.

Todos – com exceção do canário – incomodavam a vizinhança.

Mas ninguém reclamava. Afinal, além de ser recebido aos berros por qualquer um da família, além da ameaça de ataque do grande pastor alemão que guardava o quintal, a reclamação só faria aumentarem os gritos e as brigas.

Assim, em paz vivia a vizinhança, convivendo com a guerra daquela família.

Um acordo tácito unia a vizinhança: ignorar completamente a existência da infeliz família. Não havia como ajudar, então o melhor era não tentar interferir.

Vinha o inverno rigoroso, vinham as chuvas das monções, todos fechavam alegremente as janelas, pois ficariam livres da intensidade da interminável balbúrdia da casa vizinha.

Já nas tardes longas de verão, quando se queria gozar da fresca do anoitecer, vinha, de brinde no mesmo pacote, a gritaria sem fim. E, às vezes, por alguns momentos, o doce canto do pequeno canário.

E os anos se passaram.

O cachorro, já velho, morreu. Uma parte do barulho se foi.

As crianças, já mais crescidas, dedicavam seus dias aos estudos e à escola, e quase não se ouviam mais suas vozes. O que calou uma parte da algazarra.

A mãe, sem ter com quem gritar, passava boa parte do dia calada. O alarido diminuía dia a dia.

Assim, uma relativa paz reinava nas redondezas, sendo possível, apenas, ouvir o doce canto do pequeno canário em sua gaiola.

Entendi, então, que não era o doce canto do solitário canário, mas os gritos de desespero da pequena e doce – ela sim, doce – criatura, bradando contra as grades que a prendiam. Seu canto não era a liberdade de comemorar o silêncio reinante. Mas o grito pela própria liberdade.