O canto do canário

Foto de Canary Bird Inside Cage e mais fotos de stock de Animal - iStock
Era uma casa – um lar – vazia de amor e preenchida de gritos.   

A mãe, histérica e infeliz, gritava dia e noite com todos. O pai, quando em casa, colérico e egoísta, só falava aos berros.

Os filhos, crianças acuadas, de olhos amedrontados, só sabiam falar muito alto – ou não seriam ouvidos.

Até o coitado do cachorro latia em altos brados dia e noite. Quando, por um instante, ali se fazia silêncio, era possível ouvir, então, o doce canto de um canário.

Todos – com exceção do canário – incomodavam a vizinhança.

Mas ninguém reclamava. Afinal, além de ser recebido aos berros por qualquer um da família, além da ameaça de ataque do grande pastor alemão que guardava o quintal, a reclamação só faria aumentarem os gritos e as brigas.

Assim, em paz vivia a vizinhança, convivendo com a guerra daquela família.

Um acordo tácito unia a vizinhança: ignorar completamente a existência da infeliz família. Não havia como ajudar, então o melhor era não tentar interferir.

Vinha o inverno rigoroso, vinham as chuvas das monções, todos fechavam alegremente as janelas, pois ficariam livres da intensidade da interminável balbúrdia da casa vizinha.

Já nas tardes longas de verão, quando se queria gozar da fresca do anoitecer, vinha, de brinde no mesmo pacote, a gritaria sem fim. E, às vezes, por alguns momentos, o doce canto do pequeno canário.

E os anos se passaram.

O cachorro, já velho, morreu. Uma parte do barulho se foi.

As crianças, já mais crescidas, dedicavam seus dias aos estudos e à escola, e quase não se ouviam mais suas vozes. O que calou uma parte da algazarra.

A mãe, sem ter com quem gritar, passava boa parte do dia calada. O alarido diminuía dia a dia.

Assim, uma relativa paz reinava nas redondezas, sendo possível, apenas, ouvir o doce canto do pequeno canário em sua gaiola.

Entendi, então, que não era o doce canto do solitário canário, mas os gritos de desespero da pequena e doce – ela sim, doce – criatura, bradando contra as grades que a prendiam. Seu canto não era a liberdade de comemorar o silêncio reinante. Mas o grito pela própria liberdade.

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