Que saudades
Como pode alguém sentir saudades do que nunca houve
Como pode alguém sentir saudades do que nem viveu
É como estou hoje
Com saudades
Morrendo de saudades dos sonhos que criei
Chorando de saudades das horas que imaginei
Das histórias que sonhei
Hoje estou assim
Querendo que o tempo vá para onde eu quero
Para onde ele nunca esteve
Mas a saudade é tanta que me paralisa
É muita saudade
E nem aconteceu
E nada eu vivi
Como se pode sentir saudades de uma época que não existiu
De fantasias e de promessas que nunca se concretizaram
Por que sentir saudades de um futuro inventado
Quando há um presente imenso para se viver
Mas não se manda no coração
O coração é pretensioso e quase sempre faz o que quer
A razão até tenta dominar
Mas raramente consegue
E por causa do coração a gente faz um monte de besteira
E fica esperando, esperando
Esperando que tudo volte a ser como antigamente
Ou pior
Que tudo seja como criamos em nossos sonhos mais recorrentes.
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Dia de poesia – Alfred de Musset – Mars
Não quero ser pessimista.
Mas esse 1° de março não traz esperança – impossível não me lembrar de 1° de março de 2020, tantas alegrias, tantos planos, hotéis reservados, passagens compradas, e, como um inesperado soco na cara, o isolamento, a derrocada de tudo, um país de joelhos, um povo amordaçado e dominado pelo terror e pelo medo e tudo cancelado.
Tantos sonhos desfeitos, encontros adiados, emoções sufocadas.
Mesmo assim, nesse março cinzento que hoje se inicia, posto Alfred de Musset, para trazer um pouco de ternura ao coração.

Memórias – 27.02.2020
Há um ano postei essa publicação. Não imaginava que vinte dias depois estaria enfrentando essa situação bizarra, que estaria encerrada em uma casa, separada das pessoas que amo, amordaçada por uma focinheira que chamam máscara, e que viveria, a partir de 18.03 em um pesadelo de arbítrio e cretinice, a que quase todos cederam por medo. Medo do que? de morrer, a única certeza dessa vida. Por medo de morrer as pessoas se enterraram vivas. O medo de morrer é algo tão ridículo, tão sem sentido… todos morreremos. Essa é a verdade. Eu só queria viver.
VIVER Tocar as estrelas, desejar a lua, alcançar o céu Ter vontade de viver, com alegria e leveza Amar, amar, sem medida, sem limites, sem temores E se entregar à paixão plenamente para ser feliz Sonhar, voar, flutuar, não estar e não precisar ser Sem amarras, sem culpas, sem passado, só existindo E assim, feliz, seguir em frente, simplesmente viver
Dia de Poesia – Débora Zanon – Me busque
Me busque…
Me traga de volta…
Venha se preciso de muito longe.
Não telefone.
Não mande mensagens.
Só me resgate
Da prosaica prisão dos dias sem cor.
Dos mares rasos..
Vem ….
Quero me atirar em você .
Em silêncio
Falamos de mais
Precisamos nos calar
Usar a boca para explorar.
As mãos para agarrar.
Os corpos para entrelaçar.
Fica em silêncio
Vem me buscar.
Poesia da casa – Na estrada
Não sei se passo eu por essa estrada
Ou se é essa estrada que por mim passa
No asfalto – tão cinza e tão feio
Correm brancos riscos a meu encontro
Nos dois lados troncos fazem cercas
Cruzam rápidos, levando esticados
Tantas linhas feitas de arame farpado
Só para mostrar existir um limite invisível
Poste e torres correm com seus fios
Levam luz, levam calor, levam progresso
E ainda levam as boas e as más notícias
Cruzando com esses riscos brancos
Passo eu por estrada que não tem fim
Ou é ela, a estrada, que passa por mim?
Dia de poesia – Rosa Lobato Faria

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
– o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não sabe voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.