Dia de poesia – Florbela Espanca – Desejo

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre à luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do não ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mão tão branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carícia leve
Em doce perpassar de pétala de lis…

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!…
Ah, venha a morte, já, que eu morrerei feliz!…

Um outro dicionário

ADEUS: quando o coração que parte deixa metade com quem fica

AMIGO: alguém que fica para ajudar quando todos já se foram

CIÚME: quando o coração fica apertado porque não confia em si mesmo

ABRAÇO: quando nossa voz falha e nossos braços a substituem

CARINHO: quando encontramos nenhuma palavra para expressar que sentimos e deixamos que as mãos falem por nós      

LEALDADE: quando se prefere morrer a trair o outro

DOR: o nada que fica quando o outro nos abandona

LÁGRIMA:  quando o coração pede aos olhos que falem por ele

MÁGOA: espinho que colocamos no coração e depois esquecemos de retirar

ANGÚSTIA: a vontade de viver o outro lado da vida

DESESPERO: quando não podemos nem mesmo conversar com o outro

PESSIMISMO: quando perdemos a capacidade de ver em cores

SOLIDÃO – quando estamos cercados de pessoas mas o coração não vê ninguém por perto

Algumas reflexões

A escuridão cobre a luz, mas a luz transcende qualquer escuridão.

E o momento mais escuro da noite é aquele que precede o alvorecer.

Se para cada dia há o descanso de um anoitecer, ao final de cada noite vem a alegria de um amanhecer.

E é exatamente no momento em que fraquejamos e quase desistimos, encontramos em algum lugar secreto de nós, a força que nos faz tudo superar e seguir adiante. Chama-se esperança.

Sempre há um recomeçar em todas as situações que levam a um limite. E, se não consequências, são causas das transformações. Como a metamorfose da larva em crisálida e desta em borboleta. O fim de uma é o surgimento da outra. O mundo novo só pode começar quando desaparece por completo o anterior.

Se a crisálida se recusa a surgir e deseja continuar larva, nunca haverá a borboleta.

É preciso romper com o passado, com a situação atual, para que possa começar o futuro.

Agarrar-se ao que já foi, amarrar coisas, fatos e pessoas que já não fazem mais parte de nossa vida impede que se vá adiante. Um navio não navega depois de lançar a âncora. Fica preso em um ponto no meio da imensidão e perde sua essência, que é flutuar de um porto ao outro.

Não evoluir equivale negar nossa natureza humana, de seguir, fazer um caminho e chegar ao lugar que nos espera. Só o descobriremos se não desistirmos nem ficarmos amarrados no passado.

Entender que tudo passa, que precisamos romper com o passado e deixar o presente fluir para nos sentirmos vivos.

Diferenciar sensações e sentimentos. Valorizar apenas o que importa e não ter medo do desconhecido. Não olhar para trás. Ter a saudade como referência de onde viemos e para onde não devemos nunca voltar.

Libertar a alma para que voe livre e nos sinalize o caminho a ser trilhado, com a certeza de que, por mais escuros que sejam alguns momentos, encontraremos luz e alegria logo adiante. Nascemos para a luz, a alegria, o amor e a paixão. O restante é resultado da presença destes na nossa vida.

A luz – ainda que pequena, tem o poder infinito de romper qualquer escuridão. A alegria é o sal da vida. E, se o amor é pétala, a paixão é êxtase.

Conversa com meu avô – nº 13

Oi, vô, que saudade de nossas conversas.

Pois é, tudo corrido, nem parece que sou uma aposentada de quarentena, não é? Como assim, que vergonha, ter neta aposentada?????? Foram praticamente 40 anos de serviço, por mim até ficaria mais um ou dois anos, mas as circunstâncias não permitiram, vô, o senhor sabe. Noblesse oblige.

Nossa! Hoje o senhor trouxe uma lista de dúvidas, por escrito? Não sei se adiantará, porque eu que estou aqui, vivendo nesse Brasil velho de guerra, não estou entendendo nada também.

Diga lá, qual a primeira?

Complicada, mas não difícil, a resposta para essa questão.

O Presidente da República é um autêntico democrata. Por isso o senhor não o ouve falar a palavra democracia e não o ouve falar em estado democrático de direito. Porque esses termos são usados pelos comunistas. Simples assim.

Claro que não, vô, nenhum comunista esquerdopata é democrata. Mas só falam em democracia. Lembra-se da cartilha comunista, quando recomenda “acuse-os do que você é”? então, vô, essa é a tática.

Eles colocam dez idiotas na Av. Paulista para carregar faixas de democracia, os políticos de esquerda falam em preservar a democracia, enganam mais uma vez o povo, ignorante e lobotomizado, e posam de democratas santinhos. O que eles querem é tomar o poder e depois implantar o autoritarismo.

Exatamente, o que o senhor está vendo ocorrer na Argentina é o que pretendem aqui. Nossa última trincheira antes do comunismo é o atual Presidente da República. Se ele falhar, estamos perdidos.

Sei, até ministros de cortes superiores estão com essa conversinha mole de democracia. Mas tudo falsidade. Democracia é esse Presidente deixar esse Congresso aberto e essa corte existir.

Por que ainda estamos em isolamento?

Bem, vô, isso é uma longa história.

Quando essa doença apareceu na China e começou a se esparramar para o ocidente, o Presidente da República entendeu que deveríamos ter uma quarentena, enquanto o país se preparava para enfrentar a epidemia, que parecia ser inevitável.

Mas era começo de fevereiro, então o carnaval teria de ser cancelado. Claro que os governadores que lucram com essa besteira se posicionaram contra e a câmara federal não apoiou.

Veio o carnaval e uma intensa disseminação do vírus pelo país.

Aí os idiotas acordaram e começou a bagunça.

Um ministro do stf entendeu que só os governadores e prefeitos deveriam cuidar da epidemia – claro, com o dinheiro da União. E afastou o Presidente da República de qualquer decisão a esse respeito.

A quarentena inicial – isolamento horizontal – se destinava a dar tempo para os Estados se prepararem, com hospitais para atender os pacientes com o vírus, enfermarias, utis etc.

As verbas foram enviadas e quase nenhum hospital foi efetivamente preparado. Por isso até hoje não acabou a quarentena. Por incompetência ou outro motivo pior por parte dos governadores e prefeitos. Eles acham que qualquer dia o vírus vai pegar o navio de volta para a China. E a situação se agrava dia a dia.

Se continuar nesse andamento, ficaremos de quarentena para a eternidade. E ainda estamos obrigados ao uso de máscaras. Ridículo. E eu, com minha rinite alérgica, respirando gás carbônico, se não morrer de covid vou morrer de usar máscara…

Como assim, chega e não quer ouvir mais nada, vô? Cadê sua lista, lê a próxima dúvida.

Por que chega?

Concordo, dá nojo ver tudo isso. Mas tem coisa pior, por exemplo, ver os noticiários na tv, piorando mais ainda a situação.

Volta, vô, volta aqui e vamos continuar…

Ok, fica para outro dia, quando eu tiver notícias melhores, então.

Mas não suma, tá? Sinto falta de nossas conversas.

Pontas em laço

Não prenda, não aperte e não sufoque. Porque quando vira nó, já deixou de ser laço. (Mário Quintana)

Quantos laços buscamos, desejamos, sonhamos, cavamos nesta caminhada finita… porque somos apenas uma ponta, precisamos encontrar nosso outro lado e dar a laçada do carinho, do amor, da coexistência. Na família, nos amigos, nos amores… e queremos conseguir completar o laço da paixão.

Porém não é fácil, no meio de tantos caminhos paralelos, perpendiculares, cruzados, interrompidos, achar onde está nossa outra ponta. Quantas vezes nos enganamos e tentamos dar um laço com a ponta errada e fazemos confusão, porque a ponta não é nossa, há uma outra ponta nesse embaraço.

Até que um dia cismamos que encontramos nossa ponta. E vamos, aos poucos, chegando nela, tentando laçar, e ela foge, escorrega, desaparece, se mistura com outras pontas, deixamos de ter a certeza de que é a nossa.

Se puxarmos, ela grita que está sufocada.

E não é isso que queremos. Porque também não gostamos quando somos sufocados.

Deixamos correr mais frouxo, damos todos os espaços, sem perdê-la de vista. Vemos quando se enlaça em outras pontas, que não a nossa.

Muitas vezes nos encolhemos, enrolando-nos em nós mesmos, como um bicho ferido que se enrola em si próprio, tentando desistir, mas descobrimos que só conseguiremos ser laço se tocarmos a outra ponta.

Então insistimos. Um dia, por cansaço, desilusão, desesperança, algum motivo não revelado, ela se entrega. E nos enlaçamos. Suavemente, lindamente, como deve ser um laço.

Com todo o cuidado para não virarmos um nó.

Texto de Martha Medeiros – Strip-tease



Chegou no apartamento dele por volta das seis da tarde e sentia um nervosismo fora do comum. Antes de entrar, pensou mais uma vez no que estava por fazer. Seria sua primeira vez. Já havia roído as unhas de ambas as mãos. Não podia mais voltar atrás. Tocou a campainha e ele, ansioso do outro lado da porta, não levou mais do que dois segundos para atender.

Ele perguntou se ela queria beber alguma coisa, ela não quis. Ele perguntou se ela queria sentar, ela recusou. Ele perguntou o que poderia fazer por ela. A resposta: sem preliminares. Quero que você me escute, simplesmente.

Então ela começou a se despir como nunca havia feito antes.

Primeiro tirou a máscara: “Eu tenho feito de conta que você não me interessa muito, mas não é verdade. Você é a pessoa mais especial que já conheci. Não por ser bonito ou por pensar como eu sobre tantas coisas, mas por algo maior e mais profundo do que aparência e afinidade. Ser correspondida é o que menos me importa no momento: preciso dizer o que sinto”.

Então ela desfez-se da arrogância: “Nem sei com que pernas cheguei até sua casa, achei que não teria coragem. Mas agora que estou aqui, preciso que você saiba que cada música que toca é com você que ouço, cada palavra que leio é com você que reparto, cada deslumbramento que tenho é com você que sinto. Você está entranhado no que sou, virou parte da minha história.”

Era o pudor sendo desabotoado: “Eu beijo espelhos, abraço almofadas, faço carinho em mim mesma tendo você no pensamento, e mesmo quando as coisas que faço são menos importantes, como ler uma revista ou lavar uma meia, é em sua companhia que estou”.

Retirava o medo: “Eu não sou melhor ou pior do que ninguém, sou apenas alguém que está aprendendo a lidar com o amor, sinto que ele existe, sinto que é forte e sinto que é aquilo que todos procuram. Encontrei”.

Por fim, a última peça caía, deixando-a nua: “Eu gostaria de viver com você, mas não foi por isso que vim. A intenção é unicamente deixá-lo saber que é amado e deixá-lo pensar a respeito, que amor não é coisa que se retribua de imediato, apenas para ser gentil. Se um dia eu for amada do mesmo modo por você, me avise que eu volto, e a gente recomeça de onde parou, paramos aqui”.

E saiu do apartamento sentindo-se mais mulher do que nunca.