Dia de poesia – Mia Couto – Pergunta-me

Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo 
se acendes ainda 
o minuto de cinza 
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue 

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria 
e o tropel de mil cavalos 

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive 
junto das pontes enevoadas 
e se eras tu 
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu 
que reunias pedaços do meu poema 
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente 

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa 
uma tolice 
um mistério indecifrável 
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder 
saibas o que te quero dizer 

Hoje, a minha “cententena”

O governo decretou o isolamento.

A cidade foi parando. Os compromissos sendo cancelados ou adiados.

Os carros aos poucos deixaram de circular. O comércio baixou as portas.

Quinze dias, era o que se pensava.

Eu estava viajando. Antecipei meu retorno. Deixei tudo para daí uns vinte dias. Alguns dias depois, comecei a minha quarentena. E completo, hoje, cem dias de isolamento. Uma centena – a cententena. Interminável. Uma eternidade.

Comércio e indústria contando os prejuízos. Empregados perderam seus empregos. As coisas foram mudando de cor. Um alegre e dourado país tropical está cinzamente entristecido.

E todos se perguntam: o que restará depois que esse horror acabar? Escolas fecharão por falta de alunos. Formaturas adiadas porque os calendários letivos não foram cumpridos. Pacientes sem acesso a médicos porque clínicas fecharam.

Médicos morrendo do vírus chinês, por se tratar de moléstia desconhecida. E todos dão palpite. E ninguém sabe do que se trata de verdade.

O Brasil, tão grande, com tantas diferenças, agora igualado na desgraça de uma peste, que uniu norte, sul, leste e oeste. Desinformação, medo e mortes em todos os cantões do país.

Por vezes um iludido diz que a humanidade sairá melhor dessa situação. Por que isso aconteceria?

Quem era ruim antes do covid19 continuará ruim depois; quem era bom assim o será. Os que eram corruptos aproveitaram a deixa e roubaram descaradamente as verbas destinadas ao controle da pandemia. Os que sonhavam com golpes e ditaduras passaram a agir ostensivamente nesse sentido.

Se tudo estava complicado na vida política, piorou pelo menos 5.000%.

A democracia oscila, o mundo todo balança. A podre mídia aproveita para espalhar terror e pânico histericamente.

A tristeza de estarmos, inertes, assistindo nosso mundo desmoronar. Nada do que era antes será novamente. A insegurança total com relação a um futuro, agora mais incerto do que nunca.

Há cem dias presa nesta casa, sem nenhuma expectativa de ter minha vida de volta. Pessoas sãs desesperadas para voltarem a trabalhar. Pessoas doentes morrendo porque não é covid, mas servem para inflar as estatísticas. Pessoas se suicidando porque perderam o pouco que tinham em razão do insano e não justificado isolamento horizontal.

Muito sofrimento para pouca causa. Até agora não se apresentou uma explicação segura para justificar tudo isso. Mas a população está vibrando, até que enfim tem uma desgraça à imagem e semelhança da Europa e dos Estados Unidos, para rechear os maliciosos noticiários.

No meio de tudo isso, vejo meu povo, meu pobre povo, caminhando bovinamente rumo à miséria total.

Não consigo imaginar como será depois que isso acabar.

Mas, nesse centésimo dia de isolamento, eu tenho um medo.

Um medo absurdo de sentir, depois, saudade dos tempos de isolamento.

Descobrir que hoje estávamos em situação melhor do que estaremos no futuro…

Que se consiga esperar

Esperança.

Mirar o futuro.

Acreditar que tudo ficará bem.

Mesmo em tempos sombrios, ter a certeza do amanhã.

O contrário da esperança é a desesperança. O pior sentimento que pode tomar conta de uma alma. Porque desesperar – deixar de esperar – é reconhecer o fracasso, o vazio, a inutilidade.

Quem desespera, desiste. Não persevera.

O cansaço muitas vezes nos faz pensar em desistir. Se houver a firmeza de continuar, mesmo dentro do cansaço, sem desesperança, sem desistência, deixa-se a esperança triunfar. Porque para o cansaço, basta descansar. Não é preciso desistir.

Desistir é para os fracos. Os fortes enfrentam. Perseveram. Esperam com segurança ou esperança.

A esperança faz a diferença entre fortes e fracos, vencedores e perdedores.

Porque desistir é perder antecipadamente.

E agora, quando o mundo atravessa momento difícil, o que mais se vê é desesperança, cansaço e desistência.

Os que conseguirem prosseguir buscando um caminho, vencerão. Os demais já estão mortos, ainda que nem tenham sido contaminados pela peste.

Viver sem esperança é estar morto.

Viver, às vezes é difícil

Hoje vou desabafar. Porque a cada dia está mais difícil viver.

Somos como ilhas: estamos cercados de incompetência e incompetentes e pessoa totalmente sem educação por todos os lados.

Você acorda na nova manhã e faz uma prece por um dia feliz e proveitoso. E os problemas começam logo pela manhã.

Não por você, mas pelos outros. Temos de concordar com Sartre: o inferno são os outros.

Você vai ao banco. Munido de paciência e máscara. Não consegue sacar. Seu cartão não é aceito pela máquina. Um sujeito que se acha autoridade impede que você acesse o andar superior onde está seu gerente prime. E não permite que você entre na agência do térreo. O jeito é ir embora.

Pelo app transfere fundos para outro banco e vai a uma agência.

Novamente munida de paciência e máscara.

Outra fila.

O “sistema” limita seu saque a uma quantia ridícula. O gerente não atende sem prévio agendamento através de uma central.

E dizem que a culpa é do computador. Muitos engolem essa desculpa. O computador é uma máquina. Burra, sem dados nem memória. Um humano a alimenta. Se o humano é burro e limitado, o computador será burro e limitado, à imagem e semelhança de quem a mune de dados.

Sem contar que você está na fila quando uma zinha qualquer adentra no recinto e sem cerimônia passa pela fila e corre na máquina que alguém acaba de desocupar. As pessoas só olham, sem coragem de interpelar. Eu a advirto  – “ei, dona, não viu a fila? Espere sua vez”. E ela tem de sair dali para o próximo da fila usar a máquina, mas sai pisando duro e resmungando. Sem educação, sem respeito e sem noção. Mas na minha frente não passa.

Aí você passa no mercado – máscara e paciência, fila para entrar. Fila para pegar,mantimentos. Fila para tudo. Fila para pagar. Adiei o máximo possível. Há mais de quarenta dias sem entrar em supermercado. Mas hoje não deu, foi preciso enfrentar.

E finalmente chega em casa. Prepara o whisky e a pipoca, pega o computador e pensa que vai relaxar pouco e começar a escrever.

Mas as crianças do condomínio tocam cinco ou seis vezes a campainha para pedir as bolas que atiraram no seu quintal.

Eu já avisei que não devolvo bola nem brinquedo. Não sou gandula para ficar pegando bola.

Embora more em um condomínio fechado, não conheço – nem quero conhecer – nenhum vizinho. Vivo dentro de minha casa. Sou antissocial e não gosto de vizinhos. E tudo que atiram no meu quintal é devolvido direto na portaria no dia seguinte.

As crianças não dão sossego. Porque não têm educação e nem têm culpa de serem tão inconvenientes. As mães só podem dar o que têm, e embora se achem muito importantes em seus carrões importados e plásticas mal feitas, também não têm um mínimo de educação para dar aos filhos.

Os pais, nem falar. Passam todos os momentos livres no salão aqui na frente da minha casa falando palavrões e bebendo. Isso até o meio da madrugada, noite após noite.

E se acham de alto nível, confundem ter quatro tostões com educação e sofisticação. Chamo a segurança para vir resolver. Vem o síndico. Que eu nem conhecia. Neto de um juiz com quem trabalhei no milênio passado. Educadíssimo. Simpático e com vontade de resolver os problemas.

Mas sei que ele não poderá dar educação nem às crianças nem aos pais.

Mais o problema da funcionária que está com garganta inflamada mas não recebe atendimento médico municipal porque só atendem covid (!!!).

Complicado viver. Por causa dos outros.

E isso tira a inspiração para escrever. Gasta meu tempo com aborrecimentos.

Vou ver se compro uma ilha. Se não conseguir, talvez arranje um emprego num farol – de preferência uma sentinelle d’Iroise, quem sabe o La Jument ou o Pierres Noires, meus preferidos, e me mude para um lugar onde nunca mais verei um ser humano de perto. Nem espelho terei para não me ver.

Aí serei feliz e talvez viva em paz.

No 100º dia

Um dia ficou oficial: havia coronavírus no Brasil. A população estava exposta a uma doença desconhecida e, para alguns segmentos, fatal. Sem remédio, sem protocolo de tratamento, presumidamente descontrolada e sem cura.

Tudo começa a ser fechado. Até vir a ordem do isolamento horizontal.

Pânico. Histeria. Exageros. Negação. Descaso.

A primeira vítima da epidemia foi a verdade.

O oportunismo político tomou conta do cenário e da mídia. E tudo virou um circo, com as bençãos da cega, surda e manca justiça tupiniquim.

Depois de mais de um ano sem acesso livre aos cofres públicos, encontrou-se uma maneira de desviar dinheiro público. Muito dinheiro.

Nessa altura, a Itália quase dizimada – segundo os noticiários, a Espanha de joelhos, a França afundando, o Reino Unido correndo o risco de desaparecer.

E tome 24 horas/dia das notícias mais alarmistas.

Especialistas em nada entrando nas casas pelo horário nobre das TVs para espalhar mais desinformação ainda.

E descobrimos que os mais de cem milhões de técnicos de futebol que no último ano se haviam tornado cientistas políticos, eram na verdade renomados epidemiologistas, biológos e o diabo-a-quatro que as faculdades de ensino facebook vêm diplomando nos últimos tempos.

Usa máscara. Está protegido.

Mesmo usando máscara não está protegido.

Afaste-se de tudo e de todos.

Pegar na mão mata.

Beijar a avó morre.

Fica longe de todos os amiguinhos.

Andar ao ar livre é perigoso. Entrar no restaurante é fatal.

Famílias separadas. Vidas adiadas. Empresas falidas.

Nada mais como sempre foi. Incerteza e insegurança.

A pergunta constante: “o que será de nós?”

Hoje, cem dias depois, pouco ou nada mudou. Só as dúvidas aumentaram, porque parece que a verdade também era integrante de algum grupo de risco e morreu de covid.

Eu demorei alguns dias para entrar em isolamento, por estar viajando, assim ainda não completei minha “cententena”.

Ainda há contaminação. E ainda não se sabe exatamente como se dá a contaminação, o que é perigoso e o que deve ser feito.

Ainda há pessoas contaminadas assintomáticas. Outras com sintomas de gripe. E outras em hospitais e UTIs, algumas entubadas. E muitas mortes. Com ou De covid. E muita, muita incerteza sobre tudo isso.

Os testes são seguros? Como fazer o teste? O assintomático tem capacidade de contaminar outras pessoas? Como o vírus se comporta no meio ambiente e superfícies? Quanto tempo dura ativamente com capacidade de contaminação?

O que se sabe, com certeza, é que o vírus veio da China. De onde acenam com respiradores e vacina.

Faz lembrar o borracheiro do trevo que espalhava pregos na rodovia…

Amar de verdade

Amar.
A grande – e talvez mais nobre – finalidade da vida.
Amar incondicional e apaixonadamente.
Amar é tanto, amar é tudo.
Mas é complicado.
Quem ama pede tão pouco para a vida. Mas exige tanto do ser amado…
Diz que basta um olhar, um sorriso, um abraço e um beijo apaixonado. Adormecer e despertar junto do outro. Companheirismo, segurança. Nada mais.
Imagina, sonha, idealiza uma pessoa merecedora de tanto sentimento.
E espera. E desespera.
Um dia brilha uma luz diferente quando seus olhos encontram outros olhos. Um sorriso. Um gesto de acolhimento.
E ali começa um grande amor.
Então todos os conceitos de amor vão se mudando quase imperceptivelmente, e assim esse amor vai matando, aos poucos, o próprio amor, que desencadeia uma autofagia incontrolável.
Corta o cabelo. Não corta o cabelo. Faça ginástica. Não faça ginástica. Põe bermuda. Não põe bermuda. Vamos sair um pouco. Não vamos sair nem um pouco.
E de pequenas contradições e mínimas exigências surge o distanciamento. Cuja especialidade é matar o amor.
Alguns, não contentes de transtornar o outro durante o relacionamento, passam a persegui-lo depois da separação sem trégua, sem dó nem piedade.
E acha que essa mórbida obsessão é decorrente do amor, porque não entende que na verdade é doentio.
Ah, se nós pudéssemos amar de verdade. Amar incondicionalmente, aceitando o outro exatamente como ele é. Amar tanto em vida e morrer junto. Amar depois da morte. Amar para sempre o que partiu e este amar para toda a eternidade o que ficou.
Realizar, na vida real, aquele amor tão sonhado, tão esperado. Se nos fosse possível impedir que a rotina e os problemas viessem para aniquilar a ternura de uma paixão arrebatadora…
Amar, de verdade e para sempre, como se fôssemos os dois cisnes, do soneto de Julio Salusse…


Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!