Viver, às vezes é difícil

Hoje vou desabafar. Porque a cada dia está mais difícil viver.

Somos como ilhas: estamos cercados de incompetência e incompetentes e pessoa totalmente sem educação por todos os lados.

Você acorda na nova manhã e faz uma prece por um dia feliz e proveitoso. E os problemas começam logo pela manhã.

Não por você, mas pelos outros. Temos de concordar com Sartre: o inferno são os outros.

Você vai ao banco. Munido de paciência e máscara. Não consegue sacar. Seu cartão não é aceito pela máquina. Um sujeito que se acha autoridade impede que você acesse o andar superior onde está seu gerente prime. E não permite que você entre na agência do térreo. O jeito é ir embora.

Pelo app transfere fundos para outro banco e vai a uma agência.

Novamente munida de paciência e máscara.

Outra fila.

O “sistema” limita seu saque a uma quantia ridícula. O gerente não atende sem prévio agendamento através de uma central.

E dizem que a culpa é do computador. Muitos engolem essa desculpa. O computador é uma máquina. Burra, sem dados nem memória. Um humano a alimenta. Se o humano é burro e limitado, o computador será burro e limitado, à imagem e semelhança de quem a mune de dados.

Sem contar que você está na fila quando uma zinha qualquer adentra no recinto e sem cerimônia passa pela fila e corre na máquina que alguém acaba de desocupar. As pessoas só olham, sem coragem de interpelar. Eu a advirto  – “ei, dona, não viu a fila? Espere sua vez”. E ela tem de sair dali para o próximo da fila usar a máquina, mas sai pisando duro e resmungando. Sem educação, sem respeito e sem noção. Mas na minha frente não passa.

Aí você passa no mercado – máscara e paciência, fila para entrar. Fila para pegar,mantimentos. Fila para tudo. Fila para pagar. Adiei o máximo possível. Há mais de quarenta dias sem entrar em supermercado. Mas hoje não deu, foi preciso enfrentar.

E finalmente chega em casa. Prepara o whisky e a pipoca, pega o computador e pensa que vai relaxar pouco e começar a escrever.

Mas as crianças do condomínio tocam cinco ou seis vezes a campainha para pedir as bolas que atiraram no seu quintal.

Eu já avisei que não devolvo bola nem brinquedo. Não sou gandula para ficar pegando bola.

Embora more em um condomínio fechado, não conheço – nem quero conhecer – nenhum vizinho. Vivo dentro de minha casa. Sou antissocial e não gosto de vizinhos. E tudo que atiram no meu quintal é devolvido direto na portaria no dia seguinte.

As crianças não dão sossego. Porque não têm educação e nem têm culpa de serem tão inconvenientes. As mães só podem dar o que têm, e embora se achem muito importantes em seus carrões importados e plásticas mal feitas, também não têm um mínimo de educação para dar aos filhos.

Os pais, nem falar. Passam todos os momentos livres no salão aqui na frente da minha casa falando palavrões e bebendo. Isso até o meio da madrugada, noite após noite.

E se acham de alto nível, confundem ter quatro tostões com educação e sofisticação. Chamo a segurança para vir resolver. Vem o síndico. Que eu nem conhecia. Neto de um juiz com quem trabalhei no milênio passado. Educadíssimo. Simpático e com vontade de resolver os problemas.

Mas sei que ele não poderá dar educação nem às crianças nem aos pais.

Mais o problema da funcionária que está com garganta inflamada mas não recebe atendimento médico municipal porque só atendem covid (!!!).

Complicado viver. Por causa dos outros.

E isso tira a inspiração para escrever. Gasta meu tempo com aborrecimentos.

Vou ver se compro uma ilha. Se não conseguir, talvez arranje um emprego num farol – de preferência uma sentinelle d’Iroise, quem sabe o La Jument ou o Pierres Noires, meus preferidos, e me mude para um lugar onde nunca mais verei um ser humano de perto. Nem espelho terei para não me ver.

Aí serei feliz e talvez viva em paz.

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