Nenhuma semelhança é mera coincidência…

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Isso levou à suspensão das manufaturas para exportação na maioria das regiões da Inglaterra, com exceção dos portos externos; e até nestes, logo foram suspensas, já que todos, por sua vez, tinham a peste. Embora isso fosse sentido em toda a Inglaterra, a paralisação dos negócios da city foi muito pior, com o fim repentino de todo intercâmbio de mercadoria para consumo interno, principalmente daquelas que costumeiramente circulavam através das mãos dos londrinos.   

Todo trabalho manual, na city etc. os artesãos e os mecânicos, como disse antes, ficaram sem trabalho e isso provocou a dispensa e demissão de um número incontável de diaristas e operários de todos tipos, visto que nada se fazia com seus ofícios, a não ser o que se poderia chamar de absolutamente necessário.  

Isso gerou uma multidão de solitários sem recursos em Londres, além de famílias cuja subsistência também dependia do trabalho dos chefes de família. Digo que assim foram reduzidos à extrema miséria e, devo reconhecer para a honra da cidade de Londres, o que será por muitas eras, enquanto isso for algo a ser comentado: a população foi capaz de, por caridade, oferecer provisões para as necessidades de muitos milhares que mais tarde ficaram doentes ou estavam desesperados; assim, pode-se afirmar com segurança que ninguém morreu de fome, pelo menos ninguém que tenha chegado ao conhecimento das autoridades.   

Esta estagnação do nosso comércio manufatureiro no interior colocaria o povo em dificuldades muito maiores, mas se os mestres de ofícios, os tecelões e outros continuassem fazendo suas mercadorias até o esgotamento de seus estoques e forças, acreditando que a epidemia diminuiria logo, em seguida eles teriam uma demanda rápida, proporcional à queda de seus negócios naquele período. Como porém nenhum – a não ser os patrões ricos – podia fazer isso porque muitos eram pobres e incapazes, o comércio de manufaturas da Inglaterra sofreu enormemente e os pobres foram espoliados em toda a Inglaterra pela calamidade só da city de Londres.

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(Um diário do Ano da Peste, Daniel Defoe)

Universo

Um grão de areia. Tudo pode se resumir a um grão de areia.

Um único e pequenino grão de areia viaja por todos os cantos do cosmos. Vejo-o, agora, ao pousar sobre minha mesa. Brilha como o cristal. É duro como a rocha. Mais leve do que uma pluma. Levado pelo vento, logo poderá não estar mais aqui.

Com todo o cuidado e respeito, eu o pego e guardo no fundo da minha mão. Acaricio com delicadeza aquele pequeno viajante. E lhe pergunto: “- de onde vens? Das praias do sul, dos desertos da África? De onde o vento te traz até mim? A qual Universo pertences?”

Ele demora a responder. Está cansado demais para falar. Percebo que vem de muito longe.

Já estava aqui antes do começo e estará depois do fim.

Esse grão de areia já esteve em todos os lugares, mesmo os desconhecidos. Do fundo do mar à poeira das estrelas.

Escondido em uma ostra, deu origem a tão rara pérola, que foi usada para encimar diadema de uma rainha e depois o cetro de um rei, simbolizando o poder absoluto sobre os demais homens. Liberado, foi conhecer os outros mares, e os desertos. Na bagagem dos nômades atravessou mundos. Viu a miséria e a riqueza. Viu o sol nascer na África e também se por no Pacífico.

Navegou nos veleiros, voou nos aviões e foi lançado em foguetes.

As eras se sucediam incessantemente e o pequeno grão viajava o mundo.

Esteve na cabana dos lavradores, nas carroças e nas bagagens em que foi para as vilas e cidades. Entrou nos palácios e nos templos.

Nunca o grão de areia conseguiu parar em um só lugar. A mínima brisa, o vento e os furacões o levavam de um lado para o outro, indefeso e frágil em sua dureza e unidade.

Sabe tudo sobre o amor e sua diferença da paixão. Foi usado por tristes amantes como desculpa para as lágrimas que escorriam pelas faces.

Esteve no berço dos recém-nascidos e conheceu o túmulo dos falecidos.

Vedou olhos de cruéis guerreiros e decidiu batalhas.

Fundiu-se à poeira dos anéis de saturno. Repousou nas crateras lunares.

Sabe as distâncias que separam as pessoas próximas e as milhas e anos luz que separam as nações e os planetas.

Esquentou-se ao calor do sol e gelou na neve das montanhas – o sol não o queima e o frio não o pode congelar. Sua matéria é mais que o calor e o gelo.

Conheceu a música e a poesia dos artistas. Participou das provas em Atenas e das lutas em Roma.

Esteve em todas as guerras e se molhou em todos os sangues.

Mergulhou em todos os rios e mares. Voou por sobre todas as terras.

Nada, nada há que não tenha visto ou conhecido.

Esse tão pequeno grão de areia conhece a alma humana, seus sonhos mais secretos. Entrou na casa de todos os homens. Participou de todos os rituais e presenciou todas as alegrias.

Como um pequeno nada, ignorado por tantos, ele viajou por todos os mundos conhecidos e presumidos.

Ele se assemelha a um pequeno caco de cristal no fundo da palma de minha mão. Parece sorrir para mim.

Então ele fala: “- o que é o Universo? Um todo, um nada, uma soma de muitos? O Universo está em você, porque você é seu próprio Universo, e cada célula sua é um Universo próprio. Cada ser, cada pedra, cada molécula de ar é seu próprio Universo. O que vale para um, vale para todos. O que perturba o individual, transtorna o conjunto. Tudo isso junto forma o grande Universo, que não é nada mais que todos os universos harmonicamente agrupados. Quando há desarmonia, o Universo se abala e se parte. Se se rompe, deixa de ser Universo. Porque a essência do universo é ser uno e indivisível.”

E termina: “- se você me entender, terá decifrado todos os enigmas do mundo. Porque terá de me entender inteiro. Não pode ir me conhecendo aos poucos, não posso ser partido em pedaços. Eu sou um Universo!”

Minhas dores

As minhas dores são tantas…

São dores que estão seladas:

As dores do corpo são chagas,

Da alma são mágoas passadas.

 

Diante da dor sinto medo

Mas me mantenho serena;

A dor me torna tão frágil,

O medo me faz tão pequena.

 

Sempre juntas nessa vida,

Das dores não me separo,

Assim eu vou caminhando:

 

Com minhas dores vivendo,

Eu, minhas dores cantando,

Em mim, minhas dores doendo…

Texto de Cândido Arouca

Cair não é sinônimo de fraqueza.
Cair é uma virtude que só têm os que arriscam e investem.
Cair não pode ser encarado como um fracasso ou um falhanço.
Cair é em si mesmo um ato de coragem.
Cair é, só por si, uma atitude de quem ama a vida e arrisca tudo para ser feliz.
Cair tem uma enorme virtude que caracteriza um vencedor; permite que ele se levante sempre mais fortalecido, esclarecido e conhecedor das suas capacidades para vencer!
Quem nunca caiu nunca arriscou.
Quem nunca caiu nada fez em toda a vida para sequer tentar ser feliz.
Quem nunca caiu não conhece o verdadeiro sabor da vitória porque essa só se consegue após muitas tentativas falhadas!
Não tema, caia e levante-se tantas vezes quantas as necessárias para alcançar a felicidade!

Calendário na quarentena

Lendo outros cronistas, descobri que todos estão sendo atingidos pela quarentena eterna. Esse isolamento está tornando quase impossível o escrever. A vida perdeu o encanto. Não há mais graça em nada. Os afetos ficaram para depois – se é que haverá um depois. Não podemos estar com os vivos nem velar os mortos. A internet está se tornando um porre, maniqueísta. Prós e antis. Tudo. Pró-tudo e anti-tudo.

Não há mais rodas de conversas leves e risadas.

Tudo tem de ter um propósito, uma finalidade, tudo sério, clima de velório. Se alguém tenta um atalho, é atacado por todos. Vamos ser sérios! Vamos discutir política! Vamos brigar!

De repente nosso mundo se resumiu a uma casa.

Os sabores do mundo se esvaíram nesses dias e noites que se confundem e nos confundem.

Já nem mais sabemos que dia é – todos os dias são domingo? Não. Porque domingo é dia de missa e não há mais missa. Então há mais de setenta dias que não há domingo?

Então todo dia é sábado? Não. Porque sábado é dia de passear, de parque, de clube e está tudo interditado. Então mais de dois meses sem sábados?

Ah, já sei, todo dia é sexta-feira? Também não. Porque sexta-feira é noite de happy hour, de balada, de restaurante, de amigos. E está tudo fechado. São mais de dois meses sem sexta-feira.

Podemos dizer que é segunda-feira? Não, de jeito nenhum! Porque segunda-feira é dia de trabalhar e há mais de setenta dias que ninguém trabalha.

O que está acontecendo? Revogaram o calendário gregoriano, que nos regia desde os idos do século XVI? Como isso aconteceu?

Como nos separaram das pessoas amadas, como nos cancelaram as viagens, como decidiram nos enterrar vivos em nossas casas e nós permitimos isso? Somos hoje a boiada confinada esperando a hora de rumar ao matadouro.

Ah, e por falar em calendário, pegue todos que tiver em sua casa e jogue no lixo. Não serve para mais nada. O ano acabou.

Conquistar

Não apenas me conquiste, mas me encante

Se me quiser manter sempre junto de você

Para conquistar, traga-me todas as estrelas

Que brilham nas noites de amor e de paixão

Mas se quiser também me encantar, não basta

Para isso me dará toda noite a lua.

Também não bastará me dar o mar e as ondas

Mas me leve para conhecer os abismos

E também me mostre o amanhecer no mar

Se quiser então me conquistar, me leve

Para conhecer o verde da floresta

Porém, se ainda quiser me encantar

Não basta apenas me mostrar a floresta

Mas ouvir comigo o cantar dos pássaros

E sentir o cheiro da natureza em flor

Se você apenas quiser me conquistar

Basta sorrir, sentar comigo e conversar

Mas, se na verdade me quiser encantar

Então seja gentil, demonstre um pouco de paixão

Sorria para mim com os seus olhos

Conte-me coisas que só você conhece

Ouça-me com atenção se eu contar as minhas

Dê-me todo o espaço que existe entre seus braços

Deixe-me penetrar fundo em seu coração

Entre – você também, no meu mais profundo eu

Fique sempre a meu lado com alegria

Siga de mãos dadas comigo pela vida

E se deixe, também, comigo se encantar.