Um ano sem meu pai

Um ano, meu pai, que o senhor partiu.

O coração avisou. Quis ir logo cedo para me despedir. Quando estava a caminho, recebi o chamado “venha logo”. Só desliguei. Nada perguntei. Não era preciso. Eu já sabia.

Restou-me a despedida do final da tarde da véspera.

E todas as despedidas que tivemos nesses mais de sessenta anos. “Tchau, pai, estou indo”. “Vai, filha. Deus te abençoe. Avise sua mãe quando chegar… “. Ah, pai, que saudade de ouvir novamente sua bênção.

E mais saudade ainda dos encontros. Seus lindos olhos verdes sorriam quando eu chegava. Mesmo no fim, já adoentado, mostrava a alegria ao me ver. “Oi, pai, tudo bem?” “Melhor agora que você está aqui…”

Sem um gemido, uma reclamação, com paciência e mansidão o senhor foi aceitando toda a provação que a vida mandou. Sempre tranquilo, leve, em sua fé inabalável nas palavras de Cristo. E nos amou até o final.

23 de maio. Um ano, pai, de sua partida. 23 de maio, o dia que não acabou. Amanheci sua filha, passei a noite no seu velório. E o deixei, sozinho, naquele túmulo no dia 24. Sentindo uma dor intensa, uma terrível sensação de ingratidão que me persegue.

Nossa família é grande. Enorme para os padrões atuais. E era seu sonho, seu desejo. E sempre havia alguém a seu lado – na sala, na varanda, no escritório, no quintal, no carro, na padaria, na feira… era minha mãe, era um filho, era um neto ou um bisneto. Mas sempre havia um de nós a seu lado. Porque sempre foi o que senhor quis assim – não era homem de preferir ficar sozinho, apartado da família.

Mas naquela manhã, pai, deixamos o senhor sozinho. Isso doeu, ainda dói e doerá em minha alma todos os dias da minha vida.

Como eu gostava de sua companhia! Quando saíamos de carro para mil tarefas, o senhor dirigindo daquela forma mais-que-perfeita. E conversávamos… Nossas caminhadas na areia da praia… nossas noites nas varandas de nossas casas… Todos os whiskies que juntos tomamos. E nosso sagrado chopp…

Quando nós ainda éramos crianças, viajámos muito, todos juntos. O senhor nos distraia com ensinamentos – tínhamos de saber o que estava plantado nas propriedades ao longo da estrada. Fomos aprendendo ver a diferença de forma, tom de verde e tamanho das folhas. E aprendendo. Milho. Feijão. Soja. Batata. Algodão… e sua lavoura de algodão, quando tudo se cobria de branco, lembra-se como era lindo, pai?

Quantas lembranças que me sustentaram nesse ano de sua partida… no primeiro dia não entendi o que significava isso.

Porque só ao acordar na manhã do dia seguinte eu entendi que agora eu era uma órfã. E senti a dor insuportável de não ter pai, do luto pelo pai. Eu me deitara filha e amanhecera órfã.

A perda do pai divide nossa vida em duas fases. Antes, com ele a nosso lado. E depois, a orfandade irremediável.

Como se nossa vida recomeçasse do ponto zero. Dia dos pais – o primeiro dia dos pais sem pai. Sempre tivemos nossas reuniões para comemorar esse dia. Mesmo que não pudessem os seis filhos e suas famílias ir para sua casa, por residirem “esparramados” pelo Estado, alguns se organizavam e ali estavam. Mas havia alegre comemoração.

O primeiro casamento na família sem sua presença. Para abençoar Lucas e Raquel. Uma cerimônia lindíssima na Igreja. E o senhor não estava lá presente. Sei que acompanhou tudo, um dia tão importante na vida de um neto muito amado. E na festa, com sua família, cunhados, sobrinhos e filhos, e tantos amigos queridos, por mais alegria que houvesse, eu só conseguia enxergar sua ausência. Primeira festa sem meu pai.

E veio o primeiro Natal. E a primeira “passagem de ano” como o senhor dizia. E no meu aniversário eu não recebi seu telefonema, em mais de sessenta anos, pela primeira vez, não tive seu abraço – real nem virtual.

Seu primeiro aniversário! Como foi triste enfrentar o dia do aniversário do meu pai sem ele. Em nosso calendário anual nós tínhamos os feriados cívicos, os dias santos e o aniversário do meu pai – um dia sagrado.

O senhor esperava esse dia ansiosamente, pois adorava comemorar seu aniversário. E os seis filhos trouxeram seis noras e genros. E quatorze netos. E, através desses netos, vieram dois maridos-netos e uma esposa-neta, hoje já são duas. E oito bisnetos (agora, um ano depois, já são dez – chegaram Lorenzo e Lucas e no final do ano teremos mais um bebezinho, do Lucas, que já está na forma). E todos se reuniam no dia 15 de janeiro, religiosamente, para a comemoração.

Mais seus irmãos e sobrinhos. Sempre foi uma data marcante na família. Pois é, pai, tivemos nosso primeiro seu aniversário sem o senhor… muito triste.

E assim novas datas vão mostrando o vazio que o senhor deixou. E sentimos pela primeira vez essa dor de sua ausência.

Sei que o senhor apenas partiu antes para preparar nossa mesa na casa do Pai, onde todos estaremos novamente reunidos um dia.

Mas enquanto isso, o sofrimento pela sua partida dói. Pesa. Como se Deus, quando o chamou, tivesse colocado em meus ombros um fardo de mais de 100 kg. Para eu carregar para sempre, levar comigo onde eu for.

Não para levar para um lugar determinado, entregar em um armazém, deixar em uma calçada qualquer. Mas para levar comigo, até o final de minha vida, sentindo o peso e a dor de ser órfã, carregando o fardo pesado de sua falta.

Porque essa falta não é leve. Orfandade dói, sangra e pesa. É intensa, uma saudade imensa que fere.

Carrego, agora, em mim, a dor e o peso de sua ausência.

No dia do abraço

Galeria de artes visuais

Hoje é dia do abraço.

Um ano se passou desde que descobri, surpresa, que havia no calendário da internet esse “dia do abraço”.

E repito: nada há melhor que um abraço de verdade.

Não damos “um abraço”. Damos nossos braços, que fazem os corpos se encontrarem, se unirem, se fundirem, num amalgamar perfeito de ternura e paz.

Os corações, assim tão próximos, batem juntos num mesmo compasso. Uma acolhida incondicional – o verdadeiro sentido do “Vem!”.

Um abraço que envolve e emociona. Dado de corpo e alma. Aconchego e segurança. Não é sempre que temos alguém que nos abrace assim. E muitas vezes sonhamos com um abraço que acreditamos nunca irá acontecer.

Mas de repente esse abraço nos surpreende, somos enlaçados, abraçados, apresados. E então, felizes nós nos entregamos.

E esse abraço pode mudar completamente o rumo de nossa vida, a nossa até então apagada existência.

Porque esse abraço… ah, esse abraço… era tudo o que queríamos nesta vida.

Saudades



Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…

(Nota: Embora a autoria seja normalmente atribuída a Clarice Lispector, na verdade o texto se trata de um híbrido, que combina elementos e excertos de Antônio Carlos Affonso dos Santos com outros, escritos por um autor desconhecido.)

Mar e Paixão

 

Escalando rochedos marítimos

Era um mar

Um grande e sereno mar

Um leve balanço

E uma imensidão

E era um rochedo

Ancorado no meio do mar

À espera de marinheiros incautos

Um porto ou um perigo?

Um descanso ou ameaça?

Um lugar para chegar

Ou de onde fugir?

E era um amor

Um grande e sereno amor

Uma promessa de calma

E uma esperança

E era uma paixão

Ancorada no meio da vida

À espera de amantes incautos

Um porto ou um perigo?

Um descanso ou ameaça?

Um lugar para chegar

Ou de onde fugir?

 

(Poesia classificado em 2º lugar no CONCURSO LITERÁRIO VIRTUAL RELÂMPAGO AJEB-RJ/ 2020)

Doce surpresa para os amargos dias da quarentena eterna

Visualização da imagem

Comecei a escrever há pouco tempo. Ou melhor, publicar. Sempre escrevi, mas não é fácil publicar, pelo menos na primeira vez. Depois nos acostumamos e vamos publicando livros, textos, o que vier…

Meu blog foi inaugurado em 2008. O que requer um bocadinho de coragem. Porque blog de literatura nesse mundo consumista e exibicionista, não é muito aceito. Mesmo assim, na primeira plataforma, eram milhares de leitores. O que me servia de incentivo a continuar escrevendo.

Crônicas escolhidas do blog se tornaram meu primeiro livro. Emoção indescritível. Vai-se do pavor ao júbilo, entre os atos de entregar os originais na Editora para análise e ter em mãos o livro impresso.

Depois vieram os outros e tenho orgulho do que escrevo.

Há dois anos, o primeiro prêmio literário, em Milão.

No ano subsequente, novo prêmio.

No início deste ano, menção honrosa em Belo Horizonte.

Primeira vez uma classificação com júri totalmente nacional, na primeira vez que concorri aqui no Brasil.

E tivemos os adiamentos e cancelamentos de edições, de encontros, de festas, em razão da situação de isolamento que nos foi imposta pelo atual contexto.

Para movimentar um pouco nosso desânimo, as ajebianas do Rio de Janeiro (AJEB-RJ – Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil, seção Rio de Janeiro) fizeram um Concurso Virtual Relâmpago, para marcar, ao menos no mundo virtual, o 50º aniversário daquela associação. Eram sete categorias.

Resolvi participar, totalmente sem pretensões, eis que concorreria com escritores “de verdade”. Mas não consegui escolher uma única categoria, e, por ser permitido concorrer em mais de uma, escolhi quatro.

Hoje, colocando um pouco de aconchego nessa solidão compulsória, chega o resultado do concurso. Fui premiada nas quatro categorias em que concorri (conto, crônica, poesia e haicai).

Que sensação boa. Entrar em um certame e conseguir ótimas classificações. Receber não só os cumprimentos, mas também o reconhecimento.

Isso motiva a continuar escrevendo e, mais ainda, esquecer por algumas horas todas as tristezas que nosso país atravessa.

Obrigada, Ajebianas RJ, vocês fizeram meu dia mais feliz!!!!!!!!

Trecho de Albert Camus – A Peste

    None

     …

     Os tumultos junto às portas da cidade, durante os quais os guardas tinham sido obrigados a lançar mão de suas armas, criaram uma surta agitação. Tinha havido feridos, sem dúvida, mas falava-se de mortos na cidade, onde tudo se exagerava, por efeito do calor e do medo. Em todo caso, é verdade que o descontentamento não cessava de aumentar. Que as nossas autoridades tinham receado o pior e estudado muito a sério medidas a serem tomadas no caso de esta população, mantida sob o flagelo, ser levada à revolta. Os jornais publicaram decretos que renovavam a proibição de sair e ameaçavam com penas de prisão os infratores.  …

     No calor e no silêncio, e para o coração em pânico de nossos concidadãos, tudo assumia, aliás, uma importância maior. Pela primeira vez, todos se tornaram sensíveis às cores do céu e aos odores da terra causados pela mudança das estações. Cada um compreendia com terror que o calor ajudaria a epidemia e, ao mesmo tempo, cada um via que o verão se instalava. … Para todos os nossos concidadãos, o céu de verão, estas ruas que empalideciam sob os tons da poeira e do tédio, tinham o mesmo sentido ameaçador que as centenas de mortos que a cada dia pesavam sobre a cidade. … Tinham perdido o brilho metálico das estações felizes. O sol da peste apagava todas as cores e escorraçava qualquer alegria.

     Era essa uma das grandes revoluções da doença.

     …