Cair não é sinônimo de fraqueza.
Cair é uma virtude que só têm os que arriscam e investem.
Cair não pode ser encarado como um fracasso ou um falhanço.
Cair é em si mesmo um ato de coragem.
Cair é, só por si, uma atitude de quem ama a vida e arrisca tudo para ser feliz.
Cair tem uma enorme virtude que caracteriza um vencedor; permite que ele se levante sempre mais fortalecido, esclarecido e conhecedor das suas capacidades para vencer!
Quem nunca caiu nunca arriscou.
Quem nunca caiu nada fez em toda a vida para sequer tentar ser feliz.
Quem nunca caiu não conhece o verdadeiro sabor da vitória porque essa só se consegue após muitas tentativas falhadas!
Não tema, caia e levante-se tantas vezes quantas as necessárias para alcançar a felicidade!
Autor: Maria Alice Ferreira da Rosa
Calendário na quarentena
Lendo outros cronistas, descobri que todos estão sendo atingidos pela quarentena eterna. Esse isolamento está tornando quase impossível o escrever. A vida perdeu o encanto. Não há mais graça em nada. Os afetos ficaram para depois – se é que haverá um depois. Não podemos estar com os vivos nem velar os mortos. A internet está se tornando um porre, maniqueísta. Prós e antis. Tudo. Pró-tudo e anti-tudo.
Não há mais rodas de conversas leves e risadas.
Tudo tem de ter um propósito, uma finalidade, tudo sério, clima de velório. Se alguém tenta um atalho, é atacado por todos. Vamos ser sérios! Vamos discutir política! Vamos brigar!
De repente nosso mundo se resumiu a uma casa.
Os sabores do mundo se esvaíram nesses dias e noites que se confundem e nos confundem.
Já nem mais sabemos que dia é – todos os dias são domingo? Não. Porque domingo é dia de missa e não há mais missa. Então há mais de setenta dias que não há domingo?
Então todo dia é sábado? Não. Porque sábado é dia de passear, de parque, de clube e está tudo interditado. Então mais de dois meses sem sábados?
Ah, já sei, todo dia é sexta-feira? Também não. Porque sexta-feira é noite de happy hour, de balada, de restaurante, de amigos. E está tudo fechado. São mais de dois meses sem sexta-feira.
Podemos dizer que é segunda-feira? Não, de jeito nenhum! Porque segunda-feira é dia de trabalhar e há mais de setenta dias que ninguém trabalha.
O que está acontecendo? Revogaram o calendário gregoriano, que nos regia desde os idos do século XVI? Como isso aconteceu?
Como nos separaram das pessoas amadas, como nos cancelaram as viagens, como decidiram nos enterrar vivos em nossas casas e nós permitimos isso? Somos hoje a boiada confinada esperando a hora de rumar ao matadouro.
Ah, e por falar em calendário, pegue todos que tiver em sua casa e jogue no lixo. Não serve para mais nada. O ano acabou.
Conquistar
Não apenas me conquiste, mas me encante
Se me quiser manter sempre junto de você
Para conquistar, traga-me todas as estrelas
Que brilham nas noites de amor e de paixão
Mas se quiser também me encantar, não basta
Para isso me dará toda noite a lua.
Também não bastará me dar o mar e as ondas
Mas me leve para conhecer os abismos
E também me mostre o amanhecer no mar
Se quiser então me conquistar, me leve
Para conhecer o verde da floresta
Porém, se ainda quiser me encantar
Não basta apenas me mostrar a floresta
Mas ouvir comigo o cantar dos pássaros
E sentir o cheiro da natureza em flor
Se você apenas quiser me conquistar
Basta sorrir, sentar comigo e conversar
Mas, se na verdade me quiser encantar
Então seja gentil, demonstre um pouco de paixão
Sorria para mim com os seus olhos
Conte-me coisas que só você conhece
Ouça-me com atenção se eu contar as minhas
Dê-me todo o espaço que existe entre seus braços
Deixe-me penetrar fundo em seu coração
Entre – você também, no meu mais profundo eu
Fique sempre a meu lado com alegria
Siga de mãos dadas comigo pela vida
E se deixe, também, comigo se encantar.
Dia de poesia – José Luís Peixoto – Quando a ternura for a única regra da manhã
Um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar
a perfeição da felicidade.
De quarentena a setentena
Hoje, 28.05, completo setenta dias de quarentena. Que já virou setentena. Difícil para uma pessoa que mora em duas ou três cidades ao mesmo tempo. Eu quase sempre trabalhei em uma cidade e residi em outra. Assim, sempre tive mais de um domicílio.
Podia ser cansativo, mas era divertido. Viver sem rotina nenhuma. Ir num dia e voltar no outro, por um imprevisto qualquer. Ir para ficar três dias e ficar quarenta dias. Tudo podia acontecer.
Quando residia no Guarujá e trabalhava em São Paulo, aconteceu o vazamento de gás de amônia em um depósito do porto. Tenho forte reação alérgica a amônia. Resultado: mais de trinta dias sem ir a minha própria casa…
Minha vida era uma viagem. Em sentido literal.
De repente, uma quarentena cancela todos meus compromissos. Saio de São Paulo e vou para Ribeirão Preto, pensando que seria um período de 15 a 20 dias.
Estou completando 70 dias… uma eternidade.
Eu anoiteço e amanheço há 70 noites no mesmo quarto, ouvindo os mesmos ruídos, vendo o céu da mesma janela. Isso é horroroso. Porque impede de me sentir viva. Vida, para mim, é o movimento. É a estrada, é o avião, é o ir. Nunca o ficar foi viver.
Não consigo imaginar o tédio insuportável das pessoas que nascem e morrem na mesma cidade, ou, pior ainda, na mesma casa.
Gosto de mudar. De casa, de cidade, de vida, de tudo. Nasci nômade, mas me perdi da minha tribo e vim parar em uma sociedade tradicional. Só que nunca me acostumei a esse estilo de vida. Em média eu me mudo de casa ou de cidade a cada cinco anos. Monto outra casa, reformo, equipo, decoro… e vivo. De repente, largo tudo e vou para outro lugar.
Essa mesmice dessa quarentena sem fim está “um porre”. Porque não se trata simplesmente de ficar em casa. Até gosto muito de ficar na minha casa. Mas não gosto de não poder sair. De não poder reunir pessoas. De não encontrar. De não poder ir comprar um equipamento para substituir um que deixou de funcionar.
Na verdade, odeio tudo o que é proibido tanto quanto tudo o que é compulsório. Da mesma forma que não aceito pautar minha vida pelo “tem que”, também não me venham com o “não pode”. Da minha vida sei eu.
Mas essa situação, inusitada, me pegou desprevenida. Não posso ser fator agravante do risco de contrair a peste para as pessoas com as quais convivo, e, que por suas idiossincrasias, já são de grupo de alto risco.
Então tenho de fazer de conta que me conformo. Mesmo porque não é possível sequer ir tomar meu infalível café – todas as cafeterias estão fechadas.
Nem ir para São Paulo – tudo fechado, nada funciona…
Em suma, por absoluta falta de opção (não de vontade), cumpro o isolamento que me foi imposto.
Espero que acabe logo. Minhas asas estão “coçando”. Se eu não voar, morrerei de tédio.
Aos poetas que se foram
Começo a escrever para postar neste blog. Gosto de silêncio absoluto ou boa música enquanto escrevo. Então coloco uma seleção de fados – um vídeo de show em Lisboa. Distraída, vou escrevendo, enquanto relembro fatos de um passado remoto, fatos recentemente ocorridos, vou repassando memórias… de repente, ouço um fado desconhecido. Paro de escrever e ouço, embevecida. Impossível não pensar no meu amigo poeta, que somente ontem soube que nos deixara. Largo meu texto inacabado, e posto, hoje, aqui, essa beleza. Um tributo a todos os poetas que se foram.
Hoje Morreu Um Poeta (Rui Manuel / Vital d’Assunção)
Silêncio
Hoje morreu um poeta
E a carne morreu esquecida
Como esquecida viveu
Silêncio
Hoje morreu um poeta
Que espalhou rimas de vida
Nos poemas que escreveu
Fez rimar terra com pão
Emigrante com fronteira
E rimou humilhação
Com repulsa e bebedeira
Fez um terço de poesia
Bem na ponta dos seus dedos
Rimou dor com alegria
E criança com brinquedos
Fez rimar ponte com rio
Pescador com tempestade
Rimou estiva com navio
Grilhetas com liberdade
Na inspiração maior
Que um verso pode conter
Rimou amor com amor
E ternura com mulher