Velho barco

Não gostava de se ver no espelho depois de tirar toda a maquiagem.

Sabia não ser bonita, mas conseguia efeitos mágicos quando maquiada. Odiou-se por tudo. Ele a deixara. Culpava-se por não ser bonita, não conseguir prendê-lo, não ser interessante… Mas o amava e achava que ele jamais a deixaria.

Ele brincava com ela. Porque tinha certeza que ela estava sempre disponível, e ele zombava dessa paixão intensa, ia e voltava, não a respeitava.

Já sentia saudade dele, de suas mãos, do conforto de seu peito, de seus braços… mas ele dissera que dessa vez era para sempre. Ele não voltaria mais, estava firme em outra relação e amava outra mulher.

Conseguiu manter sua dignidade e não chorou na frente dele nem implorou para que ficasse. Talvez na aflição do momento não tenha entendido direito o que ele dizia. Agora, sozinha, mastigava mentalmente cada palavra. De certa forma sentia alívio. Nunca sabia se estavam ou não juntos, porque ele era inconstante. Mas cada vez que ele voltava ela se sentia a mais feliz das criaturas. Mesmo sabendo que logo ele sumiria de novo. Por esse prisma, era realmente melhor saber onde pisava, mesmo que isso custasse a separação.

Começou a chorar.

Entendeu, então, que era apenas um velho barco abandonado num cais…

(Imagem: foto de Carlos Eduardo Ferreira)

Dia de Poesia – Cecília Meireles – Eu sou aquela pessoa

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

a que não se recusa, a esse final convite,

em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

 

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.

Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:

já de horizontes libertada, mas sozinha.

 

Se a Beleza sonhada é maior que vivente,

dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?

Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

 

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas

vão as medidas que separam os abraços.

Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

 

“Agora é livre, se ainda recordas”.

Mais uma noite

A noite chega com seus mistérios. Para alguns a noite “desce”. Não sei se ela estava no alto, esperando o horário para descer… Outros dizem “cai” a noite… será que ela ainda existiria se caísse todos os finais de tarde desde que o mundo existe?

De onde vem a noite?

Aos poucos ela vai mudando as cores do dia, esmaecendo as luzes, afastando o sol, até tomar conta de tudo.

A transição entre o dia e a noite – a linda e poética “hora crepuscular” – fascina.

A noite, para nós, é curta, porque a usamos para dormir. Não a vemos. Não a vivemos.

Mas eu já a vivi intensamente.

Às vezes sinto saudade de tempos passados, quando era possível sair em São Paulo por volta de 21h00, de carro, e ir em vários bares, até amanhecer o dia seguinte. Vida leve. Vida boa. Que não voltará jamais.

Agora, o silêncio da noite, quebrado unicamente pelo incessante cantar do mar, me ajuda a adormecer.

Sobre o escuro mar noturno, dezenas de luzes dos navios fundeados. O único sinal de vida que posso visualizar.

Fico a ouvir o mar e esperar que algumas estrelas venham enfeitar o céu.

A alternância impassível entre dia-e-noite escancara meu envelhecimento. Quantas noites já tive em minha vida?

Seguramente mais de vinte mil.

Se o anoitecer aqui na praia é lindo, não menos maravilhoso era o anoitecer no sítio, numa montanha da Mantiqueira. Em noites de lua cheia eu ficava na varanda, vendo o pasto se pratear ao luar e aproveitava cada minuto daquele alumbramento.

E todos os dias da minha vida terminaram em um anoitecer. Assim como minha vida, onde também já anoitece.

Mágoas

Deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoas, e qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d’água… (Chico Buarque)

 

 

Mágoas e mais mágoas… quantas mágoas trazemos na alma, de tantas desatenções, de tantas decepções…

Com quantas mágoas se faz uma tristeza?

Difícil fazer de conta que não magoa, fazer de conta que não sente nada… o pote vai enchendo e a qualquer momento transbordará. Por mais delicado que alguém seja, nada impede que outro o magoe profundamente, por egoísmo, por vaidade, para se mostrar superior, em razão de complexo de inferioridade.

E o coração corta e sangra a cada mágoa. E vai ficando cheio de cicatrizes. Alguns são tão magoados que se protegem por uma couraça. Mas estouram da mesma forma, através de terríveis somatizações, porque é impossível não transbordar.

E se temos medicamentos à vontade para as dores do corpo, nenhuma existe para a dor da alma – a mágoa.

Algumas pessoas colecionam cristais, outras, soldadinhos de chumbo. Eu coleciono mágoas. Tenho de todos os tipos, cores e tamanhos. Causadas por tantas e tão diferentes pessoas e ações.

Vivo me policiando para não magoar quem convive comigo. Engulo alguns desaforos, enfrento decepções, mas procuro não magoar. O inverso não ocorre. Às vezes tenho a impressão que as pessoas se dedicam a me magoar. Pouco se importam com minha dor. Não conhecem minha alma.

Mas meu coração, tal como o pote da canção, está à beira de transbordar…

Dia de poesia – Mia Couto – Ser que nunca fui

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

(In “Raiz de Orvalho e Outros Poemas”, 1999)

Meu coração silenciou

Meu coração silenciou.

Como num vácuo do tempo e dos sentimentos.

Foi-se a ansiedade, foi-se a angústia.

Tomou-se de uma profunda calma e então serenou.

Bate agora tranquilo dentro de um compasso confortável.

Não sangra nem grita. Não dispara nem ameaça parar.

Cumpre sua nobre função. Apenas isso.

Já não há mais emoção.

Nada o atinge nem perturba.

Sinto falta de sua desordem, seus sobressaltos.

Falta daquela adrenalina continuamente ativa.

Porém já não encontro nada disso.

Meu coração silenciou.

Simplesmente a paixão se acabou.