Sonho

Lobo que surge na noite

Que traz consigo o encanto

Lobo que some na noite

Deixa um rastro de paixão

Seu chamado é irresistível

Ecoa dentro da alma

 

Todo anoitecer ponho-me à espera

Ansiosa, sem saber se esse Lobo virá

Ele me sabe mais do que eu o sei

Porém eu o sinto mais que ele me sente

Sua força é irresistível

Faz de mim um seu brinquedo

 

Quando esse Lobo surge a meu lado

E me conta coisas de outros mundos

Dos caminhos que trilhou

Mostra amores que desconheço

Sua promessa é irresistível

E me chama para que eu o siga

 

Sempre tento em vão não escutar

O que me fala esse Lobo

Sei que ainda o seguirei.

Não, Lobo, não torne a chamar

Seu chamado é irresistível

Um dia irei com você…

Dia de Poesia -Francisco Otaviano – Morrer… Dormir…

Morrer .. dormir .. não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores: 
Um punhado de terra, algumas flores, 
E às vezes uma lágrima fingida!

Sim! minha morte não será sentida; 
Não deixo amigos, e nem tive amores! 
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.

Tudo é podre no mundo.  Que me importa
Que ele amanhã se esb’roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!

É tempo já que o meu exílio acabe,
Vem, pois, ó Morte, ao Nada me transporta!
Morrer… dormir… talvez sonhar… quem sabe?

 

 

Um dia…

A minha alegria é a melancolia. (Michelangelo Buonarroti)

Um dia serei feliz. Feliz mesmo. De verdade. Não essas pequenas alegrias que esticamos ao máximo para nos sentirmos felizes por algum tempo. Mas Feliz. Assim mesmo: Feliz.

Um dia, não agora.

Sou feita de saudade e melancolia. Desesperança e ansiedade. Isso não é ser feliz. Nem mesmo alegre. Para ser sincera, muitas vezes penso que felicidade é uma palavra que inventaram para que a humanidade fosse eternamente frustrada. Porque nunca vi ninguém exatamente, plenamente e ostensivamente feliz. Alegre, talvez, mas feliz? Nunca.

Mas um dia serei feliz. Prometo.

Nada irá sombrejar meu olhar, que será claro, límpido, luminoso, como só o olhar das pessoas felizes pode ser. E meu sorriso… nada o impedirá. Aberto, cristalino, verdadeiro – o sorriso de alguém feliz.

Meus braços estarão sempre ocupados num abraço sem fim e minhas mãos derramando carinhos em alguém que muito me encante.

Serei só ternura, maciez e aconchego.

Mas não agora. Isso no dia em que eu for feliz…

Dia de poesia – Mia Couto – Saudade

 

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono Mia Couto, in ‘Raiz de Orvalho”(Foto: Adriano dal MolinPôr-do-sol sobre o Rio MadeiraMirante II, Porto Velho, ROem 01.02.2007, às 17h02)

Para o Darcy

Para se somar às tristezas e às perdas de 2019, chega-me a triste notícia do falecimento de Darcy. Meu muito querido amigo Darcy Passos.

                                                     

Pessoa extraordinária, de memória privilegiada, cultura invejável, e um humor inigualável. O seu lugar no coração dos amigos jamais será preenchido.

Conhecemo-nos há mais de trinta anos. E a amizade e o entrosamento foram instantâneos. Da mesma forma que tivemos sérios embates pelas nossas posições políticas frontalmente opostas, demos muitas risadas. Muito mais diversão e alegria do que desentendimentos. E quantos whiskies bebemos juntos… daria para encher muitas garrafas… E declamamos, e cantamos, e dançamos… encontrar o Darcy era, por si só, uma festa. Se fosse em uma festa, sem dúvida ele era a alma, o centro da reunião. Tinha uma rara capacidade de agregar as pessoas, com amigos de todas as idades.

Quando começou a lambança na política, perguntei-lhe um dia (com a liberdade que os verdadeiros amigos têm) o que ele estava achando do cenário. Com uma indescritível tristeza nos olhos ele me respondeu que “não foi para isso que passei tudo o que passei na vida nem que minha família sofreu o que sofreu”, disse que não mais queria saber de política… ele, o grande Darcy, tivera sua maior desilusão.

Certa vez, fizemos uma viagem de navio em que não parava de chover. Então ficávamos todos no bar o dia inteiro… “derrubamos” o bar do Costa… acho que não sobrou uma garrafa de whisky no estoque. Dias inteiros de cantorias e risadas…

Todos os seminários que participamos, suas verdadeiras aulas quando lhe era dada a palavra. 

Hoje você partiu, Darcy. Nunca mais cantará nem declamará para mim. Guardo com carinho as lembranças de nosso último encontro. Já doente, você não podia me ver. Cantei para você uns versos do Vinicius que você cantava para mim e de imediato você falou “Alice!!!!”. Chorei naquele dia, Darcy, ao ver como a vida estava sendo cruel com você, lembrava-me que sempre eu lhe dizia que quando você não fosse mais usar seu privilegiado cérebro, se você o daria para mim… quanta tristeza, meu amigo, e você não está mais aqui para fazer uma graça, para me fazer rir, para tentar me alegrar…

Como choro agora, enquanto escrevo e ouço Vinicius cantando as mesmas músicas e já começo a sentir saudade de você. Quem conviveu com você entende a falta que sentiremos de sua presença amiga, calma, ponderada, lúcida e genial.

Obrigada, Darcy, por seus ensinamentos. Por tudo que me ensinou de política, geopolítica, instituições e constituições… de amor, paixão, sentimentos, poesias… pelo seu bom humor…

Obrigada, Darcy, por todas suas anedotas, mesmo as que eram sobre mim e me faziam rir tanto… por todos os whiskies que compartilhamos.

Vá, meu querido amigo, em paz, que você merece o descanso eterno. Até um dia, se Deus quiser…

Hoje é dia de poesia – Neruda – Te amo!

Te amo de uma maneira inexplicável,
de uma forma inconfessável,
de um modo contraditório.
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
e mudar de humor continuadamente
pelo que você já sabe
o tempo,
a vida,
a morte.
Te amo, com o mundo que não entendo
com as pessoas que não compreendem
com a ambivalência de minha alma
com a incoerência dos meus atos
com a fatalidade do destino
com a conspiração do desejo
com a ambiguidade dos fatos
ainda quando digo que não te amo, te amo
até quando te engano, não te engano
no fundo levo a cabo um plano
para amar-te melhor
Te amo, sem refletir, inconscientemente
irresponsavelmente, espontaneamente
involuntariamente, por instinto
por impulso, irracionalmente
de fato não tenho argumentos lógicos
nem sequer improvisados
para fundamentar este amor que sinto por ti
que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada
e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada,
melhorou o pior de mim.
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
com um coração que não raciocina
com uma cabeça que não coordena.
Te amo incompreensivelmente
sem perguntar-me porque te amo
sem importar-me porque te amo
sem questionar-me porque te amo
Te amo
simplesmente porque te amo
eu mesmo não sei porque te amo…

(Pablo Neruda)