Pipas ao vento

Senhor, acalmai os ventos. / Tornai nosso céu azul.
Abençoai nossas pipas e papagaios, para que sejam lançadas com muita paz e segurança.
Senhor, iluminai nossas almas, para que dela flua uma beleza sincera e harmoniosa.
Senhor, tu és soberano, dai-nos a sabedoria divina para transformar nossos sonhos em realidade.. 
(Oração do Pipeiro) 

Dançam, coloridas, as pipas no ar. Ventos de agosto. Hora de soltar papagaio. Ou pipa, ou pandorga, ou arraia, cafifa, quadrado, pepeta ou ainda outros nomes por esse Brasil afora. 

A praia, terreno livre, sem fios, sem trânsito, é o local mais que apropriado para essa brincadeira, que vem de tempos imemoriais, comprovadamente mais de 200 anos a. C, na China. 

É muito interessante toda a atividade que envolve essa brincadeira – fazer, ou melhor, construir a pipa é uma arte. Que um de meus irmãos, Paulo Cesar, dominava com maestria e tinha paciência de ensinar à exaustão quem quisesse aprender. 

Na falta da praia em nossa cidade, usávamos as calçadas e ruas, praças e canteiros centrais das avenidas para empiná-las. 

E eram várias ao mesmo tempo. 

Uma corridinha, e a pipa solta começava a subir. A arte de dar linha e puxar, soltar e prender, se cabeceava era preciso recolher e corrigir a rabiola. 

Para recolher era preciso muito cuidado, ou poderia cabecear e bater no chão, se espatifando e portanto estaria imprestável. Não podíamos desperdiçar o papel.  

A cada uma que subia e se estabilizava, a linha correspondente, presa numa lata vazia de ervilha, massa de tomate ou palmito, que era trazida até o chão e firmada com uma pedra grande. 

E ficávamos, extasiados, assistindo ao colorido balé aéreo que as pipas proporcionavam. 

E desta forma as tardes de agosto se iam entre a escolha dos bambus, seus cortes, a confecção das pipas e a melhor parte, que era empinar. 

Se o vento aumentava anunciando chuva, as pipas eram cuidadosamente recolhidas e guardadas para a próxima tarde. Uma relação realmente de carinho, como se as pipas tivessem vida própria. Talvez carregassem em si um pouco do sonho de voar de cada um de nós. Na impossibilidade de subirmos nós mesmos, dávamos linha a nossas pipas, e nos realizávamos ao vê-las voando mais e mais alto. 

Assim na vida venho construindo e empinando pipas figuradas. Quantos relacionamentos começaram na escolha do bambu certo, buscado direto na moita, que foi colhido, cortado, aplainado para que as pontas deixassem de machucar. Depois o corte do papel, cujas cores deviam combinar em tons e contrastes agradáveis aos olhos. 

Com muito afeto era construída a pipa do relacionamento, e chegava a hora mais terrível: ver se conseguiria empinar esse relacionamento, se dando linha ele iria alto, ou iria cabecear e se espatifar no asfalto da vida. 

Se não dermos linha nossa pipa não sobe. O ciúme é a negativa da linha – nega à pipa sua própria natureza de voar alto. E a pipa no chão se quebra mais fácil ainda. 

A perfeição da pipa está na altura de seu voo – quando mais alto conseguirmos empinar, soltando a linha generosamente, mais bonita de se ver, mais perfeita como pipa. 

Mas dando linha corremos o risco de vê-la ir-se para sempre, restando-nos apenas a lembrança de suas cores a sorrirem do alto. 

Muitas vezes – que acontece reiteradamente em minha vida – quando minha pipa voava alto, dançando linda contra o céu azul, outra pipa traiçoeira, com cerol, sorrateiramente a arrebatava de mim. 

Ou, ela própria, rebelde, por si mesma, arrebentava a linha e se ia, deixando o vazio na paisagem que compunha. 

Sobraram-me a lembrança do carinho com que a construí, sua figura a bailar no ar, e o resto da linha que ficou em minhas mãos. 

Só quem empinou pipas em criança e perdeu outras depois de adulto sabe a poesia que há nas pipas voando alto, mas não livres. Porque quando se soltam e partem no voo solo deixam de ser pipas, são varetas grudadas em papéis soltos no vento, sem dono, sem destino, sem volta… 

Vejo-as, agora, daqui de minha janela, sorrindo para mim e para a praia aqui em embaixo, e morro de inveja das pipas que voam alto e dos moleques que as prendem à Terra.

Que vontade de empinar uma pipa!

(Guarujá, 20.08.2008)

Como é que se esquece alguém que se ama?

Texto lindíssimo do jornalista português Miguel Esteves Cardoso, que vale a pena ser lido:

 

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa – como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?

As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar. Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguém antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.

É preciso aceitar esta mágoa, esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.

Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.

Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.

O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.

(Miguel Esteves Cardoso, in ‘Último Volume’)

Assim sou eu

 

Não olhe assim para mim

Sou apenas uma mulher

Do século vinte e um.

Eu que faço acontecer,

Que passeio em rua coberta,

Que cozinho em micro-ondas,

Sou apenas uma mulher,

Que trabalho, luto e vivo

Plenamente em minha época.

Faço poesia no computador,

Ando na corda bamba da vida,

Mas preciso de você comigo.

Você é meu solo, minha luz, minha água.

Não tenha receios de mim:

Se abandone a meu lado – sem medo,

Tal como se fosse uma orquídea,

Não sou parasita – sou epífita.

Angelita di Anzio

 

Conta-se – não se sabe se lenda ou verdade – a estória de uma menina de cinco anos encontrada chorando numa praia no Lazio, quando do desembarque dos Aliados, já no fim da Segunda Guerra.

Segundo se sabe por estórias contadas no local, ela foi encontrada pelo soldado escocês Royal Scots,  fuzileiro, e alguns dos seus camaradas, talvez mesmo por alguns soldados brasileiros.

Levaram a criança da praia, onde estava sozinha, e tentaram encontrar sua família ou descobrir alguma coisa, mas nada conseguiram, deram-lhe o nome de Angelita e a confiaram a uma enfermeira. Dias depois ambas – Angelita e a enfermeira – morreriam durante um bombardeio.

A estória se popularizou e a cidade de Anzio, onde se deram os fatos, resolveu construir um monumento à menina, que foi feita pelo escultor Sergio Cappellini, inaugurado em 22 de janeiro de 1979 (Dia Mundial da Criança), onde se vê a garota cercada por gaivotas.

Poetas

Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos. (Cora Coralina)

 

O que faz de um ser humano um poeta?

A tristeza? As adversidades? As dores dos amores não vividos ou não correspondidos?

O que desperta esse ser poeta?

A beleza? O amor? A natureza?

Já dizia o Poeta (poeta, só o Poeta, assim, com artigo definido e letra maiúscula é Vinicius de Morais) que ninguém é poeta por saber rimar…

E não é mesmo. Para fazer rima basta um dicionário.

Para ser poeta é preciso muito, muito mais…

Mais que um dicionário, um papel e um lápis.

Mais que um grande amor, muita paixão e a saudade doída da separação.

E um sentimento humano tão grande, tão maciço, que sufoca, não deixa respirar e faz chorar.

Pode ser que com tudo isso surja um poeta. Mas mesmo com tudo isso e ainda mais, muitos não se mostram poetas.

Não sabem ver a beleza da flor que virá quando olham um simples botão; nem prever o brilho das estrelas antes do anoitecer.

Não sabem ouvir a voz dos anjos nem o pranto não chorado dos que sofrem calados.

Não veem em cada ser à sua volta uma criação divina, à imagem e semelhança do Pai.

E, principalmente, não soltam os freios do próprio sentir, mantendo em cárcere privado o próprio amor, afundados em egoísmo.

Esses jamais serão poetas.

Porque poetas olham para a terra bruta e enxergam o jardim que poderia ser.

Olham a poça d’água e pensam na infinidade do mar. Olham para as pedras e sonham montanhas.

E, mais que tudo isso, vêem com os olhos do coração, o qual mantêm solto, sem freios nem rédeas, ao acaso da sorte e ao sabor das paixões.

Por isso vêem outro mundo na nossa realidade, e nos levam aos píncaros das emoções, despertam sensações indescritíveis, fazem-nos sentir a alma como as cordas retesadas de um violino.

A beleza de sua produção é diretamente proporcional ao sofrimento que experimentam. Porém alguns, em face de uma grande dor, num momento de ternura e raiva destroem toda sua produção e nunca mais escrevem. Muito triste quando isso acontece.

Na felicidade nada conseguem expressar.

Há poetas da vida, das palavras, dos sons, das cores… porque há poesia em tudo, em cada esquina, em cada parede, em cada face. É preciso ter olhos especiais de poeta para enxergar.

E para quem não enxerga, há os poetas, que podem ver e traduzem a todos a beleza e a dor que veem e que sentem.

Por isso são imortais, centenas de anos se passam, mas a poesia é presente, é viva e não morre jamais.

Abençoados sejam os poetas.

(obs. – escrito aos 18/04/09 , antes de me descobrir ou de me assumir poeta…)

A dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É lanhar-se em pedras quentes para sentir outra dor maior, bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

São lágrimas sem fim, bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.