Texto de Piátnitsa Melo

Algumas vezes penso que ele conversou comigo antes de escrever…

 

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 É-me impossível fugir da essência incandescente e frágil que me liga a ti. É algo que tento controlar, mas que me descontrola, sempre que penso em ti.

A cada dia, acresce uma nova esperança e a ilusão fantasiosa, que se forma, em meu ser, me envolve e me queima por dentro, como de um desejo incontrolável se tratasse, por doer tanto. Mas o amor é assim e penso que a todos acontece, sentir a ilusão de amar quem ainda não nos amou… sentir o terno abraço, de quem nunca nos abraçou… sentir preciosos momentos de pura ficção, como algo que estivesse a ser vivido, mas, que, infelizmente só é sentido em flashes de distração que se formam em meu subconsciente baseados na esperança de um dia tornar real todo este sonho que coabita dentro de mim, ao qual, se me tornou, inevitável escapar.

É um sentimento que começou com escassos segundos, que se duplicaram; se treplicaram; mas que agora se apoderaram e me mortificam, de dia e de noite, como que, pensar em ti, seja o único comprimido capaz de serenar minha alma e contagiar meus sonhos, ao ponto, de me perguntar, a sonhar, se de facto estou a sonhar, por serem reais de mais, para que sejam sonhos.

Ao mesmo tempo, esta ilusão irreal, de te amar, que se torna real quando perco o controlo da consciência, é um fenómeno tão envolvente e tão fascinante, que mesmo não existindo, nada em concreto, a não ser esta compreensão errada da mente, de um dia, tu e eu e eu e tu, nos pertencermos, me faz feliz.

Talvez reveja em ti, o que já vivi?

Talvez seja o passado a fundir-se com o presente e tu sejas a mesma em outra vida, mas que para mim és a mesma que já amei e continuo a amar, duas vezes, numa só vida? Tudo prova, que és tu que tanto amo, mas que tanto me assusta, te amar, por não ter como provar, o que os dois juntos já vivemos. Há coisas que nunca te poderei explicar! Palavras que nunca te poderei dizer!

Momentos, que só eu poderei reviver e que tu apenas, poderás desfrutar. Ápices, de um passado, vivido a dois, que se cruza com o presente, único para ti, mas não para mim, mas que se funde com o presente do amanhã, como só de um momento se tratasse, em tua vida. Conhecimento que não te posso revelar e o qual daria tudo para não saber, porque é um saber que me faz sofrer.

Apenas te quero dizer, que te amo, porque já te amei e também me amaste, mais que a tua própria vida, e que me continuas amar, contra a tua vontade, por não saberes, descodificar, o laço de afinidade que te prende a mim…

Mas, o amor, não é para descodificar nem compreender. Apenas se deve deixar acontecer, e é isso que eu espero que um dia aconteça, entre mim e ti, entre nós dois, comigo e contigo. Sim! Eu e tu, juntos para sempre, nos amando, sem querer saber, qual a razão, que nos une eternamente..

 

Ainda de saudade

Saudade 
«É uma mania que a alma tem
De ouvir o que não é dito.
De sentir o que não se toca,
de ver o que não pode ser visto.
saudade,
é um pedacinho da gente,
Que alguém sem pedir permissão,
Leva para bem longe.»

(Marcelo Vico)

 

 

Quantas vezes eu já escrevi sobre saudade. E quantas mais sobre saudade eu li…

Saudade, essa presença incômoda de uma ausência que não nos abandona.

Esse sentimento de gosto amargo que adoça a vida com doces lembranças.

Essa presença invisível que nos acompanha dia-a-dia, hora-a-hora.

Esse fio mágico que não conhece distâncias e nos mantêm unidos a quem se foi.

Ah, saudade, eu peço, me deixe em paz. Procure outra alma para fazer seu ninho.

Quero viver sem pensar, sem lembrar, quero viver sem ter saudade.

Mas, imagino, sem saudade, a vida seria um deserto onde somente se avança

Onde não há um velho porto à nossa espera para voltarmos

As portas se trancam à nossa passagem e impedem o regresso

Porque sentir saudade é voltar um pouco e encontrar quem se foi

É trazer de volta sensações, cheiros, toques, abraços que se foram

Viver sem saudade é viver sem lembranças doces

É trilhar o atalho até à morte sem se ter vontade de ficar

Então eu peço: Saudade, fique! Não me deixe nunca!

Do vento

“O sol e o vento falam apenas de solidão.” (Albert Camus)

 

O que é, em que consiste, do que é feito o vento?

Não quero definições científicas, que existem nos almanaques. Quero que o vento me diga quem é, de onde vem, o que quer de mim e para onde vai.

Por que em dias mansos ele também vem manso, disfarçado de brisa e apenas levemente balança as folhas da pontas dos galhos das árvores?

Por que em dias atribulados, ele vem rápido, ventando, derrubando e fazendo barulho?

E, nos dias de tormento, ele se avoluma, zune, grita e assovia, leva tudo consigo, desarranja os cabelos de todos, desmancha sonhos e desfaz realidades?

Ah, vento, de onde você vem? O que já viu nos lugares por onde passou?

E essa pressa, vento, para onde você vai que não pode parar um só instante e ficar aqui comigo?

O vento é igual a uma lufada de paixão. Vem sem se saber de onde, arrasta tudo, bagunça nossos cabelos, muda a realidade.

E se vai. Subitamente como veio, segue embora e nos deixa ainda mais solitários e desvalidos.

Vento e paixão são feitos da mesma matéria .

Não se pode prender a paixão, ou deixará de ser paixão. Esse laço não pode ser apertado para não virar nó e estrangular a paixão. Tem de ser livre, vir quando quiser, ir quando bem lhe aprouver. Assim como o vento. Tente prender o vento.Se barrado, instantaneamente desaparecerá. E ele morrerá. Porque, preso, contido, limitado, deixará de ser vento. Sua essência é a liberdade.

Sonhos

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado montado num cavalo branco

Já passou o tempo de esperar o príncipe encantado de carroça ou a pé

Já nem precisa ser encantado, nem mesmo príncipe… apenas encantador

Mas se não puder ser encantador, que seja apenas atencioso

O tempo passou e levou todos os sonhos da juventude

E a vida não deu outro tempo para construir novos sonhos

E o tempo não parou para que alguém notasse a falta deles

E a vida seguiu sem sonhos, só na dura realidade que não deixa pensar

O tempo da diversão deu lugar ao tempo da responsabilidade

A leveza da juventude cedeu sua vez à intensidade da maturidade

E a vida se tornou um parque de responsabilidade, de deveres sem direitos

Um dia ao longe a vida mostra um lindo príncipe em um belo cavalo branco

Impossível alcançá-lo ou ser notada por ele no borralho da realidade

Então vem à mente a vontade já indisfarçável de fugir. Não com o príncipe

Mas montar seu próprio cavalo e, finalmente com as rédeas nas próprias mãos, 

Simplesmente ir…

Dia de Poesia – Machado de Assis – À Carolina

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro. 

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro. 

Trago-te flores, – restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa separados. 

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.